Ultimas

Opositor Juan Pablo Guanipa é preso horas após deixar cadeia na Venezuela

O advogado e ex-deputado opositor Juan Pablo Guanipa é levado à força por homens armados em Caracas na noite de 9 de fevereiro de 2026, menos de 12 horas após deixar a prisão. A família fala em sequestro político; a Procuradoria-Geral confirma nova detenção e alega descumprimento de medidas judiciais, sem detalhar as condições impostas.

Nova captura encerra breve retorno à liberdade

A sequência de horas que separa a libertação e a nova prisão de Juan Pablo Guanipa expõe, em tempo real, o nível de controle que o Estado venezuelano exerce sobre seus opositores. Aos 61 anos, uma das figuras mais antigas da oposição ligada a María Corina Machado volta a desaparecer sob custódia estatal no momento em que o país tenta reconstruir alguma normalidade após a intervenção militar dos Estados Unidos em janeiro.

Guanipa deixa a prisão na manhã de domingo, depois de quase oito meses detido desde maio de 2025. Pouco depois do meio-dia, seu filho, Ramón, anuncia a libertação na rede X: “Anuncio que meu pai, Juan Pablo Guanipa, foi libertado há poucos minutos”. O próprio opositor divulga um vídeo em que aparece visivelmente magro, mas em tom desafiador. “Aqui estamos saindo em liberdade depois de um ano e 10 meses escondido, quase nove meses aqui detido. Hoje estamos saindo em liberdade. Há muito a falar sobre o presente e o futuro da Venezuela. Sempre com a verdade à frente”, afirma.

À noite, o dia vira outro. No bairro Los Chorros, zona leste de Caracas, por volta do fim da tarde, cerca de dez homens armados, vestidos à paisana, chegam em quatro veículos e o levam à força, segundo a família e a liderança opositora. Ramón, novamente, recorre às redes. “Era um grupo de aproximadamente 10 pessoas não identificadas (…). Exigimos PROVA DE VIDA imediata e sua libertação”, registra na conta oficial do pai no X.

A narrativa do sequestro ecoa com rapidez. María Corina Machado, líder da oposição e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, publica um alerta: “Há poucos minutos, Juan Pablo Guanipa foi sequestrado no bairro Los Chorros, em Caracas. Homens fortemente armados, vestidos à paisana, chegaram em quatro veículos e o levaram à força. Exigimos sua libertação imediata”. O partido Primeiro Justiça, ao qual ele é filiado, responsabiliza diretamente a cúpula do governo interino. Em comunicado no X, acusa “órgãos repressivos da ditadura” e cita nominalmente Delcy Rodríguez, Jorge Rodríguez e Diosdado Cabello por qualquer dano à vida do opositor.

Horas depois, a Procuradoria-Geral tenta impor outra versão. Em nota oficial, admite que Guanipa está novamente sob custódia estatal e diz ter pedido a um tribunal a revogação da medida cautelar que permitira sua saída da prisão. Alega “descumprimento das condições impostas”, sem informar quais eram essas condições, e afirma ter solicitado que ele passasse a um regime de prisão domiciliar. Em casos semelhantes, juízes venezuelanos costumam proibir entrevistas e aparições públicas, algo que Guanipa faz tão logo deixa a cela.

Crise de direitos humanos se aprofunda após eleições de 2024

A história recente de Guanipa se confunde com o endurecimento da repressão na Venezuela desde as eleições presidenciais de julho de 2024. Naquele pleito, o Conselho Nacional Eleitoral declara Nicolás Maduro vencedor sem divulgar dados detalhados. A oposição contesta, apresenta atas de votação que, segundo afirma, comprovam a vitória de Edmundo González e denuncia fraude. A reação oficial é a força: de acordo com a ONG Foro Penal, pelo menos 1.800 pessoas são presas nos dias seguintes.

Guanipa entra na clandestinidade após a votação, em meio à perseguição a dirigentes ligados ao comando de campanha de María Corina Machado. Ele é capturado em maio de 2025, dois dias antes das eleições regionais e legislativas. O então ministro do Interior, Diosdado Cabello, transforma a prisão em peça de propaganda, exibindo em coletiva de imprensa um vídeo do momento em que agentes o localizam e o levam. É o auge da chamada “Operação Tun Tun”, ofensiva de segurança usada em anos anteriores contra políticos e ativistas acusados de organizar “atos desestabilizadores”.

