Piloto que agrediu adolescente no DF já havia atacado outro jovem
O piloto de Fórmula Delta Pedro Arthur Turra Basso, 19 anos, é acusado de duas agressões violentas em menos de sete meses no Distrito Federal. A última, na madrugada de 16 de janeiro de 2026, deixa um adolescente de 16 anos em coma na UTI. Um boletim de ocorrência mostra que outro jovem já o havia acusado de espancamento em uma praça de Águas Claras, em junho de 2025.
Doite em Vicente Pires expõe histórico de violência
A madrugada de 16 de janeiro, em Vicente Pires, marca o ponto mais dramático da escalada de violência atribuída ao jovem piloto. Na saída de uma festa, Pedro Arthur é flagrado em vídeo desferindo golpes que deixam um adolescente de 16 anos desacordado na rua. O garoto permanece internado em estado grave, em coma, na UTI do Hospital Brasília Águas Claras.
A Polícia Civil do Distrito Federal prende o piloto em flagrante poucas horas depois da agressão. Ele passa por audiência de custódia e é liberado mediante pagamento de fiança de R$ 24.315,00. Dez dias depois, em 26 de janeiro, a organização da Fórmula Delta confirma o desligamento imediato de Pedro Arthur do quadro de pilotos da temporada 2026, numa tentativa de conter o desgaste da categoria escola com a repercussão do caso.
O episódio mobiliza não só familiares e amigos da vítima, mas também moradores do Distrito Federal e entidades ligadas aos direitos humanos, que cobram resposta rápida das autoridades. As imagens que circulam nas redes, somadas à condição crítica do adolescente, alimentam a sensação de que uma briga apresentada como banal esconde um nível de violência incompatível com qualquer disputa entre jovens.
Boletim de junho revela agressão anterior em praça de Águas Claras
Meses antes da madrugada em Vicente Pires, outro jovem procura a Polícia Civil e registra um boletim de ocorrência contra Pedro Arthur. O caso ocorre em 28 de junho de 2025, entre 19h40 e 20h, em uma praça pública em frente ao Bar Vila Carioca, na quadra 301 de Águas Claras. A denúncia, feita às 21h37, descreve uma cena de espancamento que dura cerca de cinco minutos.
No registro ao qual o Correio tem acesso, a vítima, que não se identifica por medo de represálias, relata que já havia discutido com o piloto cerca de um mês antes. O desentendimento, segundo ele, nasce de ciúmes envolvendo a namorada de Pedro Arthur, mas termina, naquela ocasião, sem agressões físicas. O conflito, porém, volta à tona semanas depois, de forma muito mais violenta.
Na noite de 28 de junho, o rapaz está sozinho na praça quando o piloto chega acompanhado de quatro amigos. Eles conversam por cerca de 10 minutos. Ao final, segundo o depoimento, Pedro Arthur afirma que “estava tudo certo”. Quando o jovem vira de costas para ir embora, sente um soco nas costelas e cai no chão. Em seguida, o agressor tenta aplicar um golpe de enforcamento, numa espécie de mata-leão, enquanto a vítima tenta se desvencilhar.
O depoimento descreve uma sequência de socos no rosto, aplicados enquanto os amigos do piloto assistem sem intervir. Com medo de apanhar de todos, o rapaz diz que apenas se protege, sem reagir. A agressão, segundo ele, dura cerca de cinco minutos, até que os próprios amigos de Pedro Arthur o retiram de cima da vítima, que consegue fugir. O relato não menciona uso de armas ou qualquer provocação física prévia no momento do ataque.
Defesa da vítima fala em prática reiterada de violência
O advogado Albert Halex, que representa o adolescente espancado em Vicente Pires, afirma que o caso de Águas Claras ajuda a montar um quadro de comportamento violento. Ele critica a estratégia da defesa de Pedro Arthur, que tenta enquadrar o episódio recente como uma simples confusão entre jovens. “A gente tem provas suficientes para trazer a verdade dos fatos. A estratégia deles é inocentar uma pessoa que é sabidamente agressiva, violenta, que tem prática reiterada de agredir pessoas”, diz.
