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PF cumpre 42 mandados contra desvio de emendas em cinco estados

A Polícia Federal cumpre, nesta quarta-feira (25/2), 42 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em quatro estados. A Operação Vassalos investiga uma organização suspeita de desviar recursos públicos de emendas parlamentares por meio de fraudes em licitações.

Organização mira verbas que deveriam chegar à ponta

As ordens judiciais, expedidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), são executadas em endereços de Pernambuco, Bahia, São Paulo, Goiás e do DF. Os alvos integram, segundo a PF, um grupo formado por agentes públicos e empresários que atua no desvio de dinheiro destinado a emendas parlamentares, recurso que, em tese, financia obras locais, compra de equipamentos e serviços básicos.

Os investigadores apontam que o esquema começa antes mesmo da assinatura dos contratos. Licitações são montadas para favorecer empresas ligadas ao grupo, que entra na disputa já sabendo o resultado. O mecanismo frustra a concorrência real, afasta empresas idôneas e abre caminho para propostas combinadas, com preços inflados e baixa entrega de serviços.

Como funciona o desvio das emendas

A apuração indica que a organização atua em cadeia. Primeiro, identifica emendas com alto potencial de gasto em áreas como saúde, educação ou infraestrutura local. Em seguida, influencia a formulação de editais e critérios de seleção, de modo a direcionar a contratação para empresas de fachada ou controladas informalmente pelo grupo. “O objetivo é esvaziar a disputa e garantir que o dinheiro circule dentro do próprio esquema”, resume um investigador ouvido sob reserva.

Depois da assinatura do contrato, parte do valor empenhado retorna ao grupo em forma de propina, pagamentos disfarçados por serviços fictícios ou repasses por meio de laranjas. Outra fatia é usada para lavar o dinheiro, com a compra de imóveis, veículos de alto padrão e participação em negócios formais. A PF afirma que há indícios de crimes de peculato, corrupção, lavagem de dinheiro, fraude em licitações e organização criminosa.

As buscas desta quarta-feira miram documentos físicos, computadores, celulares e registros contábeis capazes de detalhar o fluxo do dinheiro. Em fases anteriores da investigação, policiais já apreenderam bens de luxo, joias e valores em espécie ligados ao grupo. O material agora recolhido deve alimentar cruzamentos com dados bancários e fiscais e reforçar o pedido de bloqueio de patrimônio.

Impacto direto sobre serviços e confiança pública

O desvio de emendas tira dinheiro de serviços que o cidadão sente no cotidiano. Cada contrato fraudado pode significar um posto de saúde sem equipamento, uma escola sem reforma ou uma rua sem drenagem. Em municípios pequenos, onde o orçamento é mais apertado, a perda de alguns milhões de reais inviabiliza projetos inteiros e aprofunda desigualdades regionais.

O modelo de emendas parlamentares se torna, nos últimos anos, um dos principais canais de transferência de verbas federais para estados e municípios. Em 2025, o volume de recursos reservados a emendas individuais, de bancada e de relator supera dezenas de bilhões de reais. Nesse cenário, cada operação que revela manipulação de licitações e contratos reforça a percepção de que parte relevante desse dinheiro não chega ao destino anunciado nos discursos.

Especialistas em contas públicas ouvidos pela reportagem apontam que a Operação Vassalos se insere em uma série de ações que pressionam por maior transparência no sistema de emendas. “Quando a investigação alcança agentes públicos e privados em diferentes estados, fica evidente que o problema não é localizado. Trata-se de um modelo permissivo, que facilita a captura do orçamento por grupos organizados”, avalia um analista ligado a um órgão de controle.

Reação política e disputa por narrativas

A deflagração de uma operação em cinco unidades da Federação, com ordens assinadas pelo STF, eleva a temperatura em Brasília. Parlamentares acompanham de perto a movimentação, atentos a eventuais citações e aos reflexos sobre o debate em torno da reforma do sistema de emendas. Aliados do governo defendem regras mais rígidas de transparência, com detalhamento em tempo real dos contratos financiados por emendas e fiscalização automática dos pagamentos.

Entre congressistas, cresce o temor de que novas fases da investigação atinjam gabinetes e estruturas políticas locais. A PF não divulga, por enquanto, o número de agentes públicos sob apuração nem os valores totais suspeitos de desvio. A existência de mandados autorizados pelo STF, porém, indica participação de autoridades com foro privilegiado, ainda que seus nomes não sejam revelados nesta etapa.

No bastidor, assessores técnicos do Legislativo admitem que o modelo atual de indicação de emendas, associado a baixa capacidade de fiscalização em milhares de contratos, cria um terreno fértil para arranjos criminosos. “Quando o parlamentar controla o destino do recurso, mas a execução é pulverizada em centenas de cidades, a chance de captura por grupos regionais aumenta muito”, explica um servidor experiente da área orçamentária.

Próximos passos da investigação

Os investigadores trabalham agora na análise do material recolhido nos 42 endereços. O próximo movimento deve ser o pedido de bloqueio judicial de contas e bens em nome dos principais alvos, para evitar transferência de patrimônio durante a apuração. Prisões preventivas e novas quebras de sigilo bancário e fiscal também estão no radar, a depender da robustez das provas obtidas nas buscas.

O avanço da Operação Vassalos tende a alimentar o debate sobre mudanças no sistema de emendas, inclusive com propostas de limitar a forma de indicação e de concentrar a execução em projetos estruturantes. Enquanto a investigação corre sob sigilo, permanece uma pergunta incômoda: quantas obras inacabadas, serviços precários e filas em hospitais carregam o peso de contratos inflados por esquemas que a PF tenta desbaratar agora?

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