Polícia apura duas novas mortes ligadas a suspeita de injeção letal no DF
A Polícia Civil do Distrito Federal investiga outras duas mortes em UTIs que podem estar ligadas à aplicação de injeções letais. Os casos surgem após famílias relatarem quadros semelhantes aos atribuídos ao técnico de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, investigado desde janeiro de 2026.
Relatos repetem padrão de mortes súbitas
Os novos relatos chegam à delegacia especializada poucos dias após a revelação do suposto uso de injeção letal em hospitais do DF. Parentes de dois pacientes que morreram em circunstâncias parecidas procuraram a polícia por iniciativa própria e descreveram uma cena que consideram familiar: um quadro estável que muda de forma brusca logo após a aplicação de medicação na UTI.
De acordo com investigadores ouvidos pela reportagem, essas famílias falam, com detalhes, da atuação de Marcos Vinícius nos plantões. Elas afirmam lembrar da presença dele na unidade em momentos próximos às mortes. “O que nos chamou atenção foi a semelhança do relato com os casos já em apuração”, diz um policial envolvido na investigação, sob condição de anonimato.
Os depoimentos são, por enquanto, informais. A polícia prepara oitivas formais para os próximos dias e já decidiu pedir os prontuários médicos dos dois pacientes ao hospital onde as mortes ocorreram. A ideia é cruzar horário de medicações, escalas de plantão e evolução dos quadros clínicos, em busca de um padrão semelhante ao identificado em outras vítimas.
Os casos se somam à investigação principal, aberta em janeiro de 2026, que já mira a atuação de Marcos Vinícius em UTIs de, ao menos, dois hospitais do DF. A CNN Brasil revelou que ele é apontado pela polícia como principal suspeito pela aplicação de substâncias que teriam provocado paradas cardiorrespiratórias fatais em pacientes internados.
Hospitais sob pressão e protocolo em xeque
A apuração atinge o coração da rotina hospitalar do Distrito Federal. Se os novos casos forem confirmados, o Ministério Público e os conselhos profissionais podem ser pressionados a rever protocolos adotados tanto em unidades públicas quanto privadas. Em UTIs, onde cada minuto importa, a confiança entre família, equipe e instituição é tão central quanto qualquer medicamento de alto custo.
Conselhos de enfermagem e de medicina acompanham os desdobramentos. O Conselho Regional de Enfermagem do DF já manifestou interesse em ter acesso formal aos inquéritos. Internamente, a avaliação é que o caso expõe fragilidades no controle de acesso a medicamentos de alta periculosidade e na rastreabilidade de quem administra cada dose em pacientes críticos.
Especialistas em gestão hospitalar ouvidos pela reportagem afirmam que o episódio pode deflagrar uma revisão ampla de procedimentos. Entre as medidas em estudo estão a ampliação do monitoramento por câmeras em UTIs, o registro eletrônico detalhado de todas as medicações e auditorias mais frequentes nas escalas de técnicos e enfermeiros. “Não se trata de criminalizar a categoria, mas de fechar brechas que hoje dependem, em excesso, da confiança individual”, avalia um gestor de um grande hospital da rede privada de Brasília.
O caso também reabre o debate sobre a carga de trabalho nas equipes de enfermagem. Plantões longos, múltiplos vínculos e supervisão reduzida são citados como fatores que dificultam a identificação rápida de desvios de conduta. Em um cenário de pressão constante por leitos e alta rotatividade de pacientes, qualquer falha de vigilância pode permanecer invisível por semanas.
Até agora, a polícia não encontra elementos claros que liguem as vítimas entre si. Não há idade, condição clínica, origem social ou profissão em comum. “São pessoas de famílias diferentes, de origens diferentes, profissões diferentes”, resume um investigador. Essa ausência de padrão reforça a percepção de que, se houver crime, ele não obedece a um critério fácil de mapear.
Quebra-cabeça depende de laudos e pode mudar rotina nas UTIs
Os laudos periciais dos equipamentos eletrônicos apreendidos com os suspeitos são tratados como peça decisiva do inquérito. Celulares e computadores passam por varredura em busca de mensagens, pesquisas, anotações ou qualquer pista que ajude a explicar o que teria motivado as aplicações letais. A expectativa dos investigadores é receber os resultados ainda no primeiro semestre de 2026, prazo considerado curto para perícias complexas.
Sem esse material, a motivação permanece em aberto. A polícia descarta, por ora, hipótese de atuação em grupo organizado com fins econômicos claros, como desvio de medicamentos caros ou fraudes em planos de saúde. A linha de investigação inclui a possibilidade de comportamento individual desviante, mas os investigadores evitam cravar qualquer perfil psicológico antes de ouvir peritos especializados.
Enquanto o inquérito avança, famílias de pacientes que morreram nas mesmas unidades começam a revisitar prontuários e registros antigos. Escritórios de advocacia relatam aumento na procura por orientações desde que o caso se tornou público. Em muitas casas, a pergunta se repete: a morte do parente foi mesmo inevitável?
Autoridades de saúde do DF já discutem, reservadamente, mudanças nas rotinas de UTI. Entre as propostas estão limites mais rígidos para o manuseio de certas drogas, dupla checagem obrigatória em medicações de risco e revisão de protocolos de notificação de eventos adversos graves. O objetivo é impedir que uma única pessoa, em qualquer nível da hierarquia, tenha espaço para agir sem rápida detecção.
Os próximos dias devem trazer novos depoimentos de familiares e profissionais de saúde, além da análise dos prontuários requisitados. O avanço das perícias digitais tende a definir se o caso ficará restrito a um conjunto específico de mortes ou se abrirá uma frente mais ampla de apuração, com impacto direto na forma como UTIs brasileiras lidam com o paciente mais vulnerável: aquele que não tem voz para contar o que aconteceu.
