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Peru vai às urnas sob economia em ‘modo zumbi’ e crise política crônica

Os peruanos vão às urnas neste domingo (12) para escolher presidente e Congresso em meio a uma economia em “modo zumbi” e a uma crise política sem fim. A sucessão de oito presidentes desde 2018 mina a confiança, freia investimentos e mantém pobreza e informalidade em alta, apesar de a macroeconomia seguir estável. O resultado do voto pode definir se o país rompe o ciclo de instabilidade ou aprofunda o impasse.

País vota com cansaço político e economia travada

O Peru chega às eleições gerais deste domingo com um contraste difícil de explicar ao eleitor comum. As contas públicas seguem sólidas, a moeda, o sol, continua entre as mais estáveis da América Latina e o Banco Central goza de prestígio e autonomia. Ao mesmo tempo, a renda formal não volta ao nível de 2019 e a pobreza atinge 27,6% da população, bem acima dos 20% registrados antes da pandemia.

Nas pesquisas mais recentes, divulgadas pelo jornal El Comercio, dois nomes aparecem à frente na disputa presidencial: Rafael López Aliaga, empresário conservador e ex-prefeito de Lima, e Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, condenado por violações de direitos humanos. Ambos simbolizam, de formas diferentes, a busca de parte do eleitorado por ordem em meio ao caos. O ambiente, porém, é de profunda desconfiança em relação à política tradicional, marcada por escândalos de corrupção e impeachments sucessivos.

Desde a renúncia de Pedro Pablo Kuczynski, em 2018, o país entra e sai de crises quase sem pausa. Presidentes caem, o Congresso se renova, mas a sensação, nas ruas de Lima a Cusco, é de paralisia. “Esta questão de que a economia e a política do Peru andam por cordas separadas é uma meia verdade. Existe um ponto a partir do qual a política afeta a economia”, afirma o economista Armando Mendoza, do Centro Peruano de Estudos Sociais, à BBC News Mundo.

Para Mendoza, o país opera há anos com “uma economia que caminha em piloto automático, em modo zumbi”. O diagnóstico resume uma década em que o Peru deixa de aproveitar completamente um cenário internacional favorável, com preços elevados de ouro e cobre, duas de suas principais exportações, e um Banco Central respeitado, enquanto a crise política bloqueia decisões de longo prazo.

Crises sucessivas corroem crescimento e alimentam frustração

Nas duas primeiras décadas deste século, o Produto Interno Bruto peruano cresce, em média, cerca de 4% ao ano e, em alguns momentos, supera 10% de alta interanual. O desempenho transforma o país em referência de estabilidade macroeconômica na região, mesmo com turbulência política constante. Esse ciclo se esgota a partir de 2018. Se desconsiderados os anos da covid-19, o crescimento médio desde 2022 gira em torno de 2,3% a 3% ao ano, bem abaixo do potencial estimado por economistas.

“A economia peruana continua crescendo, mas existe um custo de oportunidades perdidas”, diz Mendoza. “Se tivéssemos políticas sustentadas, não estaríamos crescendo em 3%. Provavelmente, estaríamos crescendo em níveis de 5 ou 6%.” Na mesma linha, Diego Macera, diretor do Instituto Peruano de Economia e integrante da diretoria do Banco Central, calcula que o país poderia ter avançado “mais de 4,5%” ao ano em um ambiente político “minimamente previsível e competente”.

O exemplo mais claro do preço da instabilidade vem em 2023, após a destituição e prisão de Pedro Castillo por tentativa de golpe de Estado. A repressão a protestos em várias regiões paralisa estradas, assusta investidores e interrompe atividades produtivas. O PIB recua 0,55% naquele ano, a primeira retração fora do período da pandemia. “Foi um ano em que ficou muito claro que o desajuste político afetou o andamento da economia”, resume Mendoza.

Por trás dos números, histórias de frustração se acumulam. Projetos de mineração de grande porte, que exigem décadas de planejamento e investimentos bilionários, atrasam ou saem do papel com dificuldade. Ministros da Economia duram, em média, sete ou oito meses no cargo, segundo Macera. “Com esta volatilidade, é muito complicado ter políticas de Estado razoavelmente consistentes e fazer com que o setor privado saiba com clareza quem são seus interlocutores dentro dos ministérios”, afirma.