O quadro muda parcialmente em 3 de janeiro de 2026, quando os Estados Unidos lançam um ataque ao território venezuelano. Na intervenção militar, mais de 100 pessoas morrem, segundo números do governo, e Maduro é capturado e levado a Nova York para ser julgado por narcotráfico. A vice Delcy Rodríguez assume como presidente interina e tenta sinalizar distensão: afirma, dias atrás, que mais de 600 prisioneiros são libertados após a operação. A ONG Foro Penal contesta e aponta inflação nos números.

Os dados da organização mostram outra escala. Até 8 de janeiro, 158 detidos haviam sido soltos. Em 26 de janeiro, saem outras 110 pessoas. Neste domingo, somam-se Guanipa e pelo menos mais 35 libertações já verificadas, segundo a entidade. Entre os que deixam a cadeia estão figuras centrais do entorno de María Corina, como o advogado Perkins Rocha, da equipe jurídica da líder opositora, preso desde agosto de 2024; a secretária política Dignora Hernández; e a coordenadora María Oropeza, chefe do comando ConVenezuela no estado de Portuguesa. Também ganham a rua Luis Tarbay, responsável pelas equipes internacionais do comando, e Catalina Ramos, coordenadora nacional de associações cidadãs do Vente Venezuela.

A libertação de tantos nomes próximos a María Corina surge como gesto de apaziguamento em meio à pressão internacional por respeito a direitos humanos. A volta de Guanipa à prisão, em questão de horas, vai na direção oposta. O episódio reforça a percepção de que o aparelho de segurança e justiça mantém autonomia para agir contra adversários políticos, mesmo em um cenário de transição forçada e sob forte escrutínio externo.

Pressão interna e externa aumenta sobre governo interino

O caso de Guanipa produz reação imediata entre opositores, organizações de direitos humanos e governos estrangeiros que já acompanham de perto a situação venezuelana desde as eleições contestadas de 2024. A cena de dez homens encapuzados, em carros sem identificação, capturando um ex-deputado poucas horas após sua saída da prisão, cristaliza o dilema central da transição: quem, de fato, controla a força no país.

Para a oposição, o recado é claro. A liberdade concedida a presos políticos é reversível, condicional e sujeita a punições sumárias se houver qualquer gesto de desafronta ao poder estabelecido. Para a população, a mensagem é ainda mais direta. Ao reter figuras conhecidas, o Estado mostra a qualquer cidadão que críticas públicas, participação em campanhas ou simples associação a partidos opositores podem levar não apenas à prisão, mas ao desaparecimento temporário em operações sem transparência.

No plano internacional, a nova detenção alimenta dúvidas sobre a capacidade de Delcy Rodríguez de cumprir eventuais compromissos com organismos multilaterais e governos que pressionam por eleições limpas e anistia ampla. A insistência da Procuradoria em justificar a captura de Guanipa com base em descumprimento de medidas cautelares, sem explicar quais normas teriam sido rompidas, dificulta qualquer narrativa de normalização institucional.

A ausência de informações oficiais sobre o local de custódia e o estado de saúde do ex-deputado aumenta a tensão. Familiares e aliados exigem prova de vida. Entidades como a Foro Penal reúnem dados, tentam localizar o preso e preparam novos relatórios para instâncias internacionais. A cada hora sem respostas, cresce o risco de que o episódio se transforme em novo ponto de ruptura entre o governo interino e a oposição organizada.

Incerteza sobre Guanipa simboliza futuro indefinido da Venezuela

Os próximos dias tendem a concentrar pressão coordenada de partidos opositores, organizações de direitos humanos e governos estrangeiros pela apresentação de Juan Pablo Guanipa a um tribunal e pela garantia de acesso de advogados e familiares. A Procuradoria, se mantiver a versão de descumprimento de medidas cautelares, será cobrada a explicar com precisão quais regras foram violadas e por que recorreu a uma operação de captura em moldes que a própria oposição descreve como sequestro.

O desfecho desse caso ultrapassa a biografia de um político experiente. A forma como o Estado lida com a nova detenção ajudará a definir se a Venezuela caminha para uma abertura controlada, ainda que limitada, ou se consolida um padrão em que concessões pontuais de liberdade servem apenas para reforçar a capacidade de intimidação. Enquanto não houver resposta clara sobre onde está Juan Pablo Guanipa e sob quais condições ele se encontra, a pergunta que paira sobre Caracas continua a mesma: quem, afinal, está disposto a abrir mão do poder que as armas ainda garantem.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *