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PF prende dono do Banco Master e expõe foco de corrupção no BC

A Polícia Federal prende, nesta quarta-feira (4), o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em nova fase da operação Compliance Zero. A ação mira um esquema de fraudes financeiras, corrupção e monitoramento de críticos que envolve ex-servidores do Banco Central e abala a credibilidade da autoridade monetária.

Esquema revela “foco de infecção” dentro do Banco Central

As prisões, autorizadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), são o ponto mais tenso de uma investigação iniciada em novembro de 2025. Desde então, a PF rastreia mensagens, pagamentos e encontros privados que indicam a existência de uma estrutura criminosa articulada em torno do Banco Master, instituição já liquidada pelo BC.

O caso deixa o Banco Central sob pressão rara. Ao programa CNN Money, o ex-presidente do BC Armínio Fraga diz que o episódio “foi muito longe” e expõe um problema interno grave. “A credibilidade do BC estava abalada com o caso Master. Agora começa a ficar claro que havia um foco de infecção lá dentro, e o BC vai poder recuperar a sua credibilidade de sempre”, afirma.

O núcleo da apuração envolve a relação de Vorcaro com dois ex-servidores da autarquia: o ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza e o ex-servidor Belline Santana. Segundo a PF, os dois atuam como uma espécie de consultoria informal para o banqueiro, orientando estratégias e revisando documentos de interesse do Master dirigidos ao próprio regulador.

Os investigadores localizam um grupo de WhatsApp que reúne Vorcaro e os ex-funcionários. O canal serve, de acordo com a PF, para a troca direta de informações sensíveis e a combinação de ações voltadas a influenciar decisões do Banco Central. As mensagens registram pedidos, ajustes de minutas e relatos de reuniões reservadas.

Como funcionava a engrenagem entre banqueiro e ex-servidores

A decisão de André Mendonça descreve o que chama de “relacionamento ilícito” entre Vorcaro, Paulo Sérgio e Belline. O texto aponta “graves indícios de recebimento mensal de vantagens indevidas” em troca de informações internas e apoio na defesa dos interesses do Banco Master diante da supervisão do BC.

De acordo com a PF, Paulo Sérgio revisa minutas de documentos do Master antes de seu envio à autarquia. Ele sugere alterações em cartas, recursos e comunicações oficiais que têm como destino o próprio órgão onde fez carreira. O objetivo seria calibrar o tom das defesas e antecipar o tipo de questionamento que o regulador poderia levantar.

Os investigadores mencionam um episódio específico para ilustrar a proximidade entre o ex-diretor e o banqueiro. Em mensagens, Vorcaro manda providenciar um serviço de guia para uma viagem de Paulo Sérgio à Disney. O benefício, segundo a PF, reforça a suspeita de vantagem indevida, mesmo sem um valor exato divulgado até agora.

Belline atua em linha semelhante. O ex-servidor participa de reuniões privadas com o dono do Master, algumas fora das dependências do Banco Central. Nessas conversas, de acordo com os relatórios, são discutidos temas estratégicos, como a postura da instituição diante processos administrativos e medidas de supervisão.

A PF destaca que Vorcaro prefere tratar com Belline por ligação telefônica, especialmente quando o assunto é sensível. O comportamento indica, para os investigadores, uma tentativa deliberada de evitar o registro escrito de diálogos que poderiam comprometer o grupo. Mesmo assim, parte das conversas é reconstruída por meio de mensagens, agendas e depoimentos.

A operação também aponta para algo além da relação com o regulador. A decisão do STF cita indícios de que o grupo monitora críticos, incluindo jornalistas, e tenta intimidar envolvidos e testemunhas ligadas ao caso. Mensagens mostram preocupações com vazamentos e tentativas de mapear quem fala com a imprensa e com as autoridades.

Abalo na confiança, pressão por reformas e risco regulatório

O escândalo atinge o coração do sistema financeiro brasileiro. O Banco Central é a principal âncora de confiança de bancos, investidores e correntistas. Quando ex-diretores e servidores aparecem ligados a um esquema de corrupção com um banqueiro sob investigação, o risco de dano reputacional dispara.

A crise vem em um momento em que o BC já enfrenta escrutínio por sua atuação em liquidações de instituições menores e em casos de fraude. A operação Compliance Zero, aberta em novembro de 2025, nasce justamente da suspeita de que o Master manipula balanços, omite informações relevantes e tenta contornar regras de supervisão. A liquidação do banco não encerra as dúvidas. Pelo contrário, força a PF a seguir o rastro de decisões tomadas ao longo de meses dentro da autarquia.

No mercado, gestores falam em um “choque de credibilidade”. O receio é que, por algum tempo, qualquer movimentação do BC em processos de supervisão seja lida com suspeita. Investidores estrangeiros, que acompanham de perto casos de corrupção envolvendo reguladores, podem exigir prêmios de risco maiores ou adiar decisões de alocação em títulos brasileiros.

O impacto também é político. As prisões de 4 de março de 2026 ocorrem poucos meses depois de o presidente do BC, Gabriel Galípolo, afastar Paulo Sérgio e Belline no fim de 2025. A medida tenta conter a crise, mas a nova fase da operação mostra que as suspeitas vão além de condutas individuais e levantam dúvidas sobre mecanismos de controle interno.

No Congresso, parlamentares discutem a criação de comissões para acompanhar o caso e cobrar respostas sobre a supervisão de bancos médios e pequenos. A palavra “compliance”, antes restrita a relatórios técnicos, entra de vez no debate público. A expectativa é de reforço nas barreiras entre regulador e regulados, com novas regras de conflito de interesses e quarentena para ex-dirigentes.

Investigações avançam e deixam desafio de reconstruir a confiança

As prisões desta quarta marcam o início de uma fase mais agressiva da Compliance Zero. A PF deve aprofundar a análise de dados apreendidos em celulares, computadores e trocas de mensagens, além de seguir o rastro de pagamentos suspeitos. A tendência é de novas quebras de sigilo bancário e fiscal e de depoimentos complementares.

No Banco Central, a ordem é colaborar com as autoridades e rever procedimentos internos. A cúpula discute ampliar cruzamentos automáticos de informações, endurecer controles sobre acesso a dados sensíveis e reforçar canais de denúncia. Nos bastidores, técnicos reconhecem que o caso Master se torna um ponto de inflexão na cultura da instituição.

Para Armínio Fraga, a limpeza é dolorosa, mas necessária. Quando fala em “foco de infecção”, o ex-presidente do BC admite que a autarquia falha ao não identificar cedo o risco representado pela relação entre o Master e seus ex-servidores. A exposição pública, porém, abre espaço para uma reconstrução. “O BC vai poder recuperar a sua credibilidade de sempre”, afirma.

O desfecho ainda é aberto. As próximas decisões do STF, os relatórios da PF e eventuais denúncias do Ministério Público Federal vão definir até onde o caso avança dentro do sistema financeiro. A pergunta que fica, para o mercado e para a sociedade, é se o choque atual será suficiente para mudar práticas arraigadas ou se o episódio será lembrado apenas como mais um escândalo em um setor que não pode se dar ao luxo de perder a confiança.

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