Phil Spencer se aposenta e Microsoft Gaming terá nova CEO em 2026
Phil Spencer, líder máximo do Xbox há 12 anos, anuncia aposentadoria para 23 de fevereiro de 2026. A executiva Asha Sharma assume a Microsoft Gaming, em uma transição que redesenha o comando da divisão de jogos da empresa.
Fim de uma era no Xbox e chegada de um novo comando
O anúncio encerra uma trajetória de 38 anos de Spencer na Microsoft, iniciada em 1988 como estagiário, e marca o fim de uma era para a marca Xbox. A mudança é apresentada como uma sucessão planejada, articulada desde setembro passado com o CEO Satya Nadella, para garantir continuidade em um negócio que hoje reúne quase 40 estúdios e mais de 500 milhões de usuários ativos mensais.
A transição não se limita à troca de nomes. A atual presidente do Xbox, Sarah Bond, deixa a empresa, enquanto Matt Booty, até aqui chefe dos Xbox Game Studios, passa a diretor de conteúdo da Microsoft Gaming. Sharma, que se torna vice-presidente executiva e CEO da divisão, responde diretamente a Nadella e herda um portfólio que inclui franquias como Halo, Call of Duty, Diablo, Fallout e Candy Crush.
Em e-mail interno, Nadella agradece a Spencer por ter “ajudado a transformar o que fazemos e como fazemos” ao longo de 12 anos à frente de Gaming. Segundo o executivo, o negócio quase triplica de tamanho nesse período, impulsionado por aquisições de peso como Activision Blizzard King, ZeniMax e Mojang, dona de Minecraft, além da expansão para PC, dispositivos móveis e nuvem.
Legado de Spencer e reorganização da cúpula
Spencer assume o comando do Xbox em março de 2014, num momento de desgaste com o público após a recepção negativa do Xbox One em 2013. Uma de suas primeiras decisões é separar o acessório Kinect 2.0 do pacote do console, o que reduz o preço em US$ 100 e alinha o valor de lançamento ao PlayStation 4, em US$ 399. A medida simboliza uma guinada de estratégia: menos foco em periféricos, mais atenção ao jogador tradicional.
Ao longo da década, Spencer se torna um rosto raro no setor: um executivo que frequenta partidas online, acumula Gamerscore elevado e se comunica diretamente com a comunidade. Sob sua gestão nascem a retrocompatibilidade em larga escala, o Xbox Game Pass e iniciativas de acessibilidade que colocam a Microsoft em destaque tanto no hardware quanto no software. O conceito de “jogar em qualquer lugar”, do console ao PC e aos dispositivos móveis, ganha peso com o Xbox Play Anywhere e com o streaming na nuvem.
O período também é marcado por uma ofensiva de aquisições. Em 2020, a Microsoft compra a ZeniMax por US$ 7,5 bilhões e assume marcas como Fallout, The Elder Scrolls, Doom e Quake. Em 2022, fecha o maior negócio da história dos games: a compra da Activision Blizzard King por US$ 69 bilhões, concluída após quase dois anos de escrutínio regulatório em vários países. As operações buscam corrigir a crônica escassez de jogos próprios e reforçar o catálogo do Game Pass.
Apesar da expansão, o Xbox enfrenta tropeços recentes. A geração Xbox Series X|S, lançada durante a pandemia, sofre com estoques irregulares, escassez de grandes exclusivos e dois aumentos de preço do hardware em um intervalo de seis meses. Em 2025, o fim de ano registra desempenho fraco, agravado pela alta na assinatura do Game Pass Ultimate, nível que permite jogar lançamentos no dia da estreia. O relatório trimestral seguinte expõe um cenário difícil para a divisão.
Spencer admite, em carta aos funcionários, que comunica a Nadella a intenção de se afastar em meados de setembro do ano passado. “O Xbox sempre foi mais do que um negócio. É uma comunidade vibrante de jogadores, criadores e equipes”, escreve. Ele afirma que a sucessão é conduzida com “plano cuidadoso e deliberado” e promete atuar em um cargo consultivo no primeiro semestre da transição para apoiar Sharma.
Nesse rearranjo, a saída de Sarah Bond destoa da narrativa de continuidade. Vista por parte do mercado como sucessora natural de Spencer, a executiva ocupa cargos-chave desde 2017, com passagem por parcerias, experiência de criadores e, desde 2022, a presidência do Xbox. Spencer destaca que Bond é “fundamental durante um período decisivo”, especialmente na expansão do Game Pass e dos jogos na nuvem, mas não detalha os motivos da renúncia.
