Pai relata em grupo de WhatsApp assédio atribuído a ministro do STJ
O pai de uma jovem acusa o ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), de assédio sexual durante visita à casa do magistrado, em janeiro de 2026, em Balneário Camboriú (SC). O relato, feito à Polícia Civil, também circula em um grupo privado de WhatsApp frequentado por casais amigos do ministro. A denúncia, agora em apuração, envolve uma das cortes mais poderosas do país e reacende o debate sobre a conduta de autoridades do Judiciário.
Relato íntimo ganha dimensão pública
O caso começa em um ambiente de aparente intimidade. As famílias do ministro e do denunciante se conhecem há anos, viajam juntas e compartilham rotinas em comum. Em janeiro, os casais se reúnem na residência de Buzzi, em uma área nobre próxima à praia do Estaleiro, em Balneário Camboriú, litoral norte de Santa Catarina. É nesse encontro que, segundo o pai, ocorre o assédio à filha, cuja identidade é preservada.
Abalado, o pai decide registrar formalmente o que diz ter ouvido da jovem e procura a Polícia Civil catarinense. O depoimento entra nos autos como ponto de partida para uma investigação que envolve um ministro da corte responsável por revisar decisões de todo o país. Paralelamente, ele leva o episódio a um grupo de WhatsApp usado por casais amigos, do qual participam as esposas, para alertar pessoas que convivem de perto com o ministro.
“Eu não podia fingir que nada aconteceu. Precisava contar o que minha filha passou”, relata o pai, segundo mensagem reproduzida pelo grupo. O envio acontece poucos dias após a visita, ainda em janeiro de 2026, e rompe o círculo de silêncio que costuma cercar episódios de violência sexual em ambientes familiares e de amizade.
A circulação do relato em um espaço privado, mas com dezenas de integrantes, acelera a exposição do caso. Em poucas horas, o conteúdo transborda do grupo fechado para outras conversas, até alcançar, semanas depois, jornalistas e autoridades. O que começa como desabafo entre conhecidos se transforma em notícia nacional, com potencial de crise institucional.
Pressão sobre o Judiciário e debate sobre abuso de poder
A denúncia atinge um ministro de um tribunal que julga cerca de 400 mil processos por ano e cujas decisões influenciam diretamente políticas públicas e a rotina de estados e municípios. Quando um integrante dessa cúpula é acusado de assédio sexual, a discussão ultrapassa o caso individual e toca a confiança na imparcialidade e na integridade do sistema de Justiça.
Especialistas em direito e em violência de gênero apontam que o episódio expõe um padrão conhecido: vítimas e familiares relatam dificuldade em denunciar pessoas com alto capital político e social. A casa ampla, a proximidade com a praia e o clima de férias ajudam a criar a sensação de que ali nada de grave poderia acontecer. O relato do pai rompe essa percepção de segurança.
Ativistas da área de direitos das mulheres destacam que o uso de um grupo de WhatsApp como primeiro canal de repercussão tem significado simbólico. Em vez de se restringir a um boletim de ocorrência, o pai decide dividir o que ouviu com pessoas do próprio círculo social do ministro. O gesto funciona como forma de proteção à filha e também como tentativa de impedir que outras mulheres, inclusive conhecidas do grupo, passem por situação semelhante.
O caso soma-se a uma série de denúncias de assédio e violência sexual envolvendo autoridades e figuras públicas nos últimos anos. Em diferentes momentos, parlamentares, integrantes de tribunais regionais e gestores públicos enfrentam questionamentos sobre comportamentos inadequados em ambientes privados e profissionais. Cada nova acusação pressiona por mecanismos mais claros de responsabilização, independentemente do cargo.
Organizações que monitoram violência sexual lembram que, em média, menos de 10% dos casos chegam à polícia, segundo estimativas baseadas em levantamentos de institutos de pesquisa e dados oficiais. Quando o acusado é uma autoridade, esse percentual tende a ser ainda menor, pela dificuldade de romper barreiras institucionais e sociais. A decisão do pai de procurar a delegacia e registrar oficialmente a queixa ganha peso nesse contexto.
Investigação em andamento e incertezas sobre o desfecho
A Polícia Civil de Santa Catarina colhe depoimentos, reúne mensagens trocadas no grupo de WhatsApp e tenta reconstituir a noite do encontro na casa do ministro. O procedimento inclui prazos formais, pedidos de sigilo e eventual remessa de informações a instâncias superiores, já que Buzzi tem foro especial por ocupar uma cadeira no STJ. A apuração deve indicar se haverá indiciamento e, em caso afirmativo, qual o caminho jurídico a seguir.
No plano institucional, a denúncia pode chegar ao próprio Superior Tribunal de Justiça e ao Conselho Nacional de Justiça, responsáveis por analisar condutas de magistrados. Em situações semelhantes, essas cortes costumam levar meses para concluir procedimentos administrativos, que podem resultar em arquivamento, advertência, afastamento temporário ou até perda do cargo, a depender da gravidade e das provas reunidas.
Entidades da magistratura acompanham o caso e avaliam como reagir publicamente. Há preocupação com o impacto sobre a imagem do Judiciário e com possíveis pressões políticas sobre o andamento da investigação. Para movimentos de defesa de vítimas de violência sexual, o maior risco é que o tempo jogue contra a família da jovem e reduza o ímpeto de apuração.
O episódio também reacende discussões sobre a necessidade de protocolos claros de prevenção e resposta a denúncias de assédio em tribunais superiores. Propostas em debate incluem canais internos independentes, prazos máximos para análise de relatos e maior transparência nos resultados. A forma como o caso de Marco Buzzi avança pode definir o padrão de resposta a futuras acusações contra autoridades em cargos vitais para a democracia.
Enquanto a investigação corre sob reserva, uma pergunta se impõe entre familiares, especialistas e sociedade: o sistema de Justiça será capaz de oferecer à vítima o mesmo nível de proteção e escuta que o ministro recebe em garantias institucionais? A resposta, nos próximos meses, tende a indicar até que ponto o país está disposto a enfrentar, sem exceções, denúncias de abuso de poder e de violência sexual.
