Pedrinho reage a Bap, defende Vasco e põe liga unificada em xeque
O presidente do Vasco, Pedrinho, parte para o confronto público com Luiz Eduardo Baptista, o Bap, e questiona a viabilidade de uma liga unificada do futebol brasileiro. A reação ocorre nesta segunda-feira (6), na sede da CBF, no Rio, após insinuações sobre um empréstimo do clube com a Crefisa e a derrota por 3 a 0 para o Palmeiras.
Embate expõe crise de confiança entre rivais
Pedrinho chega à CBF para mais uma rodada de discussões sobre o futuro da liga de clubes, mas o tom rapidamente muda de institucional para pessoal. Diante de câmeras e gravadores, o presidente do Vasco decide responder, pela primeira vez de forma aberta, às falas de Bap, hoje à frente do Flamengo e uma das vozes mais influentes nas articulações do futebol nacional.
Ele não poupa adjetivos ao lembrar declarações dadas por Bap em 2025, quando o dirigente rubro-negro relaciona, ainda que de maneira indireta, um empréstimo tomado pelo Vasco junto à Crefisa à derrota por 3 a 0 para o Palmeiras. “Recentemente, o presidente do Flamengo, estou falando da pessoa e não da instituição, falou diversas vezes, com sua prepotência e arrogância, num tom que não me agrada. Mas eu esperei e escutei calado para falar em algum momento”, afirma Pedrinho, olhando para as câmeras.
O episódio citado por ele envolve uma operação financeira com uma das empresas mais presentes no futebol brasileiro. A Crefisa, presidida por Leila Pereira, também presidente do Palmeiras, concede o crédito ao Vasco em condições que, segundo Pedrinho, são mais vantajosas que as de mercado. “Quando eu pego um empréstimo com a Crefisa, e o empréstimo é feito porque o CDI era mais baixo e eu pago menos, a preocupação dele não era o empréstimo”, diz. Em seguida, ele acusa Bap de sugerir que o acordo teria ligação direta com o resultado em campo: “De uma forma indireta, ele insinuou que eu pego o empréstimo no dia que eu perco de 3 a 0 para o Palmeiras”.
Ao reabrir um episódio de quase um ano, o dirigente cruzmaltino sinaliza que o ambiente entre dois dos maiores rivais do país está longe de ser apenas de competição esportiva. A crítica deixa claro que, por trás da disputa por títulos, patrocínios e direitos de transmissão, existe uma batalha por narrativa e credibilidade. Em ano de negociações decisivas para o formato do Brasileirão, essa fissura pública entre Vasco e Flamengo ganha peso político.
Honra do elenco e liga unificada entram no centro da disputa
O ponto mais sensível do desabafo de Pedrinho é a leitura de que as insinuações de Bap ultrapassam o campo da estratégia financeira e atingem diretamente a integridade esportiva de quem entra em campo. “Então ele está colocando em dúvida o meu caráter, o caráter do meu treinador e o caráter de um elenco de 30 jogadores”, dispara. A frase mira não só o rival, mas também o impacto interno de acusações desse tipo dentro de um vestiário que ainda tenta se estabilizar após anos de turbulência.
Pedrinho encena, em voz alta, o conflito moral sugerido pelas falas de Bap. “Então eu tenho que chegar para o meu treinador e falar que tenho que perder? O meu treinador tem que ser filho da mãe e falar para os jogadores que são sem caráter que temos que perder porque peguei um empréstimo de uma empresa que vive de empréstimo?”, questiona. Ao colocar o absurdo da hipótese em termos concretos, ele tenta afastar qualquer dúvida sobre a lisura dos profissionais envolvidos no dia a dia do Vasco.
