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PL e União Brasil articulam bloqueio ao fim da escala 6×1 na CCJ

Os presidentes do PL, Valdemar Costa Neto, e do União Brasil, Antônio Rueda, se movem para barrar o projeto que extingue a escala 6×1 na Câmara. A articulação ganha força nesta segunda-feira (23.fev.2026), na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), e responde diretamente à pressão de empresários contrários à mudança nas jornadas de trabalho.

CCJ vira trincheira contra mudança na jornada

A ofensiva ocorre no coração do processo legislativo. A CCJ é a principal porta de entrada dos projetos no Congresso, responsável por atestar se uma proposta fere ou não a Constituição. Sem aval da comissão, o texto não segue para o plenário. Ao prometer rejeitar o avanço da matéria já nessa etapa, Valdemar e Rueda tentam encerrar o debate antes que o tema se espalhe por outras comissões e atinja o centro do plenário.

O alvo é o modelo 6×1, em que o trabalhador cumpre seis dias seguidos de trabalho e descansa um. A escala, consolidada há décadas em setores como comércio, indústria e serviços, é tratada por entidades empresariais como ferramenta central de organização da jornada. Representantes de redes de varejo, por exemplo, argumentam que o formato permite rodízio em shoppings e supermercados em horários estendidos, sobretudo nos fins de semana e feriados.

Nos bastidores, empresários pressionam desde o fim de 2025 para manter a escala. Em reuniões reservadas com dirigentes partidários, diretores de federações setoriais sustentam que o fim do 6×1 pode elevar custos em até 15% em alguns segmentos, por necessidade de novas contratações e pagamento extra de horas não trabalhadas. O argumento convence parte expressiva da bancada governista de centro-direita, que hoje soma mais de 200 deputados distribuídos entre PL, União Brasil e outras siglas alinhadas ao empresariado.

Direitos trabalhistas em disputa

O projeto em discussão pretende redesenhar o equilíbrio entre descanso e carga horária. Na prática, o fim da escala 6×1 pode significar mais fins de semana livres para milhões de trabalhadores, com impacto direto na saúde física, mental e na convivência familiar. Centrais sindicais estimam que pelo menos 30% dos empregados formais do país seguem algum tipo de regime semelhante ao 6×1, sobretudo em atividades de atendimento direto ao público.

Dirigentes sindicais defendem que a mudança atualiza a legislação à realidade de 2026, em que a tecnologia reduz deslocamentos e amplia a produtividade. Para esses grupos, manter o 6×1 representa conservar um modelo pensado para o Brasil industrial dos anos 1970. Representantes patronais contestam. Argumentam que, sem a flexibilidade da escala, setores como turismo, hotelaria, bares e restaurantes podem perder competitividade, principalmente em grandes centros urbanos.

A disputa também é política. Ao assumir publicamente a defesa da manutenção da escala, Valdemar Costa Neto e Antônio Rueda sinalizam alinhamento com as demandas de empresários que financiam campanhas e pressionam suas bancadas. A decisão fortalece a imagem dos dois como fiadores de uma agenda pró-mercado no Congresso. Para o governo, o movimento revela um foco de resistência em temas trabalhistas e acende o alerta para futuros embates.

A tensão em torno do 6×1 remete a outras mudanças recentes na legislação trabalhista, como a reforma de 2017, que flexibilizou negociações coletivas e ampliou formas de contratação. Desde então, qualquer tentativa de revisão de regras de jornada, descanso ou pagamento de horas extras desencadeia reação imediata de entidades empresariais. A proposta que agora enfrenta barreira na CCJ se insere nessa trilha de disputas sucessivas entre proteção social e liberdade de organização do trabalho.

Impacto na rotina de empresas e trabalhadores

Se avançar, o projeto pode obrigar empresas a redesenhar escalas inteiras em prazos curtos, possivelmente entre 90 e 180 dias após a sanção, segundo estudos preliminares de consultorias legislativas. Em um supermercado de médio porte, com 200 funcionários em regime 6×1, a transição pode exigir a contratação de até 20 novos trabalhadores para cobrir folgas adicionais e manter o horário de funcionamento atual.

Nos setores de saúde, transporte público e segurança privada, o debate é ainda mais sensível. Hospitais, empresas de ônibus urbanos e companhias de vigilância costumam operar em turnos contínuos. A alteração do modelo de descanso mexe diretamente na escala de plantões e no custo da folha de pagamento. Especialistas alertam que ajustes mal planejados podem levar a sobrecarga de equipes, aumento de afastamentos médicos e queda de qualidade no atendimento, justamente o oposto do que prometem os defensores da mudança.

As centrais sindicais veem no eventual fim do 6×1 uma oportunidade de recuperar espaço na mesa de negociação. Com uma regra mais favorável ao descanso semanal, sindicatos apostam em campanhas reivindicatórias mais fortes, inclusive com pedidos de recomposição salarial. Empresários reagem e sustentam que, em um cenário de crescimento modesto do PIB, a soma de mais custos trabalhistas com juros elevados pode desestimular investimentos e travar contratações.

O embate na CCJ transborda para outras frentes. Bancadas ligadas ao agronegócio e à indústria já fazem contas sobre o efeito em cadeias que funcionam 24 horas por dia, como frigoríficos e usinas de etanol. Defensores da mudança afirmam que a readequação é possível e apontam ganhos de produtividade associados a trabalhadores menos exaustos. Para eles, uma jornada mais humana reduziria acidentes, afastamentos e processos trabalhistas, com economia no médio prazo.

Próximos passos e cenário no Congresso

O foco imediato está na votação na CCJ, prevista para as próximas semanas. A estratégia de PL e União Brasil é segurar o relatório, articular emendas que esvaziem o alcance da proposta e, se necessário, derrubar o texto já no primeiro parecer. O governo conta votos e tenta construir uma saída intermediária, como ajustes setoriais ou períodos de transição mais longos, para reduzir a resistência empresarial.

Se a comissão rejeitar o projeto, a discussão tende a migrar para outros canais, como propostas alternativas em comissões temáticas ou tentativas de ressuscitar o tema em medidas provisórias. Se o texto sobreviver e chegar ao plenário, a Câmara será palco de uma das votações mais simbólicas da agenda trabalhista recente. A disputa em torno do 6×1 expõe uma pergunta que o Congresso ainda não responde: até onde o país está disposto a ir para conciliar competitividade econômica e proteção ao tempo de descanso do trabalhador?

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