PF prende de novo Rodrigo Bacellar em operação sobre vazamento à facção
O ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar é preso novamente pela Polícia Federal nesta sexta-feira (27), no Rio de Janeiro, durante a Operação Unha e Carne III. A ação cumpre mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal, no âmbito de investigações sobre o vazamento de informações sigilosas para o crime organizado.
Nova prisão expõe avanço de inquéritos sobre crime e política
Agentes da Polícia Federal levam Bacellar à Superintendência da corporação no centro do Rio poucas horas depois do amanhecer. Os mandados são assinados pelo ministro Alexandre de Moraes, que acompanha o caso desde dezembro de 2025, quando o então presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro é preso pela primeira vez, acusado de vazar dados de uma operação contra a facção Comando Vermelho.
A nova ofensiva se insere na Operação Unha e Carne III, desdobramento de investigações sobre a relação entre grupos criminosos violentos e agentes públicos no estado. O foco agora é o suposto vazamento de informações sobre ações policiais, capaz de comprometer a segurança de operações e a integridade de agentes em campo.
No despacho que autoriza a prisão preventiva, Moraes afirma que “é patente a necessidade da decretação da prisão em face da conveniência da instrução criminal e para assegurar a aplicação da lei penal, bem como a ordem pública”. O texto reforça a avaliação de que a liberdade de Bacellar representa risco concreto às investigações em curso.
A decisão se ancora na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) das Favelas, julgada pelo STF, que em 2020 impõe novos parâmetros para operações policiais em comunidades do Rio. Entre as determinações está o reforço da atuação da Polícia Federal na apuração da atuação das principais facções e de suas conexões com estruturas do Estado.
Desde dezembro, Bacellar responde às acusações em liberdade, com medidas cautelares. Ele é alvo de apurações que investigam a circulação de informações sensíveis sobre operações da PF e de outras forças de segurança, em um ambiente onde poucos minutos de antecedência podem significar a fuga de chefes de quadrilha ou o fracasso de meses de monitoramento.
Crise política se aprofunda após cassação e inelegibilidade
A nova prisão ocorre três dias depois de o Tribunal Superior Eleitoral confirmar, na terça-feira (24), a cassação imediata do mandato de Bacellar, então presidente da Alerj. Por 5 votos a 2, o TSE reconhece abuso de poder político nas eleições de 2022 e impõe também a sanção de inelegibilidade, afastando o ex-deputado das urnas pelos próximos anos.
Bacellar já não exerce a presidência da Assembleia desde o fim de 2025, quando Moraes determina seu afastamento como medida de proteção às investigações sobre o vazamento de informações de operações policiais. A decisão do TSE consolida a queda de um dos políticos mais influentes do União Brasil no estado e aprofunda a instabilidade no comando do Legislativo fluminense.
Em nota, a defesa afirma que “desconhece completamente os motivos dessa nova prisão decretada” e classifica a medida como “indevida e desnecessária”, sustentando que o ex-deputado “vinha cumprindo fiel e completamente todas as medidas cautelares impostas”. Os advogados anunciam que vão recorrer para tentar reverter a prisão preventiva no STF.
A ofensiva judicial atinge em cheio o ambiente político fluminense, ainda sob os efeitos da condenação, pelo mesmo TSE, do ex-governador Cláudio Castro (PL) no mesmo processo, também por abuso de poder político. A convergência de decisões de Corte eleitoral e Supremo expõe uma teia de relações entre governo estadual, Legislativo e estruturas de segurança sob escrutínio inédito.
Entre aliados, a avaliação é que a prisão de hoje consolida o desgaste de Bacellar e reduz o espaço de manobra de grupos que tentam preservar influência na Alerj mesmo após a cassação. Entre adversários, a leitura é oposta: cresce a percepção de que a Justiça avança na responsabilização de políticos que se aproximam de facções e se beneficiam do controle territorial dessas organizações.
Segurança pública, vazamentos e o que está em jogo
A Operação Unha e Carne III funciona, na prática, como um teste da estratégia traçada pelo STF na ADPF das Favelas. O objetivo declarado é enfrentar não apenas o tráfico de drogas, mas a simbiose entre facções e setores do poder público, em especial no Rio, onde o Comando Vermelho mantém presença em dezenas de comunidades.
Para investigadores, o vazamento de informações sobre operações policiais tem potencial de sabotar políticas de segurança pública inteiras. Alertas antecipados sobre mandados, rotas de incursão ou equipes envolvidas permitem que criminosos ajustem rotinas, escondam armas, esvaziem depósitos e se desloquem para áreas menos vigiadas. Cada operação frustrada significa dinheiro preservado para o crime, armas que continuam em circulação e territórios ainda sob domínio de facções.
O caso Bacellar se torna um símbolo dessa disputa. Ao vincular um ex-presidente da Alerj a suspeitas de vazamento para uma facção, a investigação coloca sob suspeita parte da mediação política que historicamente organiza o acesso do Estado às favelas. O recado do Supremo é que o custo dessa relação, se confirmada, passa a ser prisão preventiva, cassação de mandato e inelegibilidade.
No curto prazo, a prisão tende a fortalecer a atuação da PF em investigações sobre o tráfico de informações privilegiadas no Rio. Delegados ganham mais espaço para avançar sobre conexões políticas, enquanto a decisão de Moraes serve de parâmetro para medidas semelhantes em outros casos que envolvem vazamentos e risco às operações.
O desfecho também influencia o cenário eleitoral. Com Bacellar fora de jogo, partidos reorganizam cálculos internos e disputas por espaço na Alerj e em futuras chapas para o governo estadual. A inelegibilidade afasta um nome que, até 2022, se projeta como articulador central no tabuleiro fluminense.
Próximos passos sob olhar do STF e pressão da sociedade
Após as formalidades na Superintendência da PF, Bacellar segue para o sistema prisional do Rio, onde permanece à disposição da Justiça. A defesa deve apresentar pedido de revogação da prisão preventiva ainda nos próximos dias, tentando demonstrar que não há risco à investigação nem ameaça à ordem pública.
Os próximos capítulos dependem da velocidade da PF em consolidar provas sobre o suposto vazamento e mapear a extensão das conexões entre políticos e o Comando Vermelho. O processo também testa a capacidade do STF de manter uma linha firme no combate à infiltração do crime organizado nas instituições, sem atropelar garantias individuais.
Se as suspeitas forem confirmadas, a prisão desta sexta-feira entra para a lista de casos que redesenham fronteiras entre política e segurança pública no Rio. Se caírem por falta de provas, as decisões de hoje ainda deixarão uma pergunta incômoda: quem responde pelos vazamentos que seguem colocando em risco a vida de policiais e moradores nas favelas do estado?
