Pentágono rompe cooperação acadêmica com Harvard e amplia choque político
O Departamento de Defesa dos Estados Unidos rompe, nesta 7ª feira (7.fev.2026), todos os laços acadêmicos com a Universidade de Harvard. A decisão, tomada em Washington, encerra projetos conjuntos e expõe o choque entre o governo Donald Trump e uma das instituições mais influentes do ensino superior mundial.
Ruptura inédita entre o Pentágono e a elite acadêmica
A ordem do Pentágono encerra, de uma vez, programas de pesquisa financiados pelo Departamento de Defesa, intercâmbios de docentes e estudantes e consultorias técnicas envolvendo Harvard. O rompimento, confirmado por comunicado oficial divulgado na capital americana, atribui à universidade a promoção de “ideologias incompatíveis com os interesses estratégicos dos Estados Unidos sob esta administração”.
Integrantes do alto escalão do governo Trump veem, há meses, parte do corpo docente de Harvard como foco de críticas abertas à Casa Branca, sobretudo em temas como política externa, direitos civis e mudanças climáticas. A decisão de 7 de fevereiro cristaliza essa desconfiança e leva para o campo institucional um embate que vinha sendo travado, até aqui, em discursos, audiências no Congresso e artigos em revistas acadêmicas.
Fontes do Departamento de Defesa afirmam, sob reserva, que pelo menos uma dezena de acordos é diretamente afetada, incluindo projetos de segurança cibernética, análise de dados estratégicos e desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação militar. Em alguns casos, os contratos previam aportes plurianuais, com valores estimados em dezenas de milhões de dólares até 2030.
Na visão de estrategistas próximos ao presidente, a manutenção desses vínculos daria espaço para que “vozes hostis” ao governo influenciassem a formulação de políticas de defesa. “Não faz sentido financiar instituições que trabalham ativamente contra a agenda eleita nas urnas”, afirma um assessor republicano ligado à área de segurança nacional.
Impacto imediato em pesquisas e na liberdade acadêmica
Dentro de Harvard, o anúncio é recebido como ataque direto à autonomia universitária. Professores que atuam em projetos com o governo americano descrevem o rompimento como um “ponto de inflexão” na relação entre Washington e a comunidade científica. “Quando a lealdade política passa a ser critério para manter parcerias de pesquisa, a mensagem a todos é clara: pensamento crítico tem um custo”, diz um pesquisador da escola de governo, sob condição de anonimato para evitar retaliações.
A medida atinge laboratórios que dependem de recursos federais para sustentar bolsas de pós-graduação, estágios de verão e grupos de estudo aplicados à política de defesa. Alunos estrangeiros, especialmente de programas de segurança internacional, temem que o fim da cooperação reduza o acesso a dados, bases militares e autoridades que costumam participar de seminários e cursos de curta duração. Em alguns departamentos, orientadores calculam revisar cronogramas de pesquisa já em 2026 para compensar o corte.
Organizações de defesa da liberdade acadêmica veem na decisão um precedente perigoso. Entidades que acompanham a relação entre universidades e governo lembram que, desde a Guerra Fria, a colaboração entre agências de defesa e centros de pesquisa permite o desenvolvimento de tecnologias que depois ganham uso civil, como a própria internet, o GPS e sistemas de criptografia. Ao politizar esse vínculo, avaliam analistas, o governo envia um sinal de incerteza justamente em áreas que exigem planejamento de longo prazo.
Em Washington, parlamentares da oposição já preparam audiências para questionar os critérios adotados pelo Pentágono. Democratas querem documentos que comprovem de que forma supostas “ideologias incompatíveis” teriam comprometido projetos em andamento. Assessores legislativos falam em risco de “caça às bruxas” no ambiente científico, com universidades pressionadas a moderar críticas à Casa Branca para não perder verbas.
Pressão sobre outras universidades e próxima rodada do conflito
Reitores e dirigentes de outras instituições de ponta acompanham o caso com atenção. A leitura predominante é que Harvard se torna, agora, um teste para medir até onde o governo está disposto a ir no confronto com a academia. Escolas que mantêm programas similares com o Departamento de Defesa avaliam, a portas fechadas, se devem reforçar publicamente o apoio à universidade, arriscando-se a represálias, ou adotar tom mais discreto até que o ambiente político se defina.
No médio prazo, a ruptura tende a reconfigurar o mapa da pesquisa em defesa nos Estados Unidos. Projetos que hoje recorrem ao prestígio internacional de Harvard para atrair talentos podem migrar para outras universidades ou buscar financiamento privado, com impacto direto na independência das agendas de estudo. A mudança pode favorecer grupos alinhados ao governo, mas também reduzir a diversidade de visões que historicamente alimenta o debate estratégico em Washington.
Especialistas em políticas públicas preveem ainda um efeito simbólico forte no exterior. Universidades de outros países, que veem Harvard como parceira-chave em redes globais de pesquisa, podem interpretar o gesto como sinal de maior imprevisibilidade do governo americano. Em áreas sensíveis, como regulação de tecnologia, segurança de dados e inteligência artificial, isso pode incentivar novos arranjos de cooperação sem a presença direta de Washington.
A crise abre espaço para uma disputa narrativa. De um lado, o governo tenta enquadrar a medida como defesa legítima de seus interesses estratégicos. De outro, acadêmicos e organizações civis alertam para um processo de erosão gradual da liberdade de cátedra e da autonomia institucional. Nos próximos meses, investigações no Congresso, reações de ex-alunos influentes e possíveis ações judiciais devem indicar se o rompimento com Harvard é um caso isolado ou o primeiro capítulo de uma política mais ampla de pressão sobre o ensino superior nos Estados Unidos.
