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PF faz 2ª fase da Emagrecimento Seguro contra canetas ilegais

A Polícia Federal deflagra nesta terça-feira (7) a segunda fase da Operação Emagrecimento Seguro contra o contrabando de canetas emagrecedoras e remédios para diabetes. A nova etapa cumpre mandado de busca em Campo Grande e mobiliza equipes em outros 11 estados.

Campo Grande vira alvo em rede nacional de contrabando

Logo nas primeiras horas da manhã, equipes da PF entram em um prédio comercial na Avenida Afonso Pena, quase esquina com a Rua Professor Luiz Alexandre de Oliveira, uma das áreas mais movimentadas de Campo Grande. A Justiça Federal autoriza o mandado de busca e apreensão para apurar o uso de salas comerciais em um esquema de venda ilegal de medicamentos de alto valor, hoje disputados por quem busca emagrecimento rápido.

O prédio abriga clínicas e escritórios, o que reforça a suspeita de que parte do comércio clandestino se infiltra em ambientes que deveriam oferecer segurança ao paciente. Os policiais deixam o local por volta de 7h10, levando documentos e equipamentos eletrônicos que podem revelar o caminho das canetas e frascos comprados no exterior e revendidos sem controle no Brasil.

A ação em Campo Grande é uma peça de uma operação com capilaridade nacional. Além de Mato Grosso do Sul, a PF cumpre medidas em outros 11 estados: Acre, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Norte, Roraima, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe. O objetivo é estrangular uma cadeia que começa na fronteira com o Paraguai e se espalha por consultórios, salões de beleza, academias e revendas informais nas grandes cidades.

Medicamentos de moda, riscos reais

Os investigadores miram produtos usados para controlar diabetes e para emagrecimento rápido, como as canetas aplicadas por injeção subcutânea. Parte desses medicamentos depende de prescrição médica e acompanhamento contínuo. Outro trecho nem sequer tem registro na Anvisa, o órgão que regula remédios no país. Quando entram no Brasil por rotas clandestinas, esses itens escapam de qualquer verificação de qualidade.

O apelo do corpo magro e da perda de peso acelerada transforma Campo Grande em polo desse tipo de contrabando. A proximidade com a fronteira paraguaia reduz custos e facilita o acesso a produtos vendidos livremente em farmácias e distribuidores instalados do outro lado da linha internacional. Comerciantes atravessam a fronteira, compram caixas e voltam carregando estoques que serão fatiados em doses, ampola por ampola, caneta por caneta.

Na primeira fase da Emagrecimento Seguro, deflagrada em 3 de fevereiro, equipes da PF já haviam cumprido mandados em duas residências da Capital. Em um dos endereços, os agentes apreendem o celular de uma mulher investigada e prendem o marido dela em flagrante por posse irregular de arma de fogo. O caso expõe como o contrabando de remédios se mistura com outros crimes, da sonegação aos delitos previstos no Estatuto do Desarmamento.

Os alvos agora são suspeitos de participar de uma engrenagem que movimenta milhares de reais por mês à margem do fisco e dos órgãos sanitários. A operação é enquadrada como combate a crimes fazendários, porque envolve fraude tributária e importação irregular, mas a PF também aciona a legislação que trata de saúde pública e comércio de medicamentos. A combinação de normas permite pedir bloqueio de bens, quebras de sigilo e futuras denúncias por organização criminosa.

Saúde pública, economia informal e próximos passos

Especialistas em políticas de saúde ouvidos pela reportagem apontam que o impacto mais imediato recai sobre quem compra essas canetas sem orientação. Doses erradas podem provocar hipoglicemia grave, alterações cardíacas e outros efeitos colaterais que levam pacientes ao pronto-socorro. “O remédio certo, na dose errada e no paciente errado, vira veneno”, resume um médico endocrinologista que acompanha casos de uso irregular desses fármacos.

O avanço do contrabando também pressiona o sistema oficial. Quando o uso dá errado, o atendimento recai sobre o SUS, que arca com internações e exames de alta complexidade. Na outra ponta, a concorrência desleal afeta farmácias regulares e laboratórios que seguem as exigências de produção, logística e tributação. Produtos sem nota fiscal, vendidos em redes sociais e grupos de mensagens, chegam a custar até 40% menos que a versão legalizada, segundo estimativas do setor.

A segunda fase da Emagrecimento Seguro busca mapear com mais precisão o caminho do dinheiro. A PF tenta identificar quem financia as compras no Paraguai, quem controla os estoques e como funciona a distribuição para revendedores de bairro, influenciadores digitais e intermediários que se apresentam como “consultores” de emagrecimento. O material apreendido em Campo Grande e nos outros 11 estados deve alimentar relatórios nas próximas semanas, com possibilidade de novas fases.

Os investigadores avaliam que a pressão sobre as rotas de entrada pode empurrar os grupos criminosos para meios ainda mais discretos, como remessas fracionadas por encomenda postal. O desafio para as autoridades será manter o fôlego da fiscalização, enquanto a demanda por soluções rápidas de perda de peso continua inflada por redes sociais e promessas de resultados milagrosos. A resposta do poder público agora definirá se o mercado ilegal recua ou apenas muda de rosto.

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