Operação Pseudo Cacique mira aliança entre ADA e CV na Zona Oeste
Polícias Civil e Militar do Rio deflagram, por volta de 10 de abril de 2026, a Operação Pseudo Cacique e prendem seis suspeitos ligados à ADA e ao Comando Vermelho na Zona Oeste. A ação conjunta mira a aliança entre as facções, apontada como motor da expansão do crime organizado na região.
Aliança criminosa transforma Zona Oeste em rota estratégica
A operação nasce de uma preocupação antiga dos investigadores: a costura de uma parceria entre Amigos dos Amigos (ADA) e Comando Vermelho (CV) em áreas da Zona Oeste. Esse eixo passa a ser visto como uma das principais rotas de avanço territorial das facções, com reflexo direto em disputas por pontos de venda de drogas, cobrança de extorsões e aumento da circulação de armas pesadas em bairros populosos.
Delegados da Polícia Civil e oficiais da PM descrevem, nos bastidores, um mapa em mudança acelerada. Comunidades antes dominadas por grupos menores passam a ser alvo de um consórcio entre ADA e CV, que soma logística, armas e dinheiro. “Não é uma ação isolada, é um projeto de expansão”, resume um investigador, sob reserva. Segundo ele, a Pseudo Cacique tenta interromper essa curva de crescimento antes que novas áreas fiquem sob controle direto das facções.
As prisões ocorrem em ações simultâneas, em pelo menos três pontos da Zona Oeste, com uso de equipes de inteligência, viaturas e apoio de unidades especializadas. O foco recai sobre suspeitos apontados como elos de ligação entre chefes já presos e frentes locais do tráfico. A avaliação interna é que, sem essa ponte, a aliança perde capacidade de coordenação diária, inclusive para o transporte de drogas e armas de favelas mais antigas para áreas em expansão.
Os inquéritos que dão base à operação correm há meses e reúnem depoimentos, escutas autorizadas pela Justiça e cruzamento de dados de telefones e veículos. Relatórios da inteligência da segurança pública indicam aumento expressivo de movimentação criminosa na região desde 2024, com crescimento de tiroteios e de queixas de moradores sobre ações de milicianos e traficantes. A Pseudo Cacique surge como resposta a esse cenário, com a escolha deliberada de unir, no campo, as duas principais forças policiais do estado.
Impacto imediato e disputa por território
A prisão dos seis suspeitos não encerra a aliança entre ADA e CV, mas reduz, ao menos no curto prazo, a capacidade operacional das facções na Zona Oeste. Investigadores afirmam que parte dos detidos atuava como articuladora de acordos de cessar-fogo, distribuição de lucros e compra de armamento. “Essas pessoas não aparecem nas fachadas dos morros, mas decidem quem controla cada rua”, diz um oficial da PM que acompanha a operação.
O cálculo das forças de segurança é que a retirada desses intermediários tende a travar negociações e atrapalhar o fluxo de ordens entre chefes e executores. Esse gargalo pode resultar em menos incursões armadas e menor pressão imediata sobre comunidades específicas. Em bairros onde a presença ostensiva das facções vinha crescendo nos últimos dois anos, a expectativa é de redução de confrontos e de retomada gradual de espaços públicos antes dominados por olheiros e barricadas improvisadas.
Moradores relatam alívio, mas também cautela. Uma comerciante da região, que prefere não se identificar, descreve a mudança de clima nas últimas semanas. “A gente sente quando o movimento deles aumenta. Vem mais moto, vem mais homem armado. Agora parece que deu uma segurada, mas ninguém aqui acha que acabou”, afirma. O depoimento sintetiza a percepção de que cada grande operação produz uma trégua temporária, sem garantia de estabilidade duradoura.
Analistas de segurança ouvidos pela reportagem lembram que a Zona Oeste se consolida, há pelo menos uma década, como fronteira disputada entre tráfico e milícias. A presença articulada de ADA e CV aprofunda essa disputa, ao levar para a região métodos de controle social já testados em outras áreas do Rio, como cobrança de taxas obrigatórias e proibição de circulação após determinados horários. Nesse contexto, a Pseudo Cacique representa tanto um freio à expansão territorial quanto um recado político: o Estado tenta reafirmar, com ações coordenadas, o controle sobre um pedaço estratégico da cidade.
Reação das facções e próximos passos na segurança
As forças de segurança trabalham com a hipótese de reação das facções nos próximos dias. Movimentos de retaliação, migração de lideranças para outras áreas e tentativas de recompor a cadeia de comando estão no radar. A experiência de operações anteriores indica que mudanças de território costumam se refletir em novas rotas de fuga, acordos táticos entre grupos rivais e reacomodação de interesses em bairros vizinhos.
Internamente, a avaliação é que a Pseudo Cacique precisa ser acompanhada de um pacote de ações contínuas, não apenas de incursões pontuais. Policiais envolvidos na operação falam em manter por pelo menos 90 dias uma rotina de monitoramento reforçado, com presença ostensiva em áreas sensíveis e uso ampliado de inteligência para rastrear movimentações financeiras das facções. A coordenação entre Civil e Militar, testada agora na Zona Oeste, tende a ser replicada em outras regiões onde alianças semelhantes começam a surgir.
Especialistas defendem que o efeito duradouro da operação depende de um conjunto mais amplo de políticas. Sem investimentos consistentes em investigação, controle de fronteiras e ações sociais nos territórios, o risco é ver a aliança entre ADA e CV substituída por novos arranjos criminosos. “A operação é um passo importante, mas não é o fim do jogo. O crime organizado se adapta rápido”, avalia um pesquisador de segurança pública da UFRJ.
Para quem vive na Zona Oeste, o horizonte imediato mistura expectativa e desconfiança. A presença de viaturas e patrulhas aumenta, e relatos de tiroteios tendem a cair nos primeiros dias, segundo dados de operações anteriores. Moradores esperam que a sensação de segurança se traduza em rotina mais previsível, com crianças voltando a circular em praças e comerciantes reabrindo em horários normais. A pergunta que permanece é se o Estado conseguirá transformar a ofensiva pontual da Pseudo Cacique em política permanente de retomada territorial ou se a região voltará, em poucos meses, a servir de laboratório para novas alianças do crime organizado.