Nova estratégia, foco em jogos e disputa pela próxima década
A chegada de Asha Sharma sinaliza uma tentativa de conciliar renovação e estabilidade. Ex-vice-presidente de produto e engenharia da Meta e ex-diretora de operações da Instacart, ela entra na Microsoft em 2024 e, em dois anos, assume um dos negócios mais visíveis da empresa. No e-mail à equipe, diz sentir “humildade e urgência” e define uma agenda em três frentes: ótimos jogos, retorno ao coração do Xbox e futuro dos games com uso criterioso de inteligência artificial.
“Tudo começa aqui. Precisamos ter jogos excelentes, amados pelos jogadores, antes de fazer qualquer outra coisa”, afirma. Sharma promete empoderar estúdios, investir em franquias já consagradas e apoiar “novas ideias ousadas”, inclusive em categorias e mercados onde o Xbox ainda é coadjuvante. A promoção de Matt Booty a diretor de conteúdo é apresentada como consequência direta desse compromisso.
Ela também fala em um “retorno do Xbox”. O plano passa por um compromisso renovado com o console, base da marca há 25 anos, sem abandonar a expansão para PC, celular e nuvem. A meta é oferecer uma experiência “perfeita e instantânea” em qualquer dispositivo, derrubando barreiras técnicas para que desenvolvedores criem uma vez e alcancem jogadores em todas as plataformas, sem perda de qualidade.
No horizonte mais distante, Sharma mira a reinvenção do modelo de negócios. A executiva promete criar ferramentas e uma plataforma compartilhada para que desenvolvedores e jogadores possam construir e divulgar suas próprias histórias dentro de universos já existentes. Ao falar de inteligência artificial, toma distância de experiências oportunistas: “Não buscaremos eficiência de curto prazo nem inundaremos nosso ecossistema com porcarias de IA sem alma. Os jogos são e sempre serão arte, criados por humanos”.
Booty reforça o discurso em sua mensagem. Ele diz que as primeiras conversas com a nova CEO giram em torno do papel de jogos de alta qualidade na saúde do negócio. “Ela faz perguntas, busca clareza e quer que nossas escolhas sejam baseadas nas necessidades dos jogadores e desenvolvedores”, escreve. O executivo assegura que não há, por ora, mudanças organizacionais nos estúdios, e que sua prioridade é “criar as condições para que façam seu melhor trabalho”.
O momento da sucessão coincide com uma melhora recente na linha de lançamentos do Xbox. Depois de um início de geração irregular, a Microsoft passa a entregar uma sequência mais densa de títulos relevantes. Entre 2024 e 2025, chegam jogos como STALKER 2, Call of Duty: Black Ops 6 e 7, Microsoft Flight Simulator 2024, Indiana Jones and the Great Circle, Avowed, South of Midnight, Doom: The Dark Ages, Ninja Gaiden 4, Keeper e The Outer Worlds 2. Para 2026, a expectativa inclui Forza Horizon 6, o novo Fable, Gears of War: E-Day e o remake Halo: Campaign Evolved em Unreal Engine 5.
Pressão por resultados e incertezas para os próximos anos
A reconfiguração da cúpula da Microsoft Gaming ocorre em um mercado mais concentrado e competitivo, no qual Sony, Nintendo e gigantes de tecnologia disputam não só vendas de consoles, mas tempo e gasto recorrente do jogador. A Microsoft aposta que a combinação entre um catálogo robusto, serviços por assinatura e distribuição em múltiplas telas garantirá fôlego para a próxima década, mas enfrenta desconfiança após aumentos de preço e falhas no calendário de exclusivos.
Sharma herda uma base de 500 milhões de usuários ativos mensais, um conjunto de franquias globais e a pressão de justificar investimentos que superam US$ 70 bilhões em aquisições desde 2020. Ganha, em troca, a chance de redefinir o lugar do Xbox em um cenário em que a linha entre console, PC e nuvem fica cada vez mais tênue. Perde a rede de proteção simbólica de um líder carismático como Spencer, capaz de amortecer críticas e falar diretamente ao público mais fiel.
O futuro imediato da divisão passa pela capacidade de transformar discurso em entregas concretas. Consoles competitivos, jogos marcantes e um uso de inteligência artificial que complemente, e não substitua, o trabalho criativo serão testados nos próximos ciclos de lançamento. O movimento de sucessão indica que a Microsoft não abre mão do Xbox como pilar de sua estratégia de consumo, mas também mostra que a tolerância a tropeços fica menor.
Spencer deixa o palco com a imagem de quem salvou o Xbox de uma crise e o levou à maior expansão de sua história, ainda que sem superar a liderança da Sony em vendas de consoles. Sharma entra com a missão de provar que esse legado pode ser ponto de partida, não de chegada. A resposta virá menos dos memorandos internos e mais da tela ligada na sala de estar.
