Pênalti perdido de Depay expõe manobra de Andreas e pressiona FPF
Memphis Depay escorrega, perde pênalti para o Corinthians e reacende o debate sobre limites da malandragem em clássicos. Em 9 de fevereiro de 2026, no Derby pelo Campeonato Paulista, a ação de Andreas Pereira na marca da cal vira caso para o tribunal da Federação Paulista de Futebol (FPF).
Da marca da cal ao tribunal
O lance nasce aos gritos na área palmeirense, depois que o árbitro Raphael Claus aponta a marca da cal. Jogadores dos dois lados cercam a bola, discutem, tentam ganhar alguns segundos enquanto a tensão cresce na Neo Química Arena. No meio do tumulto, Andreas Pereira se posiciona exatamente sobre o ponto do pênalti.
Com a chuteira, ele raspa o gramado e danifica a marca. Quem está no estádio vê apenas mais um empurra-empurra de clássico. As câmeras mostram o detalhe com clareza. Segundos depois, Memphis Depay toma distância, corre para a cobrança e escorrega no momento do chute. A bola não entra, o placar não se altera e o gesto do meio-campista alviverde ganha outro peso.
As regras da International Football Association Board (IFAB), órgão que dita as leis do jogo, classificam o ato de alterar ou esburacar a marca do pênalti como comportamento antidesportivo. A punição prevista é objetiva: cartão amarelo. A infração não interrompe automaticamente o lance nem anula a cobrança, mas coloca o infrator sob risco de expulsão caso já tenha advertência anterior.
Raphael Claus não percebe a manobra em campo. Nem o árbitro assistente ao lado da área nem o quarto árbitro interferem. O VAR, que monitora o jogo em tempo real, tampouco chama para revisão, já que a tecnologia não se ocupa de cartões amarelos, apenas de erros claros em gols, pênaltis, cartões vermelhos diretos e identificação de jogadores.
O jogo segue, Memphis perde a chance e a partida toma outro rumo. Só depois, com a circulação do vídeo nas redes sociais e em programas esportivos, o gesto de Andreas vira centro da discussão. Em poucas horas, a jogada deixa de ser apenas um detalhe do clássico e passa a ser tratada como potencial caso disciplinar.
Limite entre malandragem e trapaça
A FPF, por meio de seu Tribunal de Justiça Desportiva, avalia abrir processo contra o jogador do Palmeiras. A leitura interna é que, embora a regra preveja só cartão amarelo em campo, condutas que afetem diretamente a integridade do jogo podem ser analisadas depois, com base no Código Brasileiro de Justiça Desportiva. Na prática, o tribunal discute se a atitude cabe apenas na conta da malandragem tradicional do futebol ou se avança para um tipo de fraude ao espetáculo.
Memphis Depay deixa o gramado como personagem de um lance que lembra pênaltis históricos perdidos em decisões, do escorregão de John Terry na Champions de 2008 aos tropeços em campos encharcados de estaduais pelo país. A diferença, agora, está na origem do desequilíbrio. O gramado não falha sozinho; um adversário atua para tornar a condição de chute pior.
Especialistas em arbitragem lembram que a lei é clara ao punir o gesto com cartão amarelo, mas silenciosa sobre eventual repetição do lance. Se Claus ou seus auxiliares flagrassem Andreas danificando a marca antes da cobrança, a tendência seria advertir o jogador e mandar seguir. Em casos extremos, árbitros podem ordenar o reparo do gramado e só então autorizar a batida, mas esse tipo de intervenção é raro no futebol profissional.
No ambiente dos clubes, o episódio vira munição retórica. Palmeirenses tratam o gesto como parte do pacote do clássico, algo comparável a pisões discretos na barreira ou tentativas de distrair o cobrador. Corintianos apontam quebra do espírito esportivo e falha da arbitragem em proteger o executante do pênalti. A discussão vai além da rivalidade e alcança a fronteira cada vez mais difusa entre esperteza e trapaça.
O histórico recente do futebol brasileiro ajuda a entender por que o caso ganha tanta repercussão. Situações em que jogadores apagam linhas da grande área, deslocam a bola do local correto ou atrasam cobranças já rendem advertências pontuais. Raramente, porém, chegam ao tribunal com pedido de suspensão. Ao se debruçar sobre a atitude de Andreas, o TJ da FPF sinaliza disposição de criar um precedente mais duro.
Pressão por rigor e o que pode mudar
A análise do tribunal interessa a mais gente do que apenas Andreas e Memphis. Uma eventual denúncia pode levar a gancho de um ou mais jogos no Campeonato Paulista, mesmo que o atleta tenha recebido apenas cartão amarelo na súmula. Esse movimento abriria espaço para punições retroativas em lances semelhantes, captados por câmeras de transmissão ou por imagens de bastidores.
Arbitragens também entram em xeque. A atuação de Claus e de sua equipe é examinada internamente, ainda que o protocolo do VAR não permita intervenção para advertências. Se o tribunal entender que a conduta de Andreas atinge a integridade da partida, a pressão por atualização das diretrizes de vídeo aumenta. A possibilidade de ampliar o escopo de revisão, incluindo manipulações evidentes do campo de jogo, volta à mesa.
Os clubes, por sua vez, precisam se adaptar a um cenário em que cada passo é registrado em alta definição. Qualquer gesto fora da bola, em especial em lances decisivos como um pênalti em clássico, pode virar prova em processo disciplinar. Com contratos, premiações e cotas de televisão em jogo, a linha entre competitividade e risco jurídico fica mais fina a cada temporada.
Memphis, contratado com status de estrela e salário alinhado a patamar europeu, sente o impacto esportivo imediato. Um gol naquele 9 de fevereiro poderia mudar o rumo da partida, a narrativa do Derby e a própria confiança do atacante no início de trajetória pelo Corinthians. Para Andreas, o custo potencial vai além do placar: a imagem de jogador inteligente pode se confundir com a de atleta disposto a ultrapassar a fronteira do regulamento.
O caso agora se desloca dos gramados para as salas do tribunal. Dirigentes, árbitros e jogadores observam de perto. Se a FPF optar por uma punição exemplar, abre-se um novo capítulo no controle disciplinar do futebol paulista. Se o episódio ficar restrito ao cartão amarelo e ao debate público, a mensagem será outra. A pergunta que paira, à espera da decisão, é simples e incômoda: até onde a malandragem segue tolerada antes de se tornar oficial, nas atas do futebol, como trapaça?
