Petrobras encomenda 48 navios e anuncia 1ª biorrefinaria do país
A Petrobras anuncia nesta terça-feira (20), no Estaleiro Rio Grande (RS), a contratação ou fase final de contratação de 48 embarcações de apoio marítimo. Ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente da estatal, Magda Chambriard, também promete iniciar em 2026 a transformação da Refinaria Riograndense na primeira biorrefinaria do Brasil.
Navios para “empurrar o PIB” e ressuscitar a indústria naval
Magda Chambriard fala para um galpão cheio de operários, executivos e autoridades locais. Ao microfone, ela resume a cobrança que diz ter recebido no início da gestão. “Lula me pediu para ajudar a empurrar o PIB do país; nós estamos entregando”, afirma, sob aplausos. A fala sintetiza o recado político da cerimônia: a Petrobras volta a usar seu peso para puxar encomendas, emprego e renda, em um setor que passou anos à míngua.
A contratação das 48 embarcações de apoio marítimo abastece diretamente a carteira de estaleiros brasileiros e de fornecedores de peças, aço, serviços e tecnologia. O primeiro navio deve ser entregue até julho de 2026, um cronograma considerado agressivo por engenheiros do setor, mas visto pelo governo como sinal de urgência econômica. Cada casco em construção significa jornadas extras de soldadores, eletricistas navais, pintores industriais e técnicos de projeto, numa cadeia que se estende para além do porto de Rio Grande.
Magda liga a decisão à virada recente na produção de petróleo, especialmente no pré-sal. “Agora, temos dois campos produzindo 1 milhão de barris por dia, Tupi e Búzios. Esses trabalhos dão o direcionamento para trazer novas encomendas de navios e renovar a frota”, diz. O petróleo fecha 2025, pela segunda vez, como principal produto de exportação do Brasil, condição que ajuda a explicar por que a estatal volta a se comprometer com contratos de longo prazo na logística offshore.
Lula, que desde a campanha fala em “colocar de pé” a indústria naval, usa o palco do estaleiro para reforçar o discurso de reindustrialização. O local não é escolhido ao acaso. O Rio Grande do Sul viu seu parque naval encolher na última década, com estaleiros ociosos e demissões em massa após o fim de grandes encomendas ligadas ao pré-sal. Ao reabrir a carteira de pedidos, a Petrobras tenta inverter o ciclo e devolver previsibilidade para empresas que, sem contratos firmes e financiamento adequado, vinham operando muito abaixo da capacidade.
Emprego imediato, pré-sal em alta e salto para combustíveis limpos
Os novos contratos de apoio marítimo se conectam diretamente à rotina de plataformas e navios-sonda que operam em alto-mar. Essas embarcações transportam equipamentos, pessoal, alimentos, combustível e insumos entre a costa e as unidades de produção. A expansão da frota indica que a estatal trabalha com cenário de manutenção ou ampliação da produção em níveis elevados, em linha com os números de Tupi e Búzios, hoje entre as maiores áreas produtoras do mundo.
Na prática, a encomenda de 48 navios abre espaço para milhares de empregos diretos e indiretos. Sindicatos ouvidos no setor projetam vagas em estaleiros, empresas de engenharia, cadeia metalmecânica, logística terrestre e treinamento profissional. A arrecadação de impostos municipais e estaduais também tende a subir, puxada por serviços contratados, compra de insumos e salários circulando no comércio local. Para um estado ainda em recuperação após a pandemia e crises fiscais sucessivas, qualquer calendário firme de entregas entre 2026 e 2028 funciona como bússola econômica.
No mesmo palco em que fala de petróleo e navios, Magda Chambriard anuncia uma guinada simbólica para o Rio Grande do Sul. “Teremos, no segundo semestre de 2026, o início da transformação da Refinaria Riograndense na primeira biorrefinaria do país”, afirma. O plano é adaptar a planta, hoje dedicada ao refino de petróleo fóssil, para produzir combustíveis de menor intensidade de carbono, usando matérias-primas de origem renovável. A mudança coloca a região na rota de uma nova fronteira industrial, que conecta agricultura, pesquisa e energia.
A transformação da refinaria em biorrefinaria interessa diretamente a produtores rurais, cooperativas, fornecedores de óleos vegetais e empresas de biotecnologia. Também abre espaço para parcerias com universidades e centros de pesquisa em desenvolvimento de rotas de combustível sustentável de aviação e diesel renovável. Em um país que ainda tem na queima de combustíveis fósseis uma fatia relevante das emissões de gases de efeito estufa, a aposta em combustíveis mais limpos funciona como vitrine de transição energética, sem abandonar o peso econômico do petróleo.
A estratégia, porém, redistribui ganhos e riscos. A indústria naval volta a ganhar contratos e previsibilidade. Trabalhadores especializados em construção de navios, que migraram para outros setores ou para fora do país, começam a enxergar perspectiva de retorno. Em contrapartida, estaleiros estrangeiros, que vinham se beneficiando de licitações com menor exigência de conteúdo local, podem perder espaço para concorrentes brasileiros se a Petrobras insistir em regras que priorizam a cadeia nacional. A disputa por prazos, preços e qualidade tende a se intensificar.
Agenda de crescimento, gargalos e a disputa pelo futuro energético
O movimento anunciado em Rio Grande se insere em uma estratégia mais ampla do governo Lula para usar estatais como motores de crescimento, depois de anos de foco em desalavancagem e desinvestimento. Ao colocar a meta de “empurrar o PIB” no centro do discurso, Magda Chambriard deixa claro que as escolhas logísticas e industriais da Petrobras dialogam com objetivos macroeconômicos, como geração de empregos formais, aumento das exportações e fortalecimento das contas externas.
Os gargalos, no entanto, continuam presentes. Estaleiros relatam dificuldade para financiar capital de giro e investimentos de modernização, em um ambiente de crédito ainda caro e burocrático. Faltam também profissionais qualificados em algumas funções específicas, após anos de retração. O sucesso da encomenda dos 48 navios depende da capacidade de coordenar bancos públicos, BNDES, governos estaduais e fornecedores, de forma a evitar atrasos, disputas judiciais e novas interrupções de ciclo.
No caso da Refinaria Riograndense, a transição para biorrefinaria exige decisões regulatórias, definição de marcos para combustíveis sustentáveis e clareza sobre políticas de incentivo. Investidores querem saber qual será o volume de produção previsto, qual a origem da biomassa, como ficará a logística de escoamento e se haverá metas obrigatórias de mistura para o mercado interno ou foco em exportação de produtos premium. Sem essas respostas, o risco é o projeto ficar restrito a um anúncio simbólico, sem escala compatível com o discurso de vanguarda.
A cerimônia em Rio Grande, porém, fornece sinais concretos de que a Petrobras aceita voltar ao papel de indutora de investimento pesado em infraestrutura, tecnologia e empregos industriais. A combinação de pré-sal em alta, encomendas navais e aposta em biorrefino cria uma narrativa de continuidade entre o presente fóssil e um futuro parcialmente renovável. O tamanho efetivo desse salto ainda depende de decisões que extrapolam o pátio do estaleiro.
Os próximos meses devem mostrar se a promessa do primeiro navio até julho de 2026 e o cronograma da biorrefinaria se mantêm diante dos desafios de engenharia, financiamento e regulação. Entre operários que voltam a enxergar carteira assinada e comunidades que temem ficar de fora da nova cadeia verde, a disputa pelo desenho desse futuro está aberta. Resta saber se a Petrobras e o governo conseguirão transformar o gesto de hoje em política de Estado de longo prazo, capaz de sobreviver a ciclos eleitorais e preços voláteis do petróleo.
