Operação com 200 PMs e blindados ocupa Complexo da Maré
A Polícia Militar do Rio de Janeiro mobiliza cerca de 200 agentes e veículos blindados em uma grande operação no Complexo da Maré nesta quinta-feira (26). A ação mira o grupo criminoso Terceiro Comando Puro, que domina a região há anos e é apontado como responsável por sucessivas ondas de violência na zona norte da capital.
Confronto em área estratégica do crime organizado
O dia começa com o barulho dos primeiros disparos ecoando entre as ruas estreitas da Maré. Moradores correm para dentro de casa enquanto policiais avançam em comboio, apoiados por carros blindados e unidades especializadas. O alvo oficial é o núcleo armado do Terceiro Comando Puro, facção que controla o complexo e usa o território como corredor de armas, drogas e rota de fuga para outras partes da cidade.
A presença de 200 agentes em uma única operação mostra o peso que a Maré tem no mapa do crime do Rio. O conjunto de 16 comunidades, às margens da Linha Vermelha, concentra cerca de 130 mil moradores e já foi palco de algumas das ações mais letais da história recente da segurança pública fluminense. A PM tenta combinar ocupação de pontos estratégicos, busca de suspeitos e apreensão de armamento pesado, em um movimento que pretende enfraquecer a estrutura da facção.
As primeiras horas são marcadas por relatos de tiroteios prolongados em diferentes pontos do complexo. Blindados abrem caminho pelas vias principais, enquanto equipes menores entram em becos e acessos onde a circulação de viaturas convencionais é impossível. A orientação, segundo oficiais ouvidos na condição de reserva, é manter a pressão contínua para reduzir a capacidade de reação do grupo criminoso. “A Maré é um ponto-chave. Se o Estado recua aqui, a facção ganha espaço em todo o entorno”, afirma um ex-comandante de batalhão da zona norte.
A ação mobiliza ainda unidades de operações especiais, equipes de inteligência e suporte aéreo para monitoramento. A estratégia usa tecnologia de comunicação e dados de investigações recentes sobre a movimentação de chefes locais. A PM tenta evitar que líderes escapem por rotas secundárias que conectam a Maré a outras favelas da cidade, um padrão observado em operações anteriores.
Disputa por território e efeitos sobre a população
O Terceiro Comando Puro domina o Complexo da Maré há mais de uma década e disputa áreas vizinhas com facções rivais, como o Comando Vermelho. O território funciona como vitrine da capacidade de fogo da facção e como ponto de arrