PF pede quebra de sigilo de fundo ligado a Toffoli no Caso Master
A Polícia Federal prepara pedido de quebra de sigilo de um fundo de investimento ligado ao ministro do STF Dias Toffoli, em investigação por suspeita de corrupção passiva no âmbito do Caso Master. O movimento ocorre nesta quinta-feira (20), após relatório de cerca de 200 páginas apontar indícios de crime e ser encaminhado ao presidente do Supremo, Edson Fachin.
Relatório da PF leva suspeitas ao Supremo
O relatório da PF detalha conversas apreendidas em celulares do banqueiro Daniel Vorcaro e reconstrói, passo a passo, o que os investigadores descrevem como o caminho do dinheiro. As mensagens mencionam supostos pagamentos a um ministro da Suprema Corte ligados à venda da participação no resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR), envolvendo o fundo Maridt.
O documento chega ao STF com base no artigo 33 da Lei Orgânica da Magistratura, que obriga a comunicação quando há “indício da prática de crime por parte do magistrado”. Diante do material, a PF decide pedir a quebra de sigilo do fundo associado a Toffoli e a realização de novas diligências financeiras. O objetivo é cruzar datas, valores e beneficiários e verificar se há compatibilidade entre as transações de Vorcaro e o patrimônio ligado ao ministro.
A ofensiva se concentra no período em que a Maridt detém participação no Tayayá e na posterior venda da fatia para um fundo ligado a Vorcaro. A PF quer identificar quem lucra, quanto recebe e por quais vias o dinheiro circula. Internamente, agentes que acompanham o caso descrevem o momento como decisivo para comprovar ou descartar o elo entre as conversas de WhatsApp e operações bancárias concretas.
Toffoli nega crime e tenta conter desgaste
O avanço da investigação pressiona a imagem do Supremo e expõe um de seus ministros a suspeitas raras na história recente da Corte. Em nota enviada à CNN Brasil, o gabinete de Toffoli afirma que o ministro “jamais integrou qualquer fundo de investimento” e sustenta que “todos os questionamentos formulados pela Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal foram integralmente respondidos”. A assessoria ressalta ainda que o presidente do STF, Edson Fachin, “determinou o arquivamento do caso” no âmbito da Ação de Segurança 244.
O teor do relatório da PF, porém, leva o inquérito de volta ao plenário. Conforme revelado pela revista Piauí e confirmado pela CNN, os delegados encaminham os autos ao STF depois de se depararem com indícios de crime atribuídos ao magistrado dentro do próprio Caso Master. Após a divulgação desse material, Toffoli admite pela primeira vez ter sido um dos sócios da Maridt, fundo que mantinha participação no Tayayá antes de vender a fatia para um veículo de Vorcaro.
Entre investigadores, a mudança de versão acende alerta. A PF entende que a participação no fundo, negada de forma reiterada e depois reconhecida, precisa ser confrontada com registros da Comissão de Valores Mobiliários, escrituras e contratos privados. A checagem deve apontar se houve omissão patrimonial, incompatibilidade de valores ou benefício indevido em operação imobiliária de alto valor, num contexto em que o balanço da própria operação Master já indica a apreensão de R$ 645 mil em espécie e 30 armas de fogo.
A repercussão política é imediata. Aliados do governo e da oposição usam o caso para reforçar discursos opostos sobre o Supremo. Um grupo cobra mais transparência e defende que ministros estejam sujeitos às mesmas medidas de apuração impostas a parlamentares e membros do Executivo. Outro acusa a PF de extrapolar e alimentar um clima de instabilidade institucional.
Investigações travadas e expectativa sobre Mendonça
A tramitação do Caso Master no STF passa a depender da atuação do novo relator, ministro André Mendonça. Integrantes da PF ouvidos sob reserva afirmam esperar que ele “destrave” as apurações. A experiência de Mendonça à frente do caso das fraudes no INSS é citada como sinal de que o magistrado tende a ser “correto” e atento a provas técnicas, sem paralisar investigações por disputas políticas.
Decisões anteriores do Supremo já haviam reduzido o alcance das apurações envolvendo Vorcaro. A Corte retirou, por exemplo, a quebra de sigilo do banqueiro de uma CPMI, sob o argumento de que o compartilhamento de dados sensíveis precisava respeitar limites constitucionais. O recuo alimentou críticas sobre interferência do Judiciário em investigações parlamentares e levou parte da PF a atuar com mais cautela ao pedir medidas invasivas.
O pedido de quebra de sigilo do fundo ligado a Toffoli reabre esse debate. Juristas lembram que o Supremo tem histórico de blindagem institucional, mas também vem sendo cobrado por coerência. Quando ministros autorizam buscas, prisões e bloqueios patrimoniais de políticos e empresários com base em indícios semelhantes, cresce a pressão para que a régua seja a mesma quando o alvo é alguém da própria Corte.
O que está em jogo na próxima fase
A eventual autorização para quebrar o sigilo do fundo pode expor uma cadeia de transações hoje restrita a bancos, gestores e reguladores. Extratos, contratos e comunicações internas podem esclarecer se a venda da participação no Tayayá segue preços de mercado ou se há ganhos desproporcionais. Também podem revelar se o dinheiro passa por empresas de fachada, offshores ou contas de terceiros antes de chegar a pessoas físicas ligadas ao ministro.
Se a apuração confirmar pagamentos atípicos, o Supremo se verá diante de um cenário sem precedentes recentes: a necessidade de apurar, dentro da própria Casa, um possível esquema de corrupção envolvendo um de seus integrantes em atividade. Isso tende a alimentar pedidos de afastamento, ações na Procuradoria-Geral da República e uma disputa intensa no Congresso em torno de CPI e projetos de controle sobre a Corte.
Se, ao contrário, o sigilo for quebrado e nada indicar irregularidade, a PF corre o risco de enfrentar questionamentos por ter colocado em xeque a honra de um ministro com base em mensagens fragmentadas. Nesse cenário, a pressão recairá sobre a corporação e sobre a forma como grandes operações vêm sendo conduzidas desde a Lava Jato.
Os próximos dias devem ser dedicados à análise do pedido de quebra de sigilo e das demais diligências sugeridas pela PF. A decisão de Mendonça definirá o fôlego da investigação e o grau de exposição de Toffoli e do próprio Supremo. No centro do tabuleiro, permanece uma pergunta que ecoa além do caso específico: até onde vão, na prática, os mecanismos de controle sobre quem ocupa o topo do Judiciário brasileiro?
