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PF investiga Aviatsa por suspeita de tráfico humano em voo do Haiti

Um Boeing 737-200 fretado pela Aviatsa traz ao menos 80 haitianos com documentação irregular a Viracopos em 12 de março de 2026. A Polícia Federal abre investigação por suspeita de tráfico humano e coloca no centro do caso o empresário hondurenho Felix Francisco Pacheco Reyes, dono da companhia.

Jato antigo, documentos falhos e dez horas de impasse em Campinas

O 737-200 de 43 anos, modelo que há anos não aparece em operações regulares no Brasil, pousa em Viracopos após sair do Haiti e fazer escalas no Peru e na Bolívia. Assim que o desembarque começa, agentes constatam que apenas dois passageiros carregam a documentação exigida para entrar no país. A maioria está sem os papéis obrigatórios ou apresenta documentos falsos, segundo a Polícia Federal.

Os haitianos são inicialmente inadmitidos, e a Aviatsa é informada de que deve levá-los de volta ao Haiti. O avião, porém, não deixa o pátio. Começa uma disputa que mantém a aeronave parada por quase dez horas, com todos os passageiros a bordo, enquanto PF, aeroportuários e representantes da companhia discutem responsabilidades. No fim da noite, prevalece a decisão de autorizar o desembarque, sob investigação, para não prolongar a permanência do grupo dentro do jato.

A confusão expõe uma cadeia de falhas. O controle migratório brasileiro questiona como um fretamento internacional de mais de 80 pessoas decola sem checagem eficaz de passaportes e vistos. Especialistas em aviação e migração lembram que há anos companhias como a equatoriana AeroRegional ligam Porto Príncipe a Campinas com voos regulares, sem registro de incidentes semelhantes. A escolha de um jato antigo, registrado em Honduras, acende o alerta sobre quem está por trás da operação.

O empresário de Honduras que transforma aviões em negócio de Estado

Felix Francisco Pacheco Reyes é esse personagem. Dono da Aviatsa e de pelo menos outras dez empresas, muitas ligadas ao transporte aéreo, ele surge recorrentemente em contratos públicos sob suspeita em Honduras. A lista inclui a Inversionistas Tecnológicos Unidos (Itusa), que no fim de 2025 fecha acordo com a Polícia Nacional hondurenha para o aluguel de um jato, como revela o site investigativo Criterio.

Documentos obtidos pelo portal AEROIN junto ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos mostram Reyes como intermediário na compra de três aeronaves em 2012: dois turboélices Beechcraft King Air, matrículas HR-AXL e HR-CLQ, e um helicóptero Bell 429, HR-GCA. As máquinas saem dos EUA, entram no registro hondurenho e passam a servir, oficialmente, ao irmão do então presidente Juan Orlando Hernández.

À primeira vista, a operação parece seguir o roteiro de qualquer aquisição governamental. O DOJ, porém, descreve um desvio de finalidade: o próprio governo hondurenho passa a fretar esses aviões de uma empresa de fachada ligada a Reyes. O dinheiro público é pago ao empresário, que repassa parte dos valores à família do presidente. O mesmo Hernández é acusado pela Justiça americana de usar aviões, lanchas rápidas e até um submarino para apoiar o envio de “milhares de toneladas de cocaína” produzidas na Colômbia e escoadas por Honduras.

Os processos citam ainda a aproximação com a quadrilha Los Cachiros, responsável por subornar policiais e garantir a passagem da droga. Trechos de gravações secretas feitas pela DEA mostram o uso de campanhas eleitorais do Partido Nacional de Honduras como canal para lavar propina. Em 2024, Hernández é condenado a 45 anos de prisão por tráfico e corrupção, mas passa pouco mais de três anos detido. No fim do ano seguinte, recebe perdão presidencial de Donald Trump, volta a Honduras e vê parte de seus aliados novamente sob pressão judicial.

Reyes reaparece em outro front, o chamado “Caso Pandora”, que apura o desvio de US$ 12 milhões (cerca de R$ 60 milhões, na cotação da época) de fundos públicos de campanha. Investigadores hondurenhos apontam o uso de empresas privadas para lavar o dinheiro, entre elas a própria Aviatsa. O Ministério Público cita contratos de fretamento de um Boeing 737-200, matrícula HR-AVR, incluindo um acerto de 2020 para buscar 50 médicos hondurenhos em Cuba durante a pandemia de Covid-19.

Esse contrato, apresentado como missão humanitária, sustenta o pedido de retirada de uma restrição judicial que impedia Reyes de deixar o país. A Justiça chega a autorizar a viagem, mas uma unidade anticorrupção recorre, e a decisão é revertida. O empresário fica em solo hondurenho, e o 737 não decola para a missão médica. A mesma Aviatsa, agora, volta ao centro de uma apuração criminal, desta vez ligada à rota Haiti–Brasil.

Rede de voos, tráfico humano e a pressão sobre o controle migratório

No Brasil, a PF trata o pouso em Viracopos como possível peça de um esquema de tráfico de pessoas, modalidade de crime em que grupos cobram para inserir migrantes em outros países, muitas vezes com falsas promessas de trabalho. Os investigadores rastreiam quem paga o fretamento do 737-200, quanto cada passageiro desembolsa pela viagem e quais intermediários atuam no Haiti, no Peru e na Bolívia.

O caso expõe uma fronteira sensível da política migratória brasileira. O país mantém portas abertas a haitianos desde o terremoto de 2010, mas endurece o controle sobre redes que usam rotas aéreas e terrestres para exploração laboral. Em Campinas, defensores de migrantes alertam para o risco de criminalizar pessoas em situação de vulnerabilidade, enquanto os verdadeiros operadores financeiros seguem escondidos atrás de empresas de fachada em paraísos fiscais e em contratos opacos de fretamento.

Em nota, a Aviatsa afirma que “passou a ser compelida a decolar com os passageiros, o que não foi acatado, pois entende que estariam vários direitos das pessoas sendo violados, com o que não concorda”. A companhia diz ainda que “reconhece a competência do Estado brasileiro para realizar controle migratório e fiscalização administrativa” e que, se houvesse irregularidade, “medidas administrativas poderiam ser adotadas contra a companhia aérea”. No trecho mais duro, acusa a PF de adotar “uma atitude intransigente […] em relação aos nacionais haitianos que chegam no Brasil pela via aérea, que é a mais controlada e segura”, sem mencionar que outros voos do Haiti para Viracopos operam há anos sem incidentes.

Autoridades brasileiras evitam, por enquanto, falar em sanções imediatas à Aviatsa. Especialistas lembram, porém, que empresas flagradas em esquemas de tráfico humano podem sofrer desde multas milionárias até proibição de pousar no país, além de bloqueio de ativos e pedidos de cooperação internacional. A responsabilidade se estende a quem organiza o fretamento, aos despachantes que liberam o plano de voo e às autoridades migratórias que deixam passar documentos evidentemente falhos.

Cooperação internacional e o próximo capítulo da rota Haiti–Brasil

A PF aciona desde já órgãos de Honduras, Peru, Bolívia, Haiti e Estados Unidos para reconstruir a trilha de dinheiro e de decisões que leva o antigo 737-200 a Campinas. A experiência americana com as investigações sobre Juan Orlando Hernández e seus operadores, entre eles Reyes, pode acelerar quebras de sigilo, cruzamento de matrículas de aeronaves e identificação de empresas de fachada.

No curto prazo, o governo brasileiro deve revisar procedimentos para voos fretados de países com forte pressão migratória, como o Haiti. A Agência Nacional de Aviação Civil e a PF discutem exigir listas de passageiros mais detalhadas, checagem prévia de vistos e compartilhamento de dados em tempo real com autoridades estrangeiras. A tendência é que o caso reforçe o debate sobre como proteger migrantes sem abrir espaço para redes criminosas que transformam aviões velhos em corredores discretos de exploração humana.

Os haitianos que chegam a Viracopos na manhã de 12 de março se tornam, em poucas horas, personagens de uma trama que atravessa uma década de corrupção em Honduras e acordos políticos em Washington. O desenlace ainda depende de depoimentos, laudos periciais e cooperação judicial fora do país. Enquanto o inquérito avança, a pergunta que se impõe é se o episódio em Campinas será um ponto de inflexão no combate ao tráfico humano por via aérea ou apenas mais um pouso incômodo na rotina de uma fronteira cada vez mais disputada.

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