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PIB da China cresce 5% em 2025, mas fim do ano acende alerta

A economia da China cresce 5% em 2025, sustentada pelo avanço das exportações, mas desacelera com força no último trimestre. O resultado, um dos mais baixos dos últimos anos, mantém a meta do governo, porém expõe fragilidades internas e reacende o debate sobre o futuro do país diante do envelhecimento da população.

Exportações sustentam o crescimento, enquanto o consumo perde fôlego

Os dados oficiais divulgados em Pequim mostram um país que ainda consegue entregar expansão robusta para os padrões globais, mas distante do ritmo de dois dígitos que marcou as décadas anteriores. O crescimento de 5% em 2025 vem principalmente da frente externa: empresas chinesas vendem mais máquinas, componentes eletrônicos, carros elétricos e produtos químicos para Estados Unidos, Europa e países emergentes. A retomada parcial do comércio mundial, depois de anos de incerteza, ajuda a impulsionar as fábricas do país.

O quadro é bem diferente quando se olha para dentro. O consumo das famílias avança devagar, pressionado por salários que crescem menos e por uma população que envelhece rápido. O mercado imobiliário, por anos motor da expansão, segue em ajuste, com menos lançamentos e obras em ritmo mais lento. Economistas em Pequim e em grandes bancos globais apontam esse descompasso entre a força das exportações e a fraqueza do consumo interno como um dos sinais mais claros de que o modelo de crescimento chinês enfrenta limites.

Desaceleração no fim do ano expõe desafio demográfico

O último trimestre de 2025 concentra as principais preocupações. Indicadores mensais de produção industrial, vendas no varejo e investimento mostram perda de ritmo, em alguns casos abaixo de 4% na comparação anual, segundo analistas que acompanham os números. Para investidores estrangeiros, o movimento reforça a percepção de que o crescimento de 5% alcança o teto do que o país consegue entregar sem um novo ciclo de reformas profundas.

No centro dessa virada está a queda contínua da taxa de natalidade. A China registra menos nascimentos ano após ano, mesmo depois do fim da política do filho único e da liberação para até três filhos por família. “A preocupação do governo é simples: com menos jovens, há menos trabalhadores e, com o tempo, menos consumidores”, resume um economista de um grande banco asiático, sob reserva. Essa mudança demográfica atinge o coração do modelo chinês, baseado por décadas em abundância de mão de obra barata e expansão rápida do consumo urbano.

Governo reage com estímulos e tenta reverter queda de nascimentos

O governo responde com uma combinação de medidas econômicas e incentivos sociais. Bancos estatais ampliam crédito direcionado à indústria exportadora, e governos locais aceleram projetos de infraestrutura para segurar investimentos. Ao mesmo tempo, autoridades regionais anunciam subsídios a famílias com filhos, redução de custos em creches e promessas de ampliar a rede de escolas em tempo integral. Em várias províncias, mães que têm um segundo ou terceiro filho recebem ajuda financeira direta, que pode chegar a milhares de yuans por ano.

Especialistas em demografia, no entanto, afirmam que o problema é mais profundo que o custo imediato de criar uma criança. Jovens profissionais adiam ou desistem de ter filhos por insegurança econômica, jornadas de trabalho longas e falta de apoio na divisão de tarefas domésticas. “Não se muda uma tendência demográfica apenas com cheques”, diz um pesquisador ligado a um centro de estudos em Xangai. A combinação de menos nascimentos e aumento da expectativa de vida pressiona o sistema de previdência e obriga o governo a discutir reformas no mercado de trabalho e na idade mínima de aposentadoria.

Impacto global e pressão sobre parceiros comerciais

Os efeitos da desaceleração chinesa já aparecem nas projeções de organismos internacionais e de grandes casas de análise. Vários cenários de crescimento global para 2026 e 2027 dependem diretamente da capacidade de Pequim de manter o PIB perto de 5%. Cada ponto percentual a menos na China tende a reduzir a expansão mundial, em média, em 0,2 ponto, segundo cálculos de economistas de mercado. Países que vendem minério de ferro, soja, petróleo e cobre acompanham com atenção, porque uma China menos aquecida significa menor demanda e, possivelmente, preços mais baixos.

Ao mesmo tempo, o papel das exportações chinesas como motor do crescimento reacende tensões comerciais. Estados Unidos e União Europeia discutem novas barreiras a produtos considerados subsidiados, especialmente carros elétricos e equipamentos industriais. Se novos obstáculos avançarem, o espaço para que a China continue crescendo puxada pelo comércio exterior fica menor. “O mundo ainda precisa da demanda chinesa, mas também teme a concorrência de sua indústria”, avalia um analista em Hong Kong. Esse equilíbrio delicado torna o desempenho do país um tema fixo nas reuniões de bancos centrais e fóruns econômicos internacionais.

O que está em jogo nos próximos anos

As decisões tomadas agora em Pequim vão definir o ritmo da economia chinesa na próxima década. O governo indica que pretende combinar estímulos pontuais com reformas graduais, sem mudanças bruscas. A meta, não declarada, é manter o crescimento anual em torno de 4% a 5% até 2030, enquanto tenta adaptar o país a uma população menor e mais velha. A tarefa envolve requalificar trabalhadores, atrair investimentos em tecnologia de ponta e ampliar a rede de proteção social, sem perder o controle da dívida pública e dos riscos financeiros.

Analistas e investidores globais acompanham os próximos passos com cautela. Se a China conseguir transformar um crescimento de 5% em uma trajetória estável, mesmo com menos nascimentos, o impacto positivo se espalha por cadeias produtivas em todo o mundo. Se, ao contrário, a desaceleração do fim de 2025 se aprofundar, o planeta terá de lidar com um motor econômico menos potente justamente em um período de transição energética e disputa tecnológica intensa. A pergunta que permanece em aberto é se o país conseguirá ajustar seu modelo de desenvolvimento a tempo de evitar que o bônus demográfico, que sustentou sua ascensão, se converta em freio duradouro ao crescimento.

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