Paquistão bombardeia Afeganistão após ofensiva talebã na fronteira
O Paquistão bombardeia alvos no Afeganistão nesta sexta-feira (27/2), horas depois de o Talebã lançar uma ofensiva contra bases militares paquistanesas na fronteira. A troca de ataques aéreos e com drones reacende o risco de um conflito prolongado entre dois países que vivem sob tensão quase permanente.
Escalada relâmpago na fronteira de 2.600 km
Os primeiros relatos da nova onda de violência surgem na noite de quinta-feira (26/2), quando autoridades talebãs anunciam uma ofensiva coordenada contra postos do Exército do Paquistão. Segundo Cabul, os ataques começam por volta das 20h, horário local, o equivalente a meio-dia em Brasília, ao longo de um amplo arco de fronteira que inclui as províncias afegãs de Nangarhar, Nuristan, Kunar, Khost, Paktia e Paktika.
Islamabad reage em poucas horas. O governo paquistanês acusa o Talebã de ter “calculado mal e aberto fogo não provocado” contra posições militares em Khyber Pakhtunkhwa, no noroeste do país, e afirma que a ofensiva é recebida com uma “resposta imediata e eficaz”. Na madrugada de sexta, caças paquistaneses e mísseis cruzam a fronteira e atingem alvos em Cabul e em pelo menos duas províncias estratégicas, Kandahar e Paktika, próximas ao limite de 2.600 km entre os dois países.
A extensão real dos danos permanece incerta. A BBC informa que ainda não consegue confirmar, de forma independente, o número de mortos e feridos em cada lado. Mesmo assim, tanto o Paquistão quanto o Talebã divulgam balanços de baixas que, além de divergentes, ilustram a dimensão política da disputa.
Versões conflitantes e drones em campo
Um porta-voz do Exército paquistanês afirma que 22 alvos militares são atacados em todo o Afeganistão, incluindo instalações em Cabul e Kandahar. Ele diz que “grande cuidado” é tomado para evitar baixas civis e sustenta que pelo menos 274 combatentes talebãs afegãos morrem. Segundo o militar, 73 postos são destruídos, 18 são capturados e cerca de 115 tanques, veículos blindados e sistemas de artilharia ficam fora de combate.
Do lado paquistanês, o mesmo porta-voz informa a morte de 12 soldados e 27 feridos, além de um militar dado como desaparecido em combate. Já o Talebã apresenta números muito menores para suas próprias perdas e bem mais altos para o inimigo. Zabihullah Mujahid, porta-voz oficial do grupo, afirma que 13 combatentes morrem e 22 ficam feridos nos ataques, enquanto 13 civis são feridos. Ele acusa o Paquistão de atingir a casa de um agricultor em Jalalabad, onde a maior parte da família teria morrido, e uma escola religiosa em Paktika.
Mujahid sustenta ainda que 55 soldados paquistaneses são mortos e diz que 23 corpos são levados para o Afeganistão, além de outros militares capturados vivos. Segundo ele, 19 bases paquistanesas são destruídas. Assim como em confrontos anteriores, cada lado insiste que apenas responde a uma agressão inicial, ao mesmo tempo em que afirma ter imposto perdas pesadas ao adversário.
A novidade desta rodada está no uso declarado de drones pelo Talebã contra o território paquistanês. Fontes talebãs dizem à BBC que ataques aéreos na manhã de sexta-feira são feitos a partir de drones lançados do Afeganistão. Um oficial paquistanês confirma que aeronaves não tripuladas do Talebã miram três locais sensíveis: a escola de artilharia do Exército em Nowshehra, um ponto próximo à academia militar em Abbottabad e uma área perto de uma escola primária em Swabi. Segundo ele, todos os drones são destruídos antes de causar danos significativos.
Analistas lembram que combatentes talebãs costumam usar drones comerciais adaptados, carregados com explosivos improvisados, o que limita alcance e poder destrutivo. Mesmo assim, os alvos escolhidos — incluindo cidades como Abbottabad, longe da fronteira imediata — demonstram capacidade de penetrar mais fundo em território paquistanês do que se imaginava até agora.
