Ultimas

PM abre investigação que pode expulsar tenente-coronel acusado de feminicídio

A Polícia Militar de São Paulo abre investigação interna que pode resultar na expulsão do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso desde 18 de fevereiro de 2026. O oficial é acusado de feminicídio, fraude processual e assédio sexual.

Suspeita de feminicídio dentro de casa

O caso explode na corporação porque envolve um oficial de alta patente em um crime que ocorre dentro do próprio lar. Gisele Alves, esposa do tenente-coronel, é encontrada morta com um tiro na cabeça no dia 18 de fevereiro, no apartamento do casal, no Brás, região central de São Paulo. A cena, que em um primeiro momento poderia sugerir suicídio, passa a ser tratada pela Polícia Civil como feminicídio.

Os investigadores do Departamento de Homicídios identificam sangue da vítima na toalha e na bermuda usadas por Geraldo Neto. O laudo aponta também que o corpo de Gisele é manipulado após o disparo, o que sustenta a acusação de fraude processual. A forma como o sangue escorre, segundo o relatório final, não é compatível com um corpo imóvel desde o momento do tiro.

O tenente-coronel insiste na versão de que Gisele tira a própria vida enquanto ele toma banho. Afirma que a mulher dispara contra a cabeça depois de ouvir dele o desejo de se separar. O inquérito da Polícia Civil segue em sentido oposto. Mensagens extraídas do celular do militar mostram que é Gisele quem insiste no divórcio, enquanto ele resiste ao fim do casamento.

Os diálogos, anexados ao relatório final e obtidos pelo Estadão, são descritos pelos investigadores como o “ponto central do relatório” por revelar “um retrato sombrio e documentado da dinâmica do casal”. As conversas indicam um clima de tensão crescente nas semanas anteriores à morte, com Gisele cobrando a separação e o oficial rejeitando a ideia.

Pressão sobre a Polícia Militar e acusação de assédio

A abertura da investigação interna da PM, em 27 de março de 2026, marca uma nova fase do caso. O procedimento disciplinar corre em paralelo ao processo criminal e pode levar à perda do posto e da patente, punição rara para um tenente-coronel na ativa. O inquérito administrativo está em fase final, segundo a corporação. Assim que os autos forem remetidos à Justiça, o comando da PM deve decidir se instala um conselho de disciplina para avaliar a expulsão.

O impacto interno é imediato. O caso atinge a cúpula de uma instituição que tenta conter danos à sua imagem em meio à crescente cobrança por respostas em crimes de violência contra a mulher. Entidades feministas e especialistas em segurança pública cobram transparência na apuração e punições proporcionais à gravidade das acusações.

Enquanto o inquérito criminal avança, surge uma nova frente de denúncia contra Geraldo Neto. Uma policial militar, colega de trabalho do tenente-coronel, o acusa de assédio sexual. Segundo o advogado da família de Gisele, José Miguel da Silva Júnior, a PM formaliza a queixa no Ministério Público de São Paulo e pede sigilo por medo de retaliações dentro da própria corporação.

Na denúncia, relatada por Silva Júnior ao Estadão, a policial afirma que o oficial tenta beijá-la no segundo semestre do ano passado, quando ainda é casado com Gisele. Depois da recusa, diz ser perseguida pelo superior e transferida para outro batalhão, bem mais distante de onde mora. “Ele a transferiu para um lugar bem mais distante de onde ela morava, causando um prejuízo para ela”, afirma o advogado.

A acusação de assédio se soma ao suposto feminicídio e à fraude processual e amplia a pressão sobre o comando da PM. A corporação, que tradicionalmente preserva a hierarquia e a disciplina, agora se vê obrigada a explicar como lida com denúncias contra oficiais de alta patente. Até o momento, a Secretaria de Segurança Pública e a própria Polícia Militar não respondem aos questionamentos da imprensa. O espaço segue aberto.

Risco de expulsão e debate sobre violência de gênero

A eventual expulsão de um tenente-coronel por feminicídio e assédio sexual tem peso simbólico e prático. Na esfera disciplinar, a perda do posto e da patente representa o rompimento definitivo do vínculo com o Estado, com efeitos diretos sobre carreira e benefícios. Na esfera penal, Geraldo Neto responde preso preventivamente pelos crimes de feminicídio e fraude processual e pode enfrentar penas superiores a 30 anos de prisão, caso seja condenado.

O caso reacende o debate sobre violência de gênero praticada por agentes de segurança. Nos últimos anos, estudos de organizações independentes apontam a subnotificação de agressões cometidas por policiais contra parceiras e ex-parceiras. A morte de Gisele, dentro de casa e sob suspeita de execução por um oficial treinado para usar a força, expõe essa contradição de forma brutal.

Especialistas ouvidos em outros episódios semelhantes apontam um padrão: dificuldade de vítimas em denunciar superiores hierárquicos, medo de retaliação e desconfiança em relação às corregedorias internas. O pedido de sigilo feito pela policial que acusa o tenente-coronel de assédio reforça esse cenário. A investigação da PM, agora em seus momentos finais, é vista como um teste para os mecanismos de controle interno da corporação.

Enquanto isso, familiares e amigos de Gisele cobram celeridade e firmeza das autoridades. A defesa de Geraldo Neto mantém a versão de suicídio e nega todas as acusações, mas não responde aos novos questionamentos apresentados pela reportagem. O processo criminal segue em andamento, com análise de laudos periciais, depoimentos de testemunhas e cruzamento de dados extraídos de celulares e câmeras da região.

Próximos passos e consequências para a corporação

O inquérito interno da PM deve ser concluído nas próximas semanas e enviado à Justiça, que vai avaliar a conduta funcional do tenente-coronel. Se o comando instaurar um conselho de disciplina, o colegiado terá poder para recomendar desde punições mais brandas até a expulsão de Geraldo Neto. Esse movimento tende a influenciar a percepção pública sobre o compromisso da corporação com a responsabilização de seus quadros.

Na Justiça comum, o caso entra em fase decisiva, com o Ministério Público preparando a denúncia formal e a defesa do oficial tentando manter a tese de suicídio. A definição sobre se o tenente-coronel irá a júri popular por feminicídio deve orientar o ritmo do processo ao longo de 2026. Em meio à disputa jurídica, permanece a pergunta que move familiares e investigadoras desde o dia 18 de fevereiro: como um casamento em crise termina com uma mulher morta a tiros dentro de casa e um oficial experiente sentado no banco dos réus?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *