PM monta plano contra superlotação em bloco de Ivete no Ibirapuera
A Polícia Militar de São Paulo prepara um plano de contenção para evitar superlotação no bloco de Ivete Sangalo, em 7 de fevereiro de 2026, no Ibirapuera. A estratégia tenta compensar a falta de definição clara sobre a capacidade do circuito da avenida Pedro Álvares Cabral, que pode receber centenas de milhares de foliões.
Carnaval gigante em espaço sem número oficial
O primeiro desfile de Ivete no Carnaval de rua paulistano transforma a região do Parque do Ibirapuera em teste de fogo para o poder público. A São Paulo Turismo (SPTuris), responsável pela organização, admite que não sabe precisar quantas pessoas o trajeto entre o parque e o Palácio 9 de Julho, sede da Assembleia Legislativa, comporta com segurança.
Em reunião recente na subprefeitura da Vila Mariana, um representante da SPTuris afirmou que a estimativa de 280 mil pessoas circulando pelo circuito “não é exata”. Segundo relatou, “dependendo de quem fala, vai dar um número diferente” para a capacidade. Nem a empresa municipal nem a Prefeitura responderam, até agora, qual é o limite oficial de público para o local.
A incerteza acende o alerta na cúpula da PM, que já trabalha com a hipótese de superlotação desde a abertura dos portões. A expectativa é de um público “gigantesco”, impulsionado pela estreia de Ivete na cidade, pelo alcance nacional da cantora e pela tradição do pré-Carnaval no Ibirapuera, que também recebe blocos como os de Mariana Aydar e Alceu Valença.
Plano escalonado e disputa por espaço
O plano montado pela PM prevê uma liberação em etapas das áreas de circulação, para tentar evitar gargalos e empurrões em massa. A polícia decide, primeiro, ocupar o espaço entre o tapume e o portão do Parque do Ibirapuera. Depois, abre os portões do próprio circuito e do corredor de emergência. Só como último recurso, em um cenário considerado crítico, libera a entrada do público no interior do parque.
O maior temor está em um trecho específico do percurso, apelidado de “funil”, em frente à ALESP. O representante da PM foi direto na reunião: o trio elétrico de Ivete “não pode, de jeito nenhum, parar” ali. A orientação é seguir em movimento até o Monumento às Bandeiras, em frente ao parque, para reduzir a pressão das pessoas sobre os tapumes e as estruturas de proteção.
Segundo a avaliação da corporação, uma parada prolongada nesse ponto poderia provocar rompimento de barreiras, queda de grades e efeito dominó sobre quem estiver mais próximo. Em linguagem simples, o risco é de o público “estourar” as linhas de contenção, com potencial de desastre em poucos segundos. O histórico de tragédias associadas a superlotação em eventos de massa pesa na mesa de planejamento.
A PM também mira a chegada dos foliões ao circuito, considerada hoje um dos pontos mais frágeis do esquema. A corporação pediu mais gradis para organizar filas, criar bolsões de retenção e impedir empurrões nas entradas. A SPTuris alegou limitações contratuais para ampliar a estrutura. Diante do impasse, a equipe de Ivete se dispôs a providenciar parte do material por conta própria.
Pressão sobre prefeitura e patrocinadores
A discussão sobre o tamanho do público e a falta de um número oficial de capacidade colocam a Prefeitura em posição delicada. Questionada sobre limite de pessoas, métodos de controle de acesso e expectativa de público para o bloco de Ivete, a administração municipal não detalha o plano nem divulga projeções. A ausência de respostas claras aumenta a pressão sobre o planejamento do Carnaval no Ibirapuera.
O caso expõe um problema recorrente na expansão do Carnaval de rua paulistano. A cidade vem elevando, ano a ano, o número de blocos, trajetos e patrocinadores, mas ainda tenta adaptar o desenho urbano e as regras de segurança à escala dos eventos. No Ibirapuera, a concentração de três blocos no mesmo dia já havia sido “desaconselhada fortemente” pela PM em reunião anterior, “em razão dos riscos de segurança envolvidos”.
O parque aquático temático da Skol, montado próximo ao Obelisco, virou outro foco de atrito. A PM se declara “contrária à ativação” da atração, por entender que as filas para os brinquedos vão interferir na entrada e na circulação dos foliões no circuito. O espaço aquático, previsto para receber menos de 6 mil pessoas por dia, com permanência de até 30 minutos por usuário, ameaça virar um ponto de estrangulamento logístico.
A disputa por espaço mostra o choque entre interesses comerciais e segurança pública. Patrocinadores buscam visibilidade máxima em áreas nobres da cidade. A polícia, encarregada de evitar tumultos e tragédias, tenta limitar estruturas extras justamente onde o fluxo é mais sensível. No meio, foliões dependem de um desenho urbano que garanta diversão sem expor a multidão a riscos desnecessários.
Teste para o futuro do Carnaval de rua em São Paulo
O bloco de Ivete no Ibirapuera se torna um laboratório a céu aberto para o modelo de Carnaval de rua que São Paulo quer bancar nos próximos anos. Se o esquema escalonado da PM funcionar e a circulação fluir sem acidentes graves, a cidade ganha argumentos para manter grandes artistas em trajetos centrais, reforçando o potencial turístico e econômico da festa.
Se houver tumultos, bloqueio de corredores de emergência ou necessidade de evacuação às pressas, o evento pode virar símbolo de improviso e falta de transparência sobre dados básicos, como a capacidade do circuito. Nesse cenário, a pressão por revisão de contratos, redesenho de trajetos e limites de patrocínio tende a crescer.
O desfecho também interessa a quem mora e trabalha na região. A mobilização de efetivos extras da PM, mudanças no trânsito e ocupação prolongada de vias importantes afetam a rotina de milhares de pessoas. A forma como o poder público equilibra direito à festa, segurança e impacto urbano deve pautar as próximas negociações com blocos e patrocinadores.
Até o dia 7 de fevereiro de 2026, o plano de operação pode sofrer ajustes finos, mas a questão central permanece em aberto: sem um número oficial de capacidade, quem assume a responsabilidade se o circuito do Ibirapuera passar do limite?