Do cessar-fogo ao risco de guerra aberta
A ofensiva desta semana encerra, na prática, um cessar-fogo frágil acertado em outubro de 2025, depois de uma semana de combates letais entre os dois lados, com mediação de Turquia e Catar. Desde então, ataques esporádicos voltam a ocorrer, quase sempre seguidos de acusações públicas e promessas de resposta. No início desta semana, o Paquistão realiza bombardeios noturnos em território afegão. O Talebã afirma que ao menos 18 pessoas morrem, entre elas mulheres e crianças.
Islamabad acusa o governo talebã de abrigar e apoiar grupos armados que classifica como “terroristas anti-Paquistão”. Esses militantes são responsabilizados por uma série de atentados, incluindo um ataque suicida recente contra uma mesquita em Islamabad. A liderança talebã rejeita as acusações e repete que o território afegão não é usado para ameaçar vizinhos. Em contrapartida, denuncia o que chama de ataques não provocados do Paquistão, com civis entre as vítimas, enquanto Islamabad insiste que mira apenas combatentes.
A escalada atual marca uma mudança importante na estratégia paquistanesa, avalia o pesquisador Michael Kugelman, do centro de estudos Atlantic Council. Em entrevista ao programa Newsday, da BBC, ele afirma que os bombardeios mais recentes deixam de se concentrar em grupos terroristas específicos e passam a mirar diretamente instalações do governo talebã. “Agora, o alvo é o próprio regime”, diz o analista.
O Paquistão, potência nuclear e com forças armadas muito mais estruturadas, tem ampla vantagem em uma guerra convencional. O Talebã, porém, acumula décadas de experiência em guerra de guerrilha, tanto contra tropas estrangeiras quanto contra o antigo governo afegão apoiado pelo Ocidente. Essa combinação, alertam especialistas, abre espaço para um conflito assimétrico e prolongado, com efeitos imprevisíveis para toda a região.
Pressão internacional e incerteza sobre próximos passos
A comunidade internacional reage com preocupação imediata. Autoridades da ONU pedem uma desescalada rápida e o fim dos bombardeios, enquanto o Irã, que faz fronteira com Afeganistão e Paquistão, se oferece para mediar. O chanceler iraniano, Abbas Araqchi, lembra que os ataques ocorrem durante o Ramadã, “o mês da autodisciplina e do fortalecimento da solidariedade no mundo islâmico”.
A China, que mantém laços econômicos e estratégicos com os dois países, defende um cessar-fogo e exorta os vizinhos a “manter a calma e exercer moderação”, nas palavras da porta-voz Mao Ning. A Arábia Saudita, aliada de Islamabad, envia seu ministro das Relações Exteriores para discutir em pessoa, com o chanceler paquistanês, formas de reduzir a tensão. A movimentação diplomática tenta conter um atrito que, se não for controlado, pode afetar rotas comerciais, projetos de infraestrutura e operações humanitárias em todo o Sul da Ásia.
Em Islamabad, o tom oficial endurece. O primeiro-ministro Shehbaz Sharif afirma que as forças paquistanesas conseguem “esmagar” a agressão, enquanto o ministro da Defesa fala em “guerra aberta” contra o Talebã no Afeganistão. Em resposta, o chefe militar talebã, Qari Muhammad Fasihuddin, divulga um vídeo em que promete ao Paquistão “uma resposta ainda mais decisiva” no futuro. Ao mesmo tempo, Mujahid ajusta o discurso público e diz que o Talebã “retaliará se formos atacados, mas não iniciaremos confrontos no momento”. Nesta sexta-feira, ele afirma também que o grupo “quer que a questão seja resolvida por meio do diálogo”.
No terreno, civis em províncias como Kandahar, Paktika e Khost enfrentam a perspectiva de novos combates, deslocamentos forçados e queda na já frágil economia local. Um aumento da violência na fronteira tende a pressionar rotas de refugiados, elevar o custo de alimentos e combustíveis e dificultar o trabalho de agências humanitárias que atuam em um Afeganistão ainda devastado por décadas de guerra.
Governos da região monitoram os próximos movimentos militares e diplomáticos em Cabul e Islamabad, atentos ao risco de que incidentes localizados se transformem em confronto mais amplo. Entre apelos por cessar-fogo, ameaças de “guerra aberta” e promessas de retaliação, permanece em aberto a principal pergunta desta sexta-feira: até onde Paquistão e Talebã estão dispostos a ir antes de aceitar negociar um limite para a escalada?
