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Piloto da Latam é preso em avião em SP por suspeita de exploração sexual infantil

A Polícia Civil prende na manhã desta segunda-feira (9) o piloto da Latam Sérgio Antonio Lopes, 60, dentro de um avião prestes a decolar em Congonhas, na zona sul de São Paulo. Ele é suspeito de comandar há pelo menos oito anos uma rede de exploração sexual de crianças e adolescentes, produção e compartilhamento de pornografia infantil e estupro de vulneráveis. A prisão integra a operação “Apertem os Cintos”, deflagrada pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Prisão em pleno embarque e investigação em curso

O movimento de embarque do voo LA3900, com destino ao aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, segue o protocolo até que policiais civis entram na aeronave e vão direto ao piloto. Um vídeo obtido pela CNN Brasil registra o momento em que os agentes se identificam, cercam Sérgio e anunciam a prisão. Questionado sobre o motivo da ação, ele responde que não sabe por que está sendo detido.

Os investigadores afirmam que não se trata de um caso isolado. Segundo o DHPP, Sérgio é suspeito de manter uma estrutura estável para abusar de crianças, comprar e vender material de pornografia infantil e aliciar novas vítimas. As apurações indicam o uso de documentos falsos para frequentar motéis com menores de idade, o que, segundo a polícia, ocorre de forma reiterada pelo menos desde 2018.

A operação desta segunda-feira mobiliza 32 policiais civis e 14 viaturas. São cumpridos sete mandados de busca e apreensão e dois de prisão temporária em endereços na capital paulista, no Aeroporto de Congonhas e no município de Guararema, na Grande São Paulo. Até o fim da manhã, ao menos três pessoas são presas, entre elas o piloto e duas mulheres apontadas como peças-chave na engrenagem do esquema.

Uma mulher de 55 anos, cuja identidade não é divulgada, é presa sob suspeita de ter recebido dinheiro pela “venda” das próprias netas, de 10, 12 e 14 anos, para o piloto. Em outro ponto da investigação, a polícia prende em flagrante a mãe de uma das vítimas, acusada de gravar e enviar vídeos da filha para Sérgio, além de armazenar e repassar conteúdos de pornografia infantil.

O inquérito tramita desde outubro de 2025 e já identifica ao menos dez vítimas, segundo a Polícia Civil. Três delas aparecem com mais detalhes na investigação: duas tinham 11 e 12 anos na época dos fatos, e uma, 15. Os autos descrevem situações consideradas graves de abuso sexual, com episódios iniciados quando uma das meninas tinha apenas oito anos. Hoje, essa vítima está com 12 anos e, segundo a polícia, permanece em acompanhamento especializado.

Rede organizada e impactos do caso

Os delegados responsáveis afirmam que a operação mira uma organização criminosa voltada à exploração sexual de crianças e adolescentes. Os elementos já reunidos, dizem eles, indicam divisão de tarefas, combinação prévia de encontros e uso sistemático de aplicativos de mensagem para negociar encontros e troca de fotos e vídeos. A investigação apura os crimes de estupro de vulnerável, estupro, favorecimento da prostituição, uso de documento falso, produção, armazenamento e compartilhamento de pornografia infantil, além de perseguição reiterada, aliciamento de crianças e coação no curso do processo.

Em nota, a Polícia Civil afirma que o objetivo imediato é “cessar a atuação criminosa, resguardar a integridade física e psicológica das vítimas, identificar outros autores e vítimas, preservar provas essenciais e assegurar a efetividade da investigação diante da gravidade dos fatos apurados”. Os mandados são autorizados pela Justiça com base no que o tribunal descreve como “sólida materialidade” dos delitos, forte indício de autoria, risco elevado de repetição dos crimes e possibilidade concreta de ocultação ou destruição de provas.

Especialistas em proteção à infância apontam que casos como o de Sérgio expõem uma frente silenciosa da violência sexual no país. O abuso praticado por pessoas com renda estável, inseridas em grandes empresas e com acesso facilitado a viagens, amplia o alcance das redes criminosas e dificulta a identificação das vítimas. O fato de uma avó e uma mãe figurarem entre as presas evidencia, segundo investigadores, como laços familiares podem ser distorcidos em contextos de vulnerabilidade social e financeira.

O impacto para a aviação comercial é imediato no plano reputacional. Em resposta à CNN Brasil, a Latam informa que o voo em que o piloto é detido decola e pousa no horário previsto após a intervenção policial e substituição da tripulação. A companhia diz que abriu apuração interna e se coloca à disposição das autoridades para colaborar com o inquérito. “A LATAM repudia veementemente qualquer ação criminosa e reforça que segue os mais elevados padrões de segurança e conduta”, afirma a empresa em nota.

A defesa de Sérgio ainda não se manifesta. A CNN Brasil tenta contato com os advogados do piloto desde o início da manhã. Até o momento, não há posição sobre as acusações, nem pedido de relaxamento da prisão temporária.

Próximos passos e possível ampliação do caso

Os investigadores trabalham com a hipótese de que o número de vítimas ultrapasse com folga as dez já identificadas. A análise de celulares, computadores e arquivos apreendidos nos endereços ligados ao piloto e às demais pessoas presas deve se estender pelas próximas semanas. O DHPP considera prioritário localizar outras crianças e adolescentes retratados em fotos e vídeos, além de mapear possíveis compradores do material dentro e fora do país.

A polícia não descarta novas prisões. A avaliação é que o avanço tecnológico facilita a criação de redes fechadas de compartilhamento de pornografia infantil, o que exige respostas rápidas para impedir que provas desapareçam com poucos cliques. Por isso, o inquérito corre sob sigilo, e os detalhes sobre a atuação do grupo são revelados de forma limitada.

O caso se soma a outras grandes operações contra exploração sexual infantil no Brasil nos últimos anos, em especial aquelas que miram abusadores com alto poder aquisitivo e acesso a viagens frequentes. A prisão de um piloto em serviço, dentro de um avião em um dos aeroportos mais movimentados do país, expõe de maneira incomum uma realidade que costuma ficar restrita a delegacias especializadas e varas criminais.

O desfecho da “Operação Apertem os Cintos” deve indicar se a polícia consegue não apenas desarticular o núcleo atual da rede, mas também identificar cúmplices, fluxos de dinheiro e eventuais conexões internacionais. Enquanto as vítimas recebem atendimento psicológico e acompanhamento do Conselho Tutelar e da rede de proteção, a investigação avança com a expectativa de transformar um flagrante espetacular em responsabilização duradoura. A resposta do sistema de Justiça dirá se esse caso será um ponto fora da curva ou um marco na repressão a crimes sexuais contra crianças no país.

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