PF faz buscas na casa de diretores da Rioprevidência por fraudes
A Polícia Federal cumpre na manhã desta sexta-feira (23) mandados de busca e apreensão contra diretores da Rioprevidência, no Rio, em nova fase da investigação sobre o banco Master. A operação mira suspeitas de fraude na gestão de bilhões de reais da previdência dos servidores estaduais. As ordens judiciais atingem casas e gabinetes de dirigentes da autarquia responsável pelas aposentadorias do funcionalismo fluminense.
Alvo é gestão de recursos bilionários da previdência
Os agentes saem às ruas para recolher documentos, computadores e celulares em endereços residenciais e profissionais ligados à cúpula da Rioprevidência. O foco são contratos e decisões que envolveram o banco Master, instituição que, segundo as investigações, chegou a concentrar a gestão de parte relevante do caixa previdenciário do estado, estimado em alguns bilhões de reais ao longo dos últimos anos.
As diligências ocorrem em bairros de classe média e alta do Rio, onde moram diretores e ex-diretores da autarquia. Em alguns endereços, servidores são orientados a permanecer afastados das salas enquanto os policiais catalogam pastas, pen drives e relatórios internos. O clima é de tensão entre funcionários, preocupados com o impacto da operação sobre o futuro das aposentadorias.
Suspeitas de fraudes e falhas de governança
A nova fase da operação busca esclarecer se houve favorecimento indevido ao banco Master, cobrança de comissões ilegais e investimentos considerados de alto risco com dinheiro que deveria estar protegido para pagar benefícios. Investigadores apuram ainda se decisões estratégicas foram tomadas sem a devida análise técnica e sem registro transparente em atas de colegiados, prática que fere normas básicas de governança de fundos públicos.
Integrantes da força-tarefa afirmam, em caráter reservado, que há indícios de “trato privilegiado” entre dirigentes da Rioprevidência e representantes do banco. Esse elo se daria por meio de encontros fora da agenda oficial e de operações que transferiram, em pouco tempo, valores de centenas de milhões de reais para aplicações sob gestão do Master. O objetivo, agora, é cruzar e-mails, mensagens e documentos internos para reconstruir a cadeia de decisões.
Auditorias preliminares apontam operações feitas com prazos longos e pouca liquidez, o que engessa o caixa e pode comprometer o pagamento regular de aposentadorias e pensões. Especialistas em previdência pública ouvidos pela reportagem avaliam que o caso expõe uma vulnerabilidade recorrente: fundos bilionários administrados por estruturas pequenas, com baixa transparência e forte influência política.
Servidores cobram transparência sobre o dinheiro futuro
A investigação atinge diretamente cerca de 460 mil servidores ativos, inativos e pensionistas que dependem do Rioprevidência para receber benefícios em dia. O orçamento anual ligado ao sistema de previdência estadual passa de dezenas de bilhões de reais, somando repasses do Tesouro, contribuições mensais dos funcionários e rendimentos das aplicações financeiras.
Representantes de entidades de classe pressionam por explicações rápidas. “O servidor já convive com atraso de salário, corte de direitos e incerteza permanente. A suspeita de que a previdência virou balcão de negócio é inaceitável”, afirma um dirigente de associação de servidores, sob condição de anonimato para evitar retaliações. Segundo ele, a cobrança é por acesso a relatórios detalhados de investimentos, taxas pagas e prazos de cada operação.
Economistas que acompanham a crise fiscal do Rio lembram que rombos previdenciários podem se arrastar por décadas. Em 2016, o estado já enfrentava déficit anual superior a R$ 12 bilhões na previdência, o que forçou aumento de alíquotas e corte de benefícios. Investimentos mal feitos, mesmo que representem 5% do patrimônio, podem ampliar esse buraco e exigir novas medidas duras, como aumento de contribuição ou adiamento de aposentadorias.
Pressão por mudanças na gestão e na fiscalização
A operação da PF reacende o debate sobre o modelo de gestão da Rioprevidência e de fundos similares em outros estados. Conselhos formados por representantes do governo e de servidores muitas vezes funcionam apenas no papel, se limitando a referendar decisões já tomadas pela diretoria. A ausência de prestação de contas compreensível para o público abre espaço para operações complexas, com riscos pouco claros.
Integrantes de órgãos de controle argumentam que o caso pode levar a uma revisão das regras de investimento, com limites mais rígidos para concentração de recursos em um único banco ou produto financeiro. “Não se trata de proibir aplicação em instituição A ou B, mas de garantir que nenhum gestor possa colocar bilhões de reais num só cesto sem transparência e sem análise independente”, diz um auditor federal. Ele defende divulgação periódica, em linguagem acessível, dos detalhes da carteira de investimentos.
No campo político, a investigação aumenta a pressão sobre o governo estadual, que tenta se equilibrar entre o ajuste fiscal e o compromisso de preservar direitos adquiridos. Qualquer sinal de risco à capacidade de pagamento das aposentadorias vira munição para oposição na Assembleia Legislativa e fonte de instabilidade em ano de negociações salariais.
Próximos passos da investigação e incertezas
Os materiais apreendidos nesta sexta passam agora por perícia e análise detalhada. A expectativa é que, nas próximas semanas, a PF conclua a etapa de coleta de provas digitais e apresente um relatório parcial ao Ministério Público Federal, que pode oferecer denúncia criminal, pedir afastamento de dirigentes e sugerir bloqueio de bens para ressarcir eventuais prejuízos ao erário.
Especialistas em direito administrativo lembram que, além da esfera penal, diretores podem responder por improbidade, o que abre caminho para perda de cargo, multa e proibição de exercer função pública por até oito anos. No plano administrativo, o governo tende a anunciar reforço na governança do Rioprevidência, com mudanças em conselhos, revisão de contratos e eventual substituição de nomes ligados à antiga gestão.
Servidores e futuros aposentados acompanham o avanço da operação com expectativa e apreensão. A investigação promete expor, nos próximos meses, o que aconteceu com o dinheiro guardado para financiar o futuro de milhares de famílias fluminenses. Resta saber se as mudanças que vierem depois serão suficientes para blindar a previdência estadual de novos ciclos de improviso, pressão política e apetite do mercado financeiro sobre recursos públicos bilionários.
