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Palestina apoia Brasil em Conselho da Paz de Trump e expõe racha na diplomacia

O embaixador palestino em Brasília manifesta apoio, nesta quinta-feira (22), à entrada do Brasil no Conselho da Paz criado por Donald Trump. A iniciativa recebe resistência de assessores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que veem risco de desgaste com a ONU. A possível participação recoloca a política externa brasileira no centro de uma disputa por protagonismo nas negociações de paz globais.

Brasília vira palco de disputa por protagonismo

O gesto palestino ocorre em meio a movimentações discretas do Itamaraty para testar o espaço de atuação do Brasil em novas frentes multilaterais. O Conselho da Paz, criado por Trump após deixar a Casa Branca, se apresenta como um fórum paralelo para mediar conflitos em regiões de alta tensão, com foco declarado no Oriente Médio e na Eurásia. A inclusão de um país em desenvolvimento com o tamanho do Brasil, com quase 220 milhões de habitantes e presença em todos os continentes, é vista por aliados de Trump como forma de dar mais legitimidade ao grupo.

Diplomatas que acompanham as conversas descrevem a manifestação do embaixador palestino como um “sinal político calculado”. Ao apoiar o Brasil, a representação palestina tenta ampliar o leque de mediadores em conflitos que se arrastam há décadas, como a disputa territorial com Israel. A avaliação é que a presença de um ator do Sul Global no Conselho da Paz pode reduzir a percepção de alinhamento automático a Washington. “O Brasil tem histórico de diálogo e não carrega o peso das potências militares tradicionais”, afirma, em reserva, um diplomata envolvido nas tratativas.

Divisão no Planalto e receio de desgaste com a ONU

A iniciativa, porém, abre um flanco sensível dentro do governo brasileiro. Assessores de Lula veem com desconfiança a aproximação com um órgão idealizado por Trump, político que mantém forte rejeição em setores progressistas e nos defensores da diplomacia clássica da ONU. O temor central é que a adesão ao Conselho da Paz seja lida, em Nova York e em capitais europeias, como um movimento de esvaziamento do Conselho de Segurança e de outros mecanismos oficiais das Nações Unidas.

Interlocutores do Planalto relatam que, em reuniões recentes, auxiliares da área internacional alertam para o risco de o Brasil parecer “sair da fila” da reforma do Conselho de Segurança, reivindicada há pelo menos 20 anos. O país tenta, desde o início dos anos 2000, ocupar uma vaga permanente no colegiado que decide sanções e operações de paz. Nesse contexto, qualquer gesto que fortaleça estruturas paralelas gera desconforto. “Não faz sentido pedir mais voz na ONU e, ao mesmo tempo, legitimar fóruns que podem concorrer com ela”, diz um assessor ouvido pela reportagem.

A posição da equipe de Lula não é unânime. Um grupo menor de conselheiros defende que o Brasil não pode ignorar iniciativas alternativas em um momento de paralisia do sistema multilateral tradicional. O argumento é que o Conselho de Segurança permanece engessado por vetos e disputas entre Estados Unidos, Rússia e China. Para esses auxiliares, participar do Conselho da Paz, mesmo com cautela, pode abrir espaço para o país influir em negociações que hoje se desenrolam fora dos salões da ONU.

Histórico de mediação e peso simbólico do apoio palestino

A disputa interna dialoga com a trajetória recente da política externa brasileira. Nos últimos 30 anos, o país atua como mediador ou facilitador em crises regionais na América do Sul e em negociações de alcance global. Em 2010, Brasil e Turquia tentam intermediar um acordo nuclear com o Irã, episódio que marca a ambição de atuar além do entorno imediato. Em missões de paz, mais de 37 mil militares brasileiros passam pela ONU entre 1990 e 2020, com destaque para o comando da missão no Haiti por 13 anos.

