Partido Bhumjaithai vence eleição na Tailândia e mantém Anutin no poder
O partido Bhumjaithai vence com ampla vantagem as eleições gerais realizadas neste 8 de fevereiro de 2026 na Tailândia e garante a permanência do primeiro-ministro Anutin Charnvirakul. O resultado consolida a legenda à frente do Partido Popular progressista e do tradicional Pheu Thai, redesenha o mapa político do país e sinaliza continuidade na agenda de estabilidade e crescimento econômico.
Vitória ampla e recado do eleitorado
As urnas fecham em um país acostumado a sobressaltos políticos e revelam um recado direto do eleitorado: a maioria prefere manter o curso atual. Projeções de institutos locais apontam o Bhumjaithai na liderança com folga sobre os rivais, em alguns cenários acima de 40% dos votos nacionais, enquanto o Partido Popular progressista e o Pheu Thai disputam, à distância, a posição de principal força de oposição.
Em Bangcoc, a sede do partido passa a noite tomada por militantes vestindo azul, cor da legenda. Telões exibem, distrito a distrito, a consolidação da vantagem. À medida que a contagem avança, dirigentes falam em “mandato claro para estabilidade” e em “confiança renovada” na gestão de Anutin, no comando do governo desde a legislatura anterior.
O primeiro-ministro se apresenta diante de apoiadores pouco depois das 22h, horário local, e agradece em discurso transmitido por canais de TV e redes sociais. “O povo tailandês escolhe estabilidade e continuidade”, afirma Anutin. “Nos próximos quatro anos, nosso compromisso é aprofundar reformas econômicas, proteger empregos e garantir que o crescimento alcance todas as províncias”.
A eleição ocorre em meio a preocupações com o ritmo da economia mundial, inflação de alimentos e disputas geopolíticas no Sudeste Asiático. A Tailândia cresce em torno de 3% ao ano desde 2023, abaixo do boom de décadas anteriores, mas com sinais de recuperação em turismo, indústria automotiva e tecnologia, setores que o Bhumjaithai coloca no centro de sua mensagem de campanha.
Continuidade, economia e reposicionamento regional
A vitória garante a Anutin base política para manter programas lançados nos últimos anos, como pacotes de incentivo ao turismo de alto padrão, facilidades a investidores estrangeiros e obras de infraestrutura. O governo fala em atrair dezenas de bilhões de dólares em novos projetos até 2030, com prioridade para corredores logísticos que conectam portos, zonas industriais e fronteiras terrestres com vizinhos do Sudeste Asiático.
Analistas em Bangcoc avaliam que o desempenho do Bhumjaithai reflete uma combinação de máquina organizada e discurso pragmático. A campanha explora o cansaço de parte do eleitorado com ciclos de protestos, golpes e governos de curta duração que marcam a política tailandesa desde o início dos anos 2000. “O eleitor médio não quer mais experimentar”, diz um cientista político da Universidade Thammasat. “Ele quer crescimento previsível, menos briga entre partidos e a sensação de que o país não vai acordar, de novo, com um governo interino”.
O resultado também redesenha o tabuleiro dos rivais. O Partido Popular progressista, que tenta capturar votos jovens e urbanos com discurso de renovação institucional, vê sua distância para o governo aumentar. O Pheu Thai, herdeiro do campo político associado ao ex-premiê Thaksin Shinawatra, perde espaço em redutos tradicionais do interior e precisa repensar sua narrativa. Líderes das duas siglas admitem, em declarações iniciais, que a oposição terá de se reorganizar “de forma coordenada” para enfrentar o novo ciclo.
No plano externo, a permanência de Anutin interessa a parceiros que valorizam previsibilidade. A Tailândia é peça importante na Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), bloco que tenta equilibrar relações com China e Estados Unidos. Um governo fortalecido tende a falar com mais confiança em temas como corredores energéticos, cadeias globais de produção e disputas no Mar do Sul da China.
Diplomatas em Bangcoc avaliam que a vitória amplia a margem de manobra do país para negociar acordos comerciais e investimentos de longo prazo. A expectativa, segundo um embaixador asiático ouvido sob reserva, é que a Tailândia busque consolidar sua imagem como hub logístico e turístico da região. “Continuidade política reduz o risco e melhora o apetite de investidores”, diz.
O que muda na prática e os desafios à frente
A renovação do mandato de Anutin não elimina os desafios internos. A desigualdade regional segue alta, com renda média nas áreas rurais significativamente abaixo dos grandes centros. A pressão por serviços públicos melhores, especialmente em saúde e educação, cresce à medida que a economia digital avança. Jovens que entram no mercado de trabalho cobram oportunidades além do turismo e da indústria tradicional.
Empresários veem a vitória do Bhumjaithai como um sinal positivo para investimentos atrasados pela instabilidade dos últimos anos. Associações do setor privado pressionam por desburocratização, simplificação tributária e prazos claros para grandes obras de transporte e energia. A promessa central do governo é destravar licenças e criar condições para que projetos saiam do papel em dois ou três anos, reduzindo gargalos logísticos que encarecem exportações.
Organizações da sociedade civil, por outro lado, cobram que a busca por estabilidade não signifique abafamento de críticas. Grupos de defesa de direitos humanos lembram episódios recentes de repressão a manifestações e vigilância digital e exigem garantias de liberdade de expressão e respeito ao dissenso político. Universidades e coletivos estudantis também pedem espaços de diálogo institucional com o novo Parlamento.
O próprio Bhumjaithai tenta calibrar o discurso. Em declarações após a confirmação da vitória, dirigentes falam em “estabilidade com abertura” e prometem ouvir sugestões da oposição em temas como reforma política, descentralização administrativa e combate à corrupção. Não há, porém, detalhes sobre eventuais mudanças na relação com as Forças Armadas, atores centrais em qualquer cálculo de poder no país nas últimas décadas.
Os próximos meses indicam se o capital político conquistado nas urnas se traduz em reformas concretas. A composição do novo gabinete, a negociação de alianças no Parlamento e a resposta do governo às primeiras críticas vão definir o tom do mandato. A Tailândia entra em um novo ciclo com a mesma liderança à frente, mas com a expectativa, dentro e fora do país, de que estabilidade não se confunda com imobilismo.
