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PM monta plano antissuperlotação para estreia de Ivete no Ibirapuera

A Polícia Militar monta uma operação de contenção para o bloco de Ivete Sangalo no circuito do Ibirapuera, neste sábado (7/2), em São Paulo. O plano tenta reduzir o risco de superlotação em uma área cuja capacidade máxima ninguém no poder público sabe definir com precisão.

Capacidade desconhecida e temor de tragédia

O circuito montado na avenida Pedro Álvares Cabral, entre o Parque do Ibirapuera e o Palácio 9 de Julho, recebe pela primeira vez Ivete no Carnaval de Rua paulistano. A expectativa é de um público considerado gigantesco pela própria PM e por organizadores, num cenário em que nem a São Paulo Turismo (SPTuris), responsável oficial pelo evento, consegue cravar quantas pessoas o espaço comporta com segurança.

Em reunião realizada na quarta-feira (4/4), na subprefeitura da Vila Mariana, o representante da SPTuris admitiu que o número de 280 mil pessoas, já mencionado em documentos, não se sustenta tecnicamente. “Não é exata. Dependendo de quem fala, vai dar um número diferente”, afirmou. Questionada depois pela reportagem, a empresa municipal também não apresentou um cálculo formal de capacidade.

O vazio de informação acende o alerta da PM, que teme cenas de aperto extremo, estouro de barreiras físicas e dificuldade de atendimento em emergências médicas. O bloco de Ivete, inédito na região, se soma ao histórico recente de grandes aglomerações em São Paulo, em especial no entorno do parque, que se torna um dos principais polos do pré-Carnaval.

Plano escalonado de contenção e rotas de fuga

Diante da incerteza sobre o limite do local, PM, SPTuris e equipe da artista discutem um plano de contenção em quatro etapas. Abrir os portões do Parque do Ibirapuera, hoje sob gestão privada, aparece como último recurso. Antes disso, a estratégia prevê a liberação gradual de áreas internas do próprio circuito.

Pelo combinado, a PM primeiro libera o espaço entre o tapume instalado na avenida e o portão do parque, criando uma espécie de antecâmara para dispersão. Em seguida, se a pressão de público aumentar, abre os portões do circuito principal. A terceira etapa envolve o uso do corredor de emergência, hoje reservado a atendimento médico e deslocamento de viaturas. Só no chamado plano D, quando todas as alternativas se esgotarem, o parque é aberto para que os foliões se espalhem.

A corporação também define uma regra rígida para o trajeto do trio elétrico. O carro de som não pode parar diante do “funil” formado pela sede da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), trecho estreito que concentra o fluxo de pessoas. “Parar nesse funil pode gerar o estouro dos tapumes e linhas de vida, o que ocasionaria em desastre”, alertou o representante da PM durante a reunião.

A preocupação não se limita ao miolo do circuito. A chegada dos foliões, prevista para começar ainda de madrugada, é vista como ponto crítico. A PM pede mais gradis metálicos para organizar filas, separar sentidos e evitar empurrões na aproximação da avenida. A SPTuris, porém, responde que não consegue ampliar a quantidade de barreiras “por causa do contrato” já firmado com fornecedores.

Diante da resistência da prefeitura, a equipe de Ivete se oferece para bancar parte da estrutura. O grupo se dispõe a providenciar gradis extras para reforçar os pontos considerados sensíveis pelos técnicos de segurança. A solução improvisada expõe, nos bastidores, um embate entre as limitações burocráticas do poder público e a tentativa de blindar a imagem da artista em um evento de alto risco.

Três blocos no mesmo dia e pressão extra sobre o entorno

O circuito do Ibirapuera não recebe apenas o trio de Ivete na manhã de 7 de fevereiro de 2026. O mesmo traçado abriga dois outros blocos na parte da tarde, comandados por Mariana Aydar e Alceu Valença, já tradicionais no pré-Carnaval paulistano. A prefeitura costuma priorizar essas agremiações veteranas na disputa por datas e locais, o que ajuda a explicar a concentração de desfiles na mesma região.

Relatos de reuniões anteriores mostram que a PM já havia “desaconselhado fortemente” a realização de três blocos no mesmo dia e local, “em razão dos riscos de segurança envolvidos”. A advertência não impede a manutenção da programação. O resultado é uma operação mais complexa, que exige rotatividade rápida do público, desmonte ágil de estruturas e fiscalização constante de acessos.

Outro ponto de tensão é a montagem de um parque aquático temático da Skol nas imediações do Obelisco. O espaço tem capacidade para menos de 6 mil pessoas por dia, com permanência de até 30 minutos em cada atração, mas deve atrair filas longas ao longo do sábado. Para a PM, a ativação comercial concorre com as entradas do circuito e cria pontos de estrangulamento em uma área já saturada de pedestres.

Na reunião desta semana, a corporação se declara “contrária à ativação” e avisa que a fila “vai atrapalhar a entrada dos foliões”. A crítica expõe mais um conflito entre a lógica de patrocínio, que busca visibilidade máxima em áreas nobres da cidade, e os limites físicos das vias, planejadas muito antes de o Carnaval de Rua ganhar a escala atual em São Paulo.

Opacidade da prefeitura e lições para os próximos carnavais

A prefeitura de São Paulo é questionada sobre três pontos centrais: qual a capacidade de público do circuito do Ibirapuera, como será o controle de acesso e qual a expectativa oficial de público para o bloco de Ivete. Até a publicação deste texto, nenhuma das perguntas é respondida. A gestão também não comenta os alertas específicos feitos pela PM nem a discussão sobre gradis e plano de abertura do parque.

A ausência de dados consolidados contrasta com o crescimento do Carnaval de Rua na capital, que já reúne milhões de pessoas ao longo de poucos fins de semana. Sem um cálculo transparente de capacidade, com base em metragem e densidade aceitável por metro quadrado, a tarefa de planejar saídas de emergência, rotas médicas e tempos de resposta fica mais sujeita à improvisação.

O caso do Ibirapuera tende a alimentar um debate mais amplo sobre protocolos de segurança em grandes eventos urbanos. Técnicos defendem a adoção de parâmetros objetivos, revisão de contratos que engessam ajustes de estrutura e participação mais ativa das equipes artísticas na definição de limites de público. A disposição da equipe de Ivete em custear gradis adicionais aponta nessa direção, ainda que de forma pontual.

O desempenho do plano neste sábado, com ou sem uso do “plano D” de abertura do parque, deve servir de teste para o modelo. Se a operação funcionar, a cidade ganha um roteiro para conciliar festa de massa e segurança. Se falhar, a pressão por mudanças duras em regras, contratos e escolhas de local tende a crescer já para o Carnaval seguinte, em uma agenda que não se esgota com o fim do desfile.

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