Perdigão denuncia agressão de policial militar na saída de jogo em Curitiba
O ex-jogador Perdigão, campeão mundial pelo Internacional, denuncia ter sido agredido por um policial militar na noite de 18 de janeiro de 2026, em Curitiba. O episódio ocorre na saída do estádio Vila Capanema, após um jogo do Campeonato Paranaense, e desencadeia reação imediata da Polícia Militar e do governo do Paraná.
A abordagem que termina em agressão
Perdigão, 48, deixa o estádio Vila Capanema em clima de pós-jogo tranquilo, depois de acompanhar São Joseense x Operário, pela quarta rodada do Paranaense de 2026. Ele é convidado por amigos para assistir à partida, em um estádio que conhece bem desde os tempos de revelação pelo Paraná Clube.
Na saída, já na área externa, o ex-meia se aproxima de um policial militar para um gesto simples: um cumprimento e um elogio pelo trabalho. Segundo seu relato e de testemunhas, o que começa como cordialidade termina em empurrão e confusão. O empurrão dispara um princípio de tumulto, que rapidamente se transforma em agressão.
O relato de Perdigão é de surpresa e impotência. Ele conta que tenta se afastar, evitar confronto e mostrar que não representa ameaça. Ainda assim, afirma ser atingido repetidas vezes com um cassetete, sem aviso ou explicação. Nas redes sociais, publica fotos que exibem marcas roxas e escoriações pelo corpo.
Em uma nota longa dirigida aos seguidores, o ex-jogador resume o que sente. “Fui covardemente agredido por um membro despreparado da Polícia Militar”, escreve. Ele afirma não ter reagido em nenhum momento: “Não fui violento, não fui rude e não reagi à agressão. Ainda assim, a violência aconteceu de forma totalmente gratuita e injustificável”.
A violência contra uma figura pública e próxima da corporação causa estranhamento extra. Dias antes, Perdigão participa de um amistoso entre uma equipe de veteranos liderada pelo ex-lutador Macaris do Livramento e o Batalhão de Choque da PMPR. Ele mantém relação cordial com policiais, em jogos festivos e ações de aproximação.
Reação da PM, do governo e do futebol paranaense
A repercussão é imediata. Ainda na segunda-feira, a Polícia Militar do Paraná confirma a abertura de procedimento interno para apurar a conduta do policial apontado por Perdigão. Em nota oficial, a corporação informa que afasta o agente das ruas e o transfere para funções administrativas, com encaminhamento para avaliação psicológica.
A Corregedoria assume a investigação e promete apuração “rigorosa”. A PM tenta isolar o episódio e proteger a imagem institucional. Afirma que a conduta relatada “não condiz com o preparo e com o trabalho das forças de segurança do Paraná” e admite a possibilidade de expulsão do policial, caso o abuso seja comprovado.
O governador Ratinho Junior entra no caso e amplia o alcance político do episódio. Em um texto publicado em suas redes sociais, ele lamenta a agressão e diz que determina pessoalmente o afastamento do policial. “Assim que tomamos conhecimento do episódio envolvendo a agressão ao ex-jogador Perdigão, adotamos imediatamente as providências cabíveis”, escreve.
No mesmo comunicado, o governador reforça o discurso de tolerância zero com abusos. “Determinamos o afastamento do policial militar das funções operacionais, com encaminhamento para avaliação, e a Corregedoria da PM já instaurou procedimento para apuração rigorosa dos fatos. A conduta relatada não representa o preparo nem os valores das forças de segurança do Paraná. Não compactuamos com excessos e reforçamos que a polícia existe para proteger e respeitar o cidadão”, afirma.
No futebol, a reação também é rápida. A Federação Paranaense de Futebol divulga nota de solidariedade ao ex-jogador e comentarista. A entidade lembra que Perdigão é presença frequente no programa “De Primeira”, no canal oficial da FPF no YouTube, e que constrói, ao longo dos últimos anos, uma relação de amizade com dirigentes e funcionários. “Futebol e violência não combinam”, escreve a federação, ao prometer acompanhar o caso de perto.
Perdigão, hoje uma figura querida nos bastidores do esporte local, agradece o apoio público. Diz estar bem fisicamente, apesar dos ferimentos, e reforça que já aciona advogados para tomar “todas as medidas cabíveis” contra o agressor. Ele insiste em um ponto: “Violência, especialmente vinda de quem tem o dever de zelar pela nossa segurança, é inadmissível”.
De ídolo em campo a símbolo de um debate sobre violência policial
A trajetória de Perdigão ajuda a explicar a repercussão do caso. Nascido em Curitiba, ele inicia a carreira no Paraná Clube e passa por Athletico, Vasco, Joinville, Santo André e São Caetano. No Internacional vive o auge: em 2006, ergue a taça da Libertadores e do Mundial de Clubes. Em 2008, conquista a Série B pelo Corinthians.
Os números reforçam o peso de seu nome. São 251 partidas como profissional e sete gols marcados, além de passagens pela Seleção Brasileira de base. Em 1997, integra o elenco campeão mundial sub-20, ao lado de Alex, futuro ídolo do Coritiba. Essa biografia aproximada do torcedor comum, somada ao jeito expansivo e bem-humorado, faz do “velho Perdiga” uma figura de confiança pública.
Ao relatar a agressão, ele fala não só como ex-atleta famoso, mas como cidadão que sente a fronteira da segurança se romper. “Reforço que, como cidadão, temos direitos que precisam ser respeitados”, escreve. O tom da mensagem ecoa em torcedores, jornalistas e dirigentes, e alimenta um debate recorrente no país: os limites da ação policial em ambientes de lazer, como estádios de futebol.
O episódio em Curitiba ocorre em um cenário em que forças de segurança são cobradas por mais transparência e controle interno. Jogos de futebol, por reunirem milhares de pessoas e ampliarem o risco de conflito, costumam servir de termômetro da relação entre torcedores, policiais e Estado. Uma agressão considerada gratuita, dirigida a alguém conhecido e sem histórico de confusão, acende um alerta ainda mais forte.
O governo do Paraná tenta marcar posição ao prometer punição exemplar e defender que o caso não representa a regra. Para especialistas em segurança pública, situações assim pressionam por investimentos em treinamento, supervisão de equipes em serviço e mecanismos de responsabilização céleres. A investigação aberta pela PMPR precisa responder a uma pergunta objetiva: o que leva um agente armado a reagir com violência a um simples cumprimento?
Investigação em curso e pressão por respostas
O procedimento interno em andamento na Polícia Militar deve definir o futuro do policial envolvido, hoje afastado das ruas e submetido a avaliação psicológica. A Corregedoria colhe depoimentos, analisa imagens e tenta reconstituir, minuto a minuto, a ação registrada na saída da Vila Capanema naquele domingo à noite.
Perdigão, por sua vez, prepara o caminho jurídico. Ele promete representar formalmente contra o agressor e busca responsabilização tanto criminal quanto administrativa. O cerco formal se soma à pressão pública, turbinada pelas redes sociais e por veículos esportivos e de notícia, que ecoam a expressão usada por ele: “covardemente agredido”.
O governador Ratinho Junior indica que pretende se reunir com o ex-jogador para ouvir detalhes do episódio e reforçar apoio. A reunião, ainda sem data oficializada, tende a manter o caso em evidência enquanto a apuração avança. A Federação Paranaense de Futebol também acompanha os passos da investigação, em diálogo com o comentarista que ajuda a dar rosto e voz aos produtos de mídia da entidade.
O desfecho desse inquérito interno definirá mais do que o destino de um policial na corporação. A forma como o Paraná lida com a agressão a um ex-jogador conhecido servirá de termômetro para a capacidade do Estado de coibir abusos e proteger cidadãos comuns em situações menos visíveis. O caso Perdigão, que começa em um simples cumprimento na saída de um estádio, pode se tornar um marco silencioso na discussão sobre até onde vai a autoridade policial e onde começam, de fato, os direitos de quem apenas volta para casa depois de um jogo de futebol.
