Pacheco testa candidatura em Minas e mira apoio de Lula e Aécio
O senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) intensifica, em março de 2026, as articulações para disputar o governo de Minas Gerais, sem admitir publicamente que é candidato. Amparado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ele tenta costurar uma aliança improvável com o PSDB de Aécio Neves enquanto corre contra o prazo de filiação partidária, que se esgota no início de abril.
Lula pressiona e Minas volta ao centro do tabuleiro
Lula trata Pacheco como o nome preferencial para liderar seu palanque em Minas, segundo maior colégio eleitoral do país, com mais de 16 milhões de eleitores. O presidente avalia que só um aliado competitivo no governo estadual pode reforçar sua campanha de reeleição em um estado historicamente dividido entre PT e PSDB. O movimento recoloca Minas no centro das disputas nacionais e reacende rivalidades que marcam a política brasileira desde o início dos anos 2000.
O desenho desse palanque ainda é incerto. O PSD, partido ao qual Pacheco é filiado, deve lançar o vice-governador Mateus Simões ao governo, o que empurra o senador para outra legenda. A escolha da sigla é decisiva, porque define tempo de TV, estrutura financeira e capilaridade no interior, fatores que pesam em um estado com 853 municípios e forte influência de prefeitos e lideranças regionais.
Conversas discretas com o PSDB e disputa por um partido
Pacheco abre canais com o PSDB mineiro e passa a conversar diretamente com Aécio Neves, deputado federal e presidente nacional da sigla. A articulação tenta enquadrar um acordo delicado: atrair o tucano, que avalia concorrer ao Senado, sem colar o partido a Lula. Aliados relatam que, em reuniões reservadas, se discute um cenário em que o PSDB apoia Pacheco para o governo, mas permanece em coligações separadas da chapa petista à Presidência.
Tucanos sustentam que não pretendem subir no mesmo palanque de Lula, mas admitem a possibilidade de pedir voto para Pacheco em Minas. Seria uma inflexão simbólica. Aécio foi um dos maiores adversários dos governos petistas nos anos 2010 e protagonizou a contestação do resultado presidencial de 2014. Hoje, interlocutores do partido tratam com naturalidade, em tom pragmático, a chance de dividir o mesmo projeto estadual com um aliado do presidente.
Enquanto testa essa aproximação, o senador enfrenta o dilema da filiação. União Brasil e MDB surgem como principais alternativas. No União, o quadro é ambíguo: parte da bancada mineira quer apoiar o ex-deputado Flávio Bolsonaro (PL) na corrida presidencial, mas o comando estadual está nas mãos de Rodrigo de Castro, aliado de Pacheco. As conversas passam pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, um dos nomes mais influentes da legenda, que atua para preservar o espaço político do amigo, mesmo distante do Palácio do Planalto.
No MDB, a equação é ainda mais complexa. O diretório mineiro é presidido pelo deputado Newton Cardoso Jr., que lançou Gabriel Azevedo, ex-presidente da Câmara de Belo Horizonte, como pré-candidato ao governo. Senadores emedebistas, alinhados ao governo federal, buscam uma saída para acomodar Pacheco, mas esbarram na resistência local em apoiar explicitamente Lula. Integrantes próximos ao presidente admitem, em reservado, que a chance de um acordo pleno com o MDB mineiro é baixa.
Uma solução de emergência seria o PSB, aliado histórico do PT em nível nacional. A legenda, porém, tem pouca estrutura em Minas e presença modesta em cidades-chave. Pacheco avalia que entrar na disputa por um partido frágil reduziria seu alcance e o deixaria mais dependente da máquina federal, algo que ele tenta evitar para não se confundir com um candidato apenas de Lula.
Candidatura em teste e impacto no xadrez nacional
Pacheco repete a aliados que só entra na disputa se enxergar viabilidade real, medida por pesquisas internas, alianças regionais e capacidade de financiamento. A memória recente pesa. Depois de ser preterido por Lula na indicação ao Supremo Tribunal Federal, em favor do advogado-geral da União, Jorge Messias, o senador chegou a sinalizar que poderia encerrar a carreira política em 2027, ao fim do mandato. O recuo e a movimentação atual mostram que a hipótese de saída de cena perde força.
Lula atua pessoalmente para segurar o aliado. Em 28 de fevereiro, os dois dividem o avião presidencial em viagem a Juiz de Fora, cidade castigada por temporais. No trajeto, integrantes do governo e o próprio presidente se referem a Pacheco, em tom de brincadeira, como “futuro governador” de Minas. O senador sorri, não confirma, mas também não nega. Em solo mineiro, Lula oferece holofotes: coloca Pacheco para falar em reunião fechada com prefeitos e, depois, o apresenta à imprensa como um dos protagonistas da visita.
A cena funciona como um recado público. O Planalto sinaliza aos partidos que o senador é a aposta do governo no segundo maior colégio eleitoral do país. Uma candidatura competitiva de Pacheco pode reorganizar o mapa de forças no estado, tradicionalmente fatiado entre o PT, herdeiros do tucanato de Aécio e grupos regionais ligados a MDB, PSD e siglas menores. Também cria um ponto de atrito com o bolsonarismo, que tenta consolidar ali um reduto fiel a Flávio Bolsonaro.
O impacto vai além das fronteiras mineiras. Uma vitória de um aliado de Lula em Minas dificultaria o caminho de adversários nacionais e poderia influenciar o humor do mercado e de atores institucionais, como Congresso e governadores de outros estados. A derrota, por outro lado, enfraqueceria o presidente em meio à tentativa de reeleição e abriria espaço para que opositores apresentem Minas como um termômetro de desgaste do governo federal.
Prazo apertado e perguntas em aberto
O relógio eleitoral pressiona. A janela para filiação partidária com vistas às eleições de 2026 se fecha no início de abril, cerca de um mês após a intensificação das conversas de Pacheco com Lula, PSDB, União Brasil e MDB. Até lá, o senador precisa escolher legenda, confirmar oficialmente a candidatura e apresentar um arco de alianças capaz de sustentar uma disputa longa e cara em um estado de dimensões continentais.
As próximas semanas tendem a expor, com mais nitidez, a disposição de Aécio em se aproximar de um projeto apoiado pelo PT e a capacidade de Lula de entregar a Pacheco o que seus aliados cobram: um partido forte, com tempo de TV e musculatura no interior. Se o acordo avançar, Minas pode se tornar o principal laboratório de um realinhamento político entre antigos rivais. Se fracassar, o senador terá de decidir se volta à posição de articulador em Brasília ou se arrisca um voo solo em uma disputa que, por enquanto, ele prefere manter no condicional.