O embate, porém, não se limita ao jogo de honra entre dirigentes. Ao contestar a postura de Bap, um dos líderes do movimento que tenta organizar uma liga nacional de clubes, Pedrinho aproveita para atacar o coração do projeto. “Então como eu posso acreditar que uma liga vai funcionar sob o controle de pessoas que administram um clube?”, pergunta. Em seguida, endurece o diagnóstico: “Os clubes hoje, de forma pessoal, sou muito verdadeiro e não me importo com a consequência dessa minha fala, não têm estrutura para fazer uma liga”.
A frase atinge um ponto nevrálgico do debate atual. A proposta de liga unificada avança aos trancos e barrancos desde 2021, com reuniões, memorandos de entendimento e grupos divididos entre blocos concorrentes. Na prática, a desconfiança entre dirigentes, a disputa por poder e a divisão sobre fatias de receitas de TV seguem travando um acordo definitivo. Ao vocalizar sua descrença em rede nacional, o presidente do Vasco dá voz a uma ala que teme um arranjo comandado por poucos clubes, com concentração de poder e dinheiro em mãos já fortes.
Pressão política aumenta e liga volta ao terreno da incerteza
A reação de Pedrinho chega num momento em que os clubes discutem modelos de negócios com investidores estrangeiros e buscam elevar receitas de mídia e patrocínio a partir de 2026. Uma liga com calendário próprio e negociação centralizada de direitos de transmissão poderia multiplicar valores em até 30%, segundo estimativas de consultorias contratadas por grupos de clubes. O discurso do presidente do Vasco, porém, recoloca na mesa a pergunta básica: quem vai comandar esse dinheiro e com quais garantias de transparência?
O choque público também tende a acirrar ânimos nas arquibancadas. A rivalidade entre Vasco e Flamengo já movimenta públicos acima de 60 mil torcedores em clássicos no Maracanã e sustenta audiências líderes de TV aberta e streaming. Quando dirigentes se atacam em tom pessoal, o risco é que críticas políticas se transformem em combustível emocional em um ambiente já tensionado por resultados, preços de ingressos e disputa por espaços de poder na CBF e nas federações.
Do lado de investidores e patrocinadores, o episódio acende um sinal amarelo. Uma liga depende de segurança jurídica e de previsibilidade política para fechar contratos de longo prazo, muitas vezes acima de dez anos, com cifras que podem ultrapassar R$ 5 bilhões no período. O recado de Pedrinho, ao chamar rivais de arrogantes e dizer que os clubes não têm estrutura para tocar o projeto, sinaliza que os bastidores seguem fragmentados e que eventuais acordos ainda correm o risco de naufragar por desconfiança mútua.
A CBF, que recebe dirigentes nesta segunda em sua sede na Barra da Tijuca, observa o duelo de perto. A entidade tenta equilibrar o discurso de apoio à modernização do campeonato com a preservação de sua autoridade sobre calendário, arbitragem e organização das competições. Quanto maior a divisão entre clubes, maior tende a ser o peso político da confederação nas decisões, cenário que ajuda a explicar a cautela de Brasília, investidores e emissoras diante de promessas de uma liga “à inglesa” no Brasil.
Futuro da liga e da relação entre clubes segue em aberto
Pedrinho encerra a entrevista sem apontar recuo. Ele afirma que não se importa com as consequências do que diz e que prefere expor sua visão sobre a falta de estrutura dos clubes para comandar uma liga robusta. A postura contrasta com a de outras lideranças, que tentam manter divergências em reuniões fechadas, na expectativa de preservar uma imagem de unidade para o mercado.
A partir de agora, os próximos encontros entre dirigentes na CBF e em hotéis do Rio e de São Paulo ganham novo grau de tensão. A relação entre Vasco e Flamengo entra em mais um capítulo de desgaste, que já não se limita a disputas por jogadores, técnicos ou fatias de cota de TV. A dúvida que se impõe é se o futebol brasileiro conseguirá construir uma governança comum em meio a ataques públicos dessa intensidade ou se a liga seguirá, por mais uma temporada, como promessa adiada em um ambiente que ainda não aprende a separar rivalidade esportiva de projeto coletivo.
