PF investiga trend misógina e TikTok remove vídeos violentos
A Polícia Federal abre inquérito para investigar perfis que divulgaram a trend “caso ela diga não” no TikTok, que simulava agressões contra mulheres. Os vídeos são removidos pela plataforma após pedido formal da PF, que preserva dados dos responsáveis para aprofundar a apuração.
Trend violenta cresce no mês do Dia da Mulher
A investigação nasce no rastro de uma onda de vídeos publicados entre 2024 e 2025 e que ganham força no início de março de 2026, mês do Dia Internacional da Mulher. A trend usa a frase “treinando caso ela diga não”, ou variações, para encenar situações em que homens reagem com violência a uma negativa em contexto romântico.
Os vídeos seguem um roteiro semelhante. Um gesto aparentemente romântico, como o homem se ajoelhando para pedir casamento, abre a cena. A encenação muda de tom quando a mulher supostamente recusa o pedido. A partir daí, os autores simulam chutes, socos, facadas e até tiros, muitas vezes com trilhas sonoras e efeitos que tratam a violência como piada.
O conteúdo circula principalmente em perfis criados em 2024 e 2025, segundo a Diretoria de Repressão a Crimes Cibernéticos da PF. Grande parte dos vídeos que mais viralizam é postada no ano passado, mas alcança um público ainda maior neste mês, alimentada pelo algoritmo da plataforma e pelo debate em torno da data simbólica de 8 de março.
A escalada de visualizações vem acompanhada de reações indignadas. Denúncias de usuários, relatos de mulheres que se sentem ameaçadas e críticas de especialistas em direitos humanos pressionam autoridades e a própria rede social. A influencer Hana Khalil publica vídeos e textos acusando a trend de normalizar a violência contra a mulher e de transformar misoginia em entretenimento. “Esses conteúdos fazem parecer aceitável agredir uma mulher que diz ‘não’”, afirma.
PF aciona TikTok e mira rede de perfis misóginos
Após o aumento das denúncias, a PF instaura um inquérito específico na área de Crimes Cibernéticos para mapear os responsáveis pelos vídeos. Delegados ouvidos pela reportagem explicam que o objetivo é identificar não apenas quem produz e divulga o material, mas também eventuais conexões com grupos organizados que espalham conteúdos de ódio contra mulheres em outras plataformas.
Com base no inquérito, a PF solicita ao TikTok a remoção dos vídeos e a derrubada dos perfis envolvidos. A plataforma atende ao pedido, retira todo o conteúdo atrelado à trend “caso ela diga não” e preserva registros de IP, datas de postagem e outros dados de uso. Essas informações passam a compor a base de provas do inquérito e devem orientar possíveis indiciamentos por incitação à violência e outros crimes previstos na legislação brasileira.
Os investigadores não descartam que os mesmos usuários atuem em outras redes, em canais que já aparecem em apurações sobre misoginia digital. Relatórios recentes sobre o ecossistema de ódio de gênero no país mostram que apenas canais brasileiros abertamente misóginos no YouTube reúnem mais de 23 milhões de inscritos. Para a PF, o caso do TikTok se encaixa nesse cenário mais amplo de conteúdo que banaliza e estimula a violência de gênero.
O episódio ocorre em um momento em que o país registra os piores índices de feminicídio da última década. Em 2025, 1.568 mulheres são assassinadas por sua condição de gênero, alta de 4,7% em relação a 2024, quando 1.492 casos são registrados. A média é de quatro mulheres mortas por dia. Para entidades de defesa dos direitos das mulheres, essa realidade torna ainda mais grave a circulação de vídeos que associam a rejeição feminina a uma “licença” para agredir.
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que esse tipo de trend reforça a ideia de que a palavra “não” tem um preço para as mulheres. Ao transformar a reação violenta em meme, o conteúdo ajuda a naturalizar ameaças e agressões cotidianas, desde o assédio em festas até casos extremos de feminicídio. O impacto, dizem, não se limita à tela: molda comportamentos e expectativas sobre o que é aceitável em relações afetivas.
Liberdade de expressão, responsabilização e próximos passos
A atuação combinada da PF e do TikTok reacende o debate sobre os limites da liberdade de expressão nas redes. Juristas lembram que o direito à manifestação não ampara discursos que incitam violência ou estimulam crimes, como ocorre quando homens encenam socos, facadas e tiros como resposta a uma recusa. A discussão recoloca as plataformas no centro da cobrança por moderação mais rápida e criteriosa de conteúdos abusivos.
Delegados envolvidos na apuração afirmam que a preservação de dados é etapa crucial para responsabilizar os responsáveis. Com os registros em mãos, a PF deve cruzar informações com outros inquéritos que investigam comunidades misóginas e fóruns que pregam violência contra mulheres. A possibilidade de que os mesmos atores operem em múltiplas redes, com perfis diferentes, é tratada como linha de investigação prioritária.
Organizações da sociedade civil e coletivos feministas defendem que a resposta não se limite à remoção dos vídeos. Cobram que o governo e o Congresso avancem em regras claras para responsabilizar plataformas em casos de omissão diante de conteúdos de ódio, além de políticas educacionais focadas em prevenção. A escalada dos feminicídios em 2025, somada à popularidade de canais misóginos, indica que o problema ultrapassa o ambiente virtual.
O TikTok, pressionado por denúncias públicas e pela ação da PF, tenta mostrar reação rápida ao caso. A empresa derruba todos os vídeos identificados, reforça que a trend viola suas diretrizes de segurança e promete cooperação com as autoridades. A efetividade dessa postura, porém, dependerá da capacidade de identificar novas postagens semelhantes antes que alcancem milhões de visualizações.
A investigação segue em andamento, e a PF evita estimar prazos para conclusão do inquérito. A tendência é que o caso se torne referência para futuras ações contra conteúdos que incitam violência de gênero nas redes sociais. A reação do sistema de Justiça e das plataformas dirá se o “não” das mulheres será de fato respeitado também no ambiente digital, ou se continuará sendo tratado como gatilho para a violência travestida de entretenimento.
