PF sonde ex-banqueiro Daniel Vorcaro sobre possível delação no caso Master
A Polícia Federal realiza, nesta semana, uma sondagem preliminar sobre a disposição do ex-banqueiro Daniel Vorcaro em negociar uma delação premiada no caso Master, após nova prisão preventiva decretada pelo STF. A iniciativa, autorizada pelo ministro André Mendonça, ocorre em meio ao avanço das investigações sobre suspeitas de propina ligada ao antigo Banco Master e à pressão política no Congresso. A defesa nega qualquer tratativa formal e diz que a versão sobre delação busca fragilizar sua estratégia jurídica.
Conversa reservada em Brasília abre nova frente na investigação
O movimento se consolida em um relatório datado de 12 de março de 2026, produzido depois da nova prisão preventiva decretada na semana anterior. Em Brasília, investigadores da Polícia Federal se reúnem com advogados de Vorcaro em uma conversa autorizada pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, sem gravação nem formalização de proposta. O encontro não marca o início oficial de uma delação, mas funciona como um teste de ambiente para medir até onde o ex-banqueiro está disposto a ir.
Segundo relatos feitos à CNN, o objetivo é apenas sondar se Vorcaro poderia mudar de posição diante do endurecimento do cenário judicial. Hoje, afirmam seus advogados, ele não pretende assinar um acordo de colaboração. Pessoas próximas ao ex-banqueiro, porém, admitem que a nova prisão preventiva altera o cálculo e leva o entorno familiar a estudar cenários, sobretudo para blindar parentes que entraram no radar da PF.
O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, está preso. O pai, Henrique Vorcaro, aparece em relatório policial como responsável por ocultar cerca de R$ 2,2 bilhões de vítimas do Master em sua conta na gestora Reag. A cifra, combinada com o avanço da operação Compliance Zero sobre fraudes em fundos de investimento, amplia a pressão sobre o núcleo familiar e reforça a percepção de que qualquer colaboração futura teria impacto direto sobre essas frentes.
Nesta semana, o ex-banqueiro recebe na prisão federal em Brasília uma visita de seu advogado, também autorizada por Mendonça sem registro em áudio ou vídeo. Na prática, a decisão do ministro cria uma zona de confidencialidade em torno das conversas preliminares, reduzindo o risco de exposição de uma mudança de estratégia antes de qualquer definição concreta.
Propina, centrão e medo de delação balançam Congresso
O caso Master deixa a esfera financeira e atinge o coração da política em Brasília. As investigações miram suspeitas de pagamento de propina pelo antigo Banco Master, hoje liquidado pelo Banco Central, para ampliar sua influência sobre parlamentares, em especial do centrão. A operação Compliance Zero, que apura fraudes em fundos, já mira a suspeita de compra de apoio político com recursos ligados ao grupo de Vorcaro.
No Congresso, o avanço da PF alimenta o temor de uma delação que exponha nomes de peso do bloco. Integrantes do centrão defendem publicamente que Vorcaro deixe a prisão preventiva e volte a cumprir medidas cautelares em regime domiciliar. O argumento central é que os delitos investigados teriam ocorrido antes da primeira prisão, o que, segundo essa ala, não justificaria a manutenção do ex-banqueiro em um presídio federal em 2026.
A defesa de Vorcaro se apoia nesse discurso e reage com dureza à notícia sobre qualquer iniciativa de acordo. “A defesa de Daniel Vorcaro declara que são inverídicas as notícias relacionadas à iniciativa de tratativas de delação premiada de Daniel Vorcaro. Essa informação jamais partiu de qualquer dos advogados envolvidos no caso e sua divulgação tem o único objetivo de prejudicar o exercício da defesa nesse momento sensível”, diz nota enviada à reportagem.
Nos bastidores, delegados que acompanham o inquérito afirmam que não veem motivo para um acordo sem conteúdo robusto. A PF sinaliza que uma colaboração só faria sentido se o ex-banqueiro apresentasse fatos inéditos e provas consistentes, capazes de ampliar o alcance da investigação para além do que já está documentado. A avaliação é que delações vazias, centradas apenas em versões sem comprovação, aumentam o desgaste político sem fortalecer a persecução penal.
Paralelamente, o histórico recente do Supremo em casos de grande repercussão, com decisões que facilitam a criação de CPIs, anima grupos que defendem uma Comissão Parlamentar de Inquérito específica sobre o Master. Discussões no Congresso já apontam para a convocação de figuras como o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, Fabiano Zettel e uma ex-namorada de Vorcaro, numa tentativa de mapear a rede de influência do ex-banqueiro.
Investigação avança e pressão sobre família define próximos passos
A sondagem sobre a disposição de Vorcaro para colaborar passa a ser um ponto de inflexão da investigação. Se ele optar por uma delação consistente, o efeito imediato será a ampliação do foco da operação Compliance Zero para dentro do Congresso, com potencial de atingir líderes partidários e operadores políticos ligados ao centrão. Nesse cenário, a agenda legislativa do governo federal e de governos regionais, como o do Distrito Federal, também pode sofrer abalos, a depender dos nomes citados.
Uma colaboração também redesenharia o mapa de risco da própria família do ex-banqueiro. O cunhado Fabiano Zettel, já preso, e o pai, Henrique, passariam a ser peças centrais em uma estratégia de redução de danos. Advogados criminalistas que acompanham o caso avaliam que, em delações desse porte, a barganha costuma envolver não apenas pena menor para o delator, mas eventuais mecanismos de proteção para parentes diretamente envolvidos nas operações financeiras.
Se Vorcaro mantiver a decisão de silêncio, a PF tende a intensificar o rastreamento de fluxos financeiros, com foco nos R$ 2,2 bilhões atribuídos ao pai e nas suspeitas de propina para parlamentares. A próxima fase da operação, já desenhada internamente, mira a compra de apoio político no Congresso Nacional, com ênfase em contratos, votações estratégicas e intermediação de recursos por meio de fundos e consultorias.
O ambiente político, por sua vez, caminha para uma polarização em torno do caso. De um lado, parlamentares interessados em limitar os danos e em esvaziar a narrativa de que o centrão se financia com dinheiro de esquemas bancários. De outro, grupos que veem na crise uma oportunidade de avançar em CPIs, reorganizar alianças e pressionar o governo por cargos e emendas.
O relatório do dia 12 de março registra apenas o primeiro movimento formal após a nova prisão preventiva. As próximas semanas dirão se a sondagem ficará restrita a uma conversa reservada ou se será o ponto de partida para uma colaboração que pode redesenhar, ao mesmo tempo, o futuro judicial de Daniel Vorcaro e o equilíbrio de forças no Congresso.
