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Oscar 2026: ‘O Agente Secreto’ leva Brasil a recorde histórico

O filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, recebe quatro indicações ao Oscar 2026 anunciadas nesta quinta-feira (22) em Los Angeles. A produção disputa melhor filme, melhor ator, melhor filme internacional e melhor escalação de elenco, igualando o recorde de “Cidade de Deus”.

Cinema brasileiro volta ao centro do Oscar

As indicações colocam o Brasil novamente no centro da principal premiação do cinema mundial. “O Agente Secreto” entra na corrida pelo prêmio máximo, melhor filme, e projeta o nome de Kleber Mendonça Filho e de seu elenco para plateias de todo o mundo. A presença de Wagner Moura entre os indicados a melhor ator consolida uma trajetória construída entre produções brasileiras e internacionais.

O anúncio é feito pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, em Los Angeles, e marca um momento que o setor audiovisual brasileiro espera há décadas. Esta é apenas a segunda vez que um longa brasileiro chega à categoria de melhor filme. A primeira ocorre em 2025, com “Ainda Estou Aqui”, que abre uma brecha num espaço historicamente dominado por gigantes de Hollywood e do cinema europeu.

As quatro indicações de “O Agente Secreto” igualam o feito de “Cidade de Deus”, que em 2004 concorre em melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia. Na época, o filme sai de mãos vazias, mas muda o lugar do Brasil no mapa do cinema. Agora, mais de duas décadas depois, o recorde volta ao noticiário com outro título nacional, mas em um cenário global mais aberto a produções não faladas em inglês.

Força técnica e disputa com gigantes

O reconhecimento não se limita ao filme de Kleber Mendonça Filho. O fotógrafo brasileiro Adolpho Veloso também aparece entre os indicados, pelo trabalho em “Sonhos de Trem”, na categoria de melhor fotografia. A indicação, em uma produção estrangeira, reforça a presença de profissionais brasileiros em equipes internacionais de alto orçamento. Veloso divide espaço com alguns dos diretores de fotografia mais celebrados da atualidade, em um momento em que a imagem digital e a combinação de efeitos visuais se tornam cada vez mais centrais na experiência das salas de cinema.

A fotografia é uma das categorias mais disputadas deste ano. A academia confirma “Sonhos de Trem” em uma lista que inclui produções de grande bilheteria e forte apelo visual. Para o Brasil, a nomeação de Veloso funciona como vitrine da capacidade técnica do país, em um mercado de produções que movimenta bilhões de dólares por ano e depende de profissionais qualificados em todas as etapas, da captação de imagem à pós-produção.

O cenário da disputa mostra o tamanho do desafio. O grande fenômeno das indicações é “Pecadores”, filme de vampiros que quebra o recorde histórico da premiação ao receber 16 indicações. Até agora, o posto pertence a “A Malvada” (1950), “Titanic” (1997) e “La La Land: Cantando Estações” (2016), todos com 14 indicações. A nova marca mostra como o Oscar se abre a gêneros antes vistos como menores, ao mesmo tempo em que aumenta a pressão sobre concorrentes que buscam espaço nas principais categorias.

Logo atrás, “Uma Batalha Após a Outra” soma 13 indicações e entra como outro favorito. Também se destacam “Marty Supreme”, “Frankenstein”, “Valor Sentimental” e “Hamnet”, todos com múltiplas nomeações. Nesse ambiente de disputa acirrada, a performance de “O Agente Secreto” e de Adolpho Veloso ganha peso político e simbólico. Não se trata apenas de acumular estatuetas, mas de consolidar o Brasil como origem de talentos e histórias que dialogam com um público global.

Nem todas as apostas brasileiras avançam. Os documentários “Apocalipse nos Trópicos” e “Yanuni” aparecem na pré-lista da categoria, mas ficam fora da relação final. O curta “Amarela”, de André Hayato Saito, segue o mesmo caminho. A exclusão frustra parte do setor, que vê na categoria documental um espaço de crescimento para coproduções internacionais e para relatos brasileiros de impacto político e social. Ainda assim, a pré-seleção desses títulos indica que mais projetos nacionais conseguem furar o bloqueio inicial da academia.

O que muda para o cinema brasileiro

As quatro indicações de “O Agente Secreto” e a presença de Adolpho Veloso em melhor fotografia tendem a gerar efeitos imediatos. Produtores esperam aumento de vendas internacionais, novos contratos de distribuição e relançamentos em salas e plataformas de streaming. Em 2025, após a indicação de “Ainda Estou Aqui”, distribuidoras relatam crescimento de público no exterior e reabertura de negociações interrompidas durante a pandemia. O movimento deve se repetir em 2026, em um mercado que reage rápido a qualquer selo de prestígio da academia.

O impacto também é político. A sexta indicação do Brasil ao Oscar de melhor filme internacional alimenta o debate sobre financiamento público, mecanismos de incentivo fiscal e acordos de coprodução. A presença recorrente de títulos brasileiros na temporada de premiações oferece munição para quem defende a continuidade e a ampliação de políticas de fomento. A pressão recai sobre governo federal, estados e prefeituras, que lidam com orçamentos apertados e disputas por recursos com outras áreas da cultura.

Para o público, o efeito mais visível é o interesse renovado por produções nacionais. A combinação de um filme indicado a melhor filme, um ator de grande projeção como Wagner Moura na disputa por melhor ator e um técnico consagrado em fotografia tende a mudar a percepção sobre o alcance do cinema brasileiro. A ideia de que o país só ocupa nichos de festivais especializados perde força diante de um lugar consolidado na vitrine mais popular do audiovisual.

As derrotas nas categorias de documentário e curta-metragem também enviam sinais. Projetos como “Apocalipse nos Trópicos”, “Yanuni” e “Amarela” mostram que há diversidade de formatos e temas em curso, mas evidenciam a distância entre o nível de reconhecimento já conquistado na ficção e a ainda limitada presença brasileira nas demais frentes. A disputa futura passa por garantir continuidade de produção, formação de profissionais e maior articulação com produtoras estrangeiras.

Próximos passos até a noite do Oscar

A partir do anúncio desta quinta-feira, a campanha de “O Agente Secreto” entra em uma fase decisiva. A equipe intensifica sessões especiais em Los Angeles, encontros com votantes da academia e entrevistas para veículos internacionais. A estratégia repete o roteiro de grandes campanhas de estúdio, adaptado à realidade de um filme brasileiro que precisa disputar atenção em um calendário lotado de estreias e eventos.

O caminho até a cerimônia do Oscar, prevista para o primeiro trimestre de 2026 em Los Angeles, define quanto desse capital simbólico se converte em prêmios concretos, novos contratos e mais espaço para o cinema brasileiro. A presença de “O Agente Secreto” na categoria principal, somada à indicação de Adolpho Veloso, já reconfigura o patamar de expectativa. A pergunta agora é se o Brasil transforma esse momento em ponto de virada duradouro ou se o brilho desta temporada ficará restrito a uma noite de festa em Hollywood.

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