Halex contesta versões que circulam desde os primeiros dias após a agressão, segundo as quais teria havido provocações, uso de objetos ou algum tipo de confronto prévio que justificasse a reação do piloto. “Eles transformaram algo que foi gravíssimo em uma briga de adolescentes, que não é o caso”, afirma. Para o advogado, o conjunto de elementos colhidos pela investigação aponta para uma conduta que poderia ter terminado em morte.
O defensor menciona inclusive a possibilidade de o Ministério Público trabalhar com a tese de dolo eventual, quando o agressor assume o risco de produzir um resultado fatal. Ele também fala em indícios de falsidade testemunhal e omissão de socorro, ligados a pessoas que estavam no local e, em vez de ajudar a vítima, teriam filmado a cena ou tentado suavizar o que ocorreu.
A defesa do adolescente pretende usar o boletim de ocorrência de junho como parte do conjunto probatório para demonstrar reincidência em atos violentos. O objetivo é afastar a imagem de um episódio isolado e reforçar a responsabilidade criminal e civil do agressor, inclusive com pedido de indenização por danos morais e materiais à família do jovem internado.
Pressão por responsabilização e combate à violência entre jovens
Os dois casos, separados por pouco mais de seis meses, alimentam um debate mais amplo sobre violência motivada por ciúmes e disputas pessoais entre adolescentes e jovens adultos. Em Águas Claras e Vicente Pires, moradores relatam sensação de insegurança em áreas de bares e festas, onde discussões aparentemente banais acabam em espancamentos e lesões graves.
No ambiente esportivo, a repercussão é imediata. A Fórmula Delta, categoria que se apresenta como escola para novos pilotos, anuncia o afastamento de Pedro Arthur menos de duas semanas após a agressão em Vicente Pires. A decisão busca preservar a imagem da competição e enviar um recado a patrocinadores e famílias de jovens corredores de que comportamentos violentos fora das pistas não serão tolerados.
Especialistas em segurança pública ouvidos em casos semelhantes afirmam que episódios de agressão com padrão de brutalidade, como uso de mata-leão e golpes na cabeça, exigem resposta rápida do sistema de Justiça. Eles lembram que, para além da punição individual, decisões firmes ajudam a desestimular a naturalização da violência como forma de resolver conflitos afetivos ou de honra entre jovens.
A família do adolescente em coma evita exposição constante, mas acompanha de perto cada passo da investigação. Enquanto o quadro clínico permanece estável, porém grave, o debate público se volta à necessidade de proteção de vítimas e testemunhas, sobretudo em casos em que o agressor tem projeção social, carreira em ascensão ou apoio financeiro robusto.
Investigações avançam e ampliam foco para cúmplices
Os próximos passos da defesa da vítima passam por pedir que a Polícia Civil ouça todas as pessoas presentes na noite da agressão em Vicente Pires. As diligências incluem a análise de vídeos, imagens de câmeras de segurança e registros feitos por celulares. A expectativa é que o inquérito considere não só a conduta de Pedro Arthur, mas também o papel de quem filma, omite socorro ou, de alguma forma, acoberta a violência.
Halex afirma que pretende responsabilizar “não apenas o agressor direto, mas todos os envolvidos” que, em sua avaliação, contribuíram para o crime. A linha de atuação inclui pedidos formais de apuração de eventual coautoria, participação, omissão de socorro e falsidade em depoimentos. A partir daí, caberá ao Ministério Público decidir quais denúncias oferecer à Justiça do DF e que enquadramento penal buscar.
Enquanto o inquérito corre, o caso segue sob forte escrutínio público. Organizações da sociedade civil que atuam no combate à violência juvenil acompanham as decisões e prometem pressionar por medidas preventivas mais amplas, como programas de mediação de conflitos em escolas e campanhas específicas sobre violência motivada por ciúmes. No centro da discussão, permanece uma pergunta incômoda: quantos alertas são necessários até que episódios como esses deixem de ser tratados como brigas de adolescentes?
