Papa envia mais de € 1 mi em remédios e aquecedores à Ucrânia
O Papa Leão XIV envia, em fevereiro de 2026, medicamentos avaliados em mais de 1 milhão de euros e mais de mil radiadores elétricos para famílias ucranianas sem aquecimento, especialmente nas regiões de Zaporizhzhia e Kharkiv. A remessa tenta conter a emergência humanitária provocada pela combinação de novos bombardeios e frio extremo.
Socorro em meio ao inverno e aos bombardeios
A guerra na Ucrânia entra no quarto ano com bairros inteiros às escuras e ao frio. Em Zaporizhzhia, ataques recentes contra a infraestrutura energética deixam mais de 800 famílias sem aquecimento, segundo o bispo de Kharkiv-Zaporizhzhia, dom Pavlo Honcharuk. Em casas danificadas ou improvisadas, o inverno ucraniano passa de ameaça abstrata a risco direto de pneumonia, agravamento de doenças crônicas e morte por hipotermia.
Nesse cenário, o pedido que chega a Roma não é protocolar. O Dicastério para o Serviço da Caridade descreve a solicitação dos bispos ucranianos como um “pedido desesperado”, expressão rara em comunicados oficiais. Eles falam por mulheres separadas dos maridos que foram para o front, por crianças abrigadas em escolas e por idosos que se recusam a deixar o pouco que restou de suas casas.
O Papa ouve esse relato e aciona a Esmolaria Apostólica, o órgão responsável por transformar discursos em gestos concretos de caridade. A resposta começa a tomar forma em caminhões carregados na Itália, com caixas de medicamentos selecionados para situações de emergência e pallets de radiadores elétricos a óleo, comprados às pressas para enfrentar o frio. A articulação logística envolve a Fundação Banco Farmacêutico ETS, que mobiliza doações, negocia preços com laboratórios e garante que a carga chegue intacta até a fronteira.
Os últimos trechos do trajeto exigem discrição e planejamento. A guerra muda rotas com um míssil, redesenha mapas a cada ofensiva. Mesmo assim, na manhã de 24 de fevereiro, a Esmolaria confirma que o comboio alcança Zaporizhzhia com medicamentos e centenas de radiadores, parte de um lote superior a 1.000 unidades destinado às áreas mais castigadas pelos ataques.
Remédios, calor e um recado político
O valor comercial dos remédios supera 1 milhão de euros, segundo o Vaticano. A cifra dá a medida do esforço, mas não resume o impacto. A prioridade recai sobre medicamentos urgentes, para tratar infecções respiratórias, controlar quadros crônicos descompensados e sustentar atendimentos em hospitais que funcionam sob bombardeios, com geradores a diesel e equipes reduzidas.
Os radiadores chegam como um complemento vital. Sem calefação central, famílias inteiras se concentram em um único cômodo, vedam janelas com plástico e estendem cobertores nas portas. O equipamento elétrico não devolve o sistema de aquecimento destruído, mas cria bolsões de calor em apartamentos e abrigos improvisados. Para quem passou noites em ginásios frios, um aparelho ligado pode significar a diferença entre uma tosse passageira e uma pneumonia grave.
O gesto de Leão XIV também responde ao clima político do momento. No Angelus de 22 de fevereiro, o Papa lembra o aniversário do início da guerra, fala em “famílias destruídas” e “sofrimentos indescritíveis” e volta a pedir um cessar-fogo imediato. Define a paz como “necessidade urgente”, não como horizonte distante. A remessa de ajuda transforma esse discurso em imagem concreta: caminhões entrando em zonas bombardeadas, caixas sendo descarregadas em paróquias e centros comunitários, radiadores empilhados à espera de distribuição.
Para a Igreja local, a operação reforça a percepção de que Roma está presente não só nos pronunciamentos. Dom Pavlo Honcharuk recorre diretamente ao cardeal Konrad Krajewski, esmoleiro do Papa, ao descrever o bairro onde mais de 800 famílias vivem sem aquecimento e com danos considerados “impossíveis de reparar em pouco tempo”. A partir desse relato, o cardeal desenha uma resposta em duas frentes: remédios para o corpo, calor para a casa.
O impacto imediato se mede em números e rostos. Mais de 1.000 radiadores são distribuídos prioritariamente às famílias com crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas. AEsomaria informa que, “apesar de todas as dificuldades logísticas e operacionais”, os produtos chegam a “vastos territórios bombardeados” e entram em uma rede de paróquias e organizações locais que conhecem as ruas, os porões e os abrigos onde a população se esconde.
O que muda agora e o que ainda falta
O envio emergencial não altera o curso da guerra, mas muda a vida cotidiana de quem tenta atravessar mais um inverno sob sirenes e cortes de energia. Em Zaporizhzhia e Kharkiv, a possibilidade de ligar um radiador por algumas horas por dia reduz o risco de doenças respiratórias em crianças e idosos. Nos hospitais, a chegada de remédios evita o colapso de estoques e diminui a necessidade de escolher quem recebe tratamento completo.
Para o Vaticano, a operação reforça uma linha de atuação que combina apelos públicos com ações discretas. Desde o início da invasão, a Esmolaria envia ambulâncias, geradores, alimentos e ajuda financeira a paróquias que se tornam centros de acolhida. Desta vez, a dimensão econômica da remessa, superior a 1 milhão de euros, sinaliza que Roma continua disposta a sustentar financeiramente esse esforço, mesmo sem controle sobre os desdobramentos militares.
No plano internacional, a ajuda reacende o debate sobre o papel das instituições religiosas em zonas de conflito prolongado. A iniciativa do Papa não substitui governos nem agências da ONU, mas pressiona por novas respostas. Quando o Vaticano fala em “desastrosa emergência humanitária” na Ucrânia, escolhe palavras que empurram outros atores a olhar para além do front, para os apagões, os prédios congelados e as farmácias vazias.
Os próximos meses testam a capacidade de manter esse fluxo de socorro. A cada ataque à infraestrutura energética, aumenta a demanda por combustíveis, geradores, cobertores e novos aparelhos de aquecimento. As autoridades ucranianas continuam pedindo sistemas de defesa aérea e recursos militares; a Igreja insiste em remédios, alimentos e proteção para civis. Entre esses dois movimentos, famílias seguem tentando sobreviver com o que chega.
Leão XIV pede que o mundo reze pela paz, mas a própria operação mostra que a oração, no vocabulário do Vaticano, convive com planilhas, contratos e rotas de caminhões. A pergunta que permanece, para Kiev, Moscou e para as capitais europeias, é se gestos como esse conseguem abrir espaço político para o cessar-fogo que o Papa descreve como inadiável, antes que outro inverno encontre de novo essas mesmas casas em silêncio e no escuro.