O apoio explícito da Palestina tem, nesse contexto, peso simbólico relevante. O Brasil reconhece o Estado palestino em 2010 e mantém, desde então, posição de defesa da solução de dois Estados nas fronteiras de 1967. A sinalização de confiança de Ramallah reforça, na avaliação de especialistas, a imagem de interlocutor confiável junto a atores que desconfiam das grandes potências. “Quando um lado historicamente fragilizado busca o Brasil, isso mostra como o país é visto fora do eixo tradicional”, analisa um professor de relações internacionais da Universidade de Brasília.

Na prática, o Conselho da Paz pretende funcionar como mesa permanente de negociação, com encontros periódicos a cada três meses e missões pontuais a zonas de conflito. A participação brasileira daria ao fórum acesso a redes diplomáticas na América Latina, na África e no Sudeste Asiático, regiões onde o país mantém mais de 70 embaixadas ativas. Para a Palestina, esse capital político pode ser útil em futuras iniciativas de reconhecimento internacional e em votações sensíveis em organismos multilaterais.

O que muda para o Brasil na arena internacional

O eventual ingresso do Brasil no Conselho da Paz abre uma frente de oportunidades e riscos. De um lado, o país se posiciona como mediador em conflitos que envolvem orçamentos militares bilionários e interesses energéticos estratégicos, da faixa de Gaza ao Golfo Pérsico. De outro, assume a responsabilidade de lidar com pressões simultâneas de Washington, Bruxelas, Moscou e Pequim, além de críticas de setores que veem o fórum como projeto personalista de Trump.

Analistas apontam que o movimento pode agradar a parte do empresariado brasileiro, interessada em maior previsibilidade em regiões onde o país exporta combustíveis, alimentos e equipamentos. Em 2025, o comércio exterior brasileiro com países de áreas de conflito supera US$ 15 bilhões, segundo dados oficiais. Uma atuação mais ativa em negociações de paz pode ser vendida internamente como forma de proteger empregos e contratos, ainda que esse vínculo não apareça de forma explícita nos comunicados oficiais.

Nos bastidores, diplomatas alertam para outro efeito colateral: o risco de atropelar iniciativas já em curso na ONU, na União Africana e na Liga Árabe. Em crises recentes, como as guerras na Síria e no Iêmen, a pulverização de mesas de negociação gera sobreposição de esforços e mensagens contraditórias às partes em conflito. Para o Brasil, o desafio é evitar a imagem de ator que embarca em todas as iniciativas sem capacidade de entregar resultados concretos.

Próximos passos e dilemas da política externa

O governo Lula ainda não bate o martelo sobre a adesão ao Conselho da Paz. A expectativa, segundo fontes ouvidas pela reportagem, é de que uma decisão preliminar seja discutida nas próximas semanas, em reuniões que envolvem o presidente, o Itamaraty e a assessoria internacional do Planalto. A tendência hoje é buscar uma fórmula intermediária, como status de observador por 12 meses, com direito a voz, mas sem compromisso automático com todas as resoluções do grupo.

Enquanto a discussão avança, o apoio palestino funciona como termômetro externo e argumento interno. Para os defensores da participação, a manifestação de confiança de um dos povos mais diretamente afetados por conflitos prolongados mostra que há espaço para uma atuação brasileira diferenciada. Para os críticos, o mesmo gesto reforça a necessidade de preservar o papel central da ONU, onde o Brasil ainda tenta garantir uma cadeira permanente no Conselho de Segurança em um horizonte de médio prazo.

O desfecho desse embate interno vai além de um convite específico. A escolha entre investir capital político em um fórum ligado a um ex-presidente americano controverso ou manter foco absoluto na reforma da ONU revela qual projeto de inserção internacional o Brasil pretende consolidar na próxima década. A resposta, que começa a ser desenhada em Brasília, tende a influenciar não apenas as futuras negociações de paz, mas também a forma como o país será cobrado quando o silêncio deixar de ser uma opção.

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