O atual presidente, José María Balcázar, chega ao Palácio após ser eleito pelo Congresso em fevereiro, em substituição a José Jerí, derrubado com pouco mais de quatro meses de mandato. A sequência de chefes de Estado interinos e enfraquecidos alimenta a sensação de que ninguém consegue, de fato, governar. Para parte da população, a política se resume a disputas de bastidores entre partidos impopulares e interesses de grupos econômicos e regionais.

Corrupção, crime e economia informal ampliam o custo social

A instabilidade crônica se mistura a problemas antigos, que ganham novas dimensões. Pesquisas de opinião apontam a corrupção como um dos principais temores dos eleitores. Quase todos os últimos presidentes enfrentam denúncias ou processos, e parte do Estado, segundo especialistas, é capturada por redes criminosas. “Segmentos significativos do Estado foram capturados e depredados pelas máfias”, lamenta Mendoza. “Já não se trata apenas da corrupção tradicional, mas da criminalidade vinculada ao crime comum.”

Os efeitos aparecem também nas fronteiras da economia formal. A mineração ilegal de ouro avança sobre áreas rurais e florestas e alimenta um mercado paralelo bilionário. Macera estima que, só no ano passado, as exportações ilegais de ouro somam cerca de US$ 11,5 bilhões, valor próximo ao que toda a agroindústria peruana exporta em 2014. Esse volume de recursos escapa do controle fiscal, financia redes criminosas e distorce a concorrência com empresas que operam dentro da lei.

Ao mesmo tempo, a recuperação do emprego formal patina. Dados oficiais mostram que, em 2024, a renda real de quem tem carteira assinada ainda não volta aos patamares de 2019. A informalidade, já elevada, segue como saída para milhões de peruanos que tentam compensar a perda de poder de compra. Em bairros populares da capital e em cidades médias do interior, pequenos comércios vivem de margens apertadas e pouco crédito, enquanto o sistema financeiro mantém prudência em meio à incerteza política.

No curto prazo, o Banco Central projeta crescimento de cerca de 2,9% para este ano, ritmo que ainda colocaria o Peru entre as economias que mais avançam na região. O cenário, porém, depende de fatores externos difíceis de controlar, como o desfecho da guerra no Oriente Médio, que já pressiona o preço do petróleo e pode empurrar o mundo para uma nova recessão. Em Lima, analistas lembram que até mesmo a solidez das reservas internacionais tem limite diante de choques prolongados.

Eleições testam capacidade de romper ciclo de instabilidade

As urnas deste domingo não definem apenas quem ocupará o Palácio do Governo e o Congresso pelos próximos anos. O pleito abre também uma disputa silenciosa pelo comando do Banco Central, cuja diretoria será renovada ainda em 2026. A instituição, blindada na Constituição, é apontada como um dos pilares da estabilidade macroeconômica peruana. Setores do mercado e da academia defendem a permanência de Julio Velarde, que ocupa a presidência do Banco há duas décadas.

“O Banco tem grande independência nas suas operações, mas a escolha dos membros da diretoria dependerá do novo presidente e do novo Congresso”, lembra Macera. A maneira como o próximo governo lidará com essa transição é vista como sinal importante sobre o compromisso com a responsabilidade fiscal e o controle da inflação. Qualquer indício de interferência política excessiva pode afetar a confiança no sol e na dívida pública, hoje considerados ativos seguros na região.

Além da eleição presidencial e legislativa, o país se prepara para renovar prefeitos e governadores em pleitos locais e regionais. A perspectiva é de mais mudanças em todas as esferas de poder, em um cenário de impaciência com a classe política. Se o novo governo conseguir construir uma base mínima de governabilidade, reduzir o ritmo de trocas de ministros e enfrentar a mineração ilegal e a corrupção, analistas veem espaço para uma retomada mais robusta, com crescimento acima de 4% e redução da pobreza.

Se o carrossel político continuar girando, a economia tende a seguir em piloto automático, sem colapso à vista, mas distante do potencial que poderia financiar serviços públicos melhores e maior coesão social. Os votos deste domingo indicam qual dessas trajetórias o Peru escolhe, mas a resposta final dependerá da capacidade dos futuros governantes de transformar promessas em políticas estáveis, algo que o país não vê há muitos anos.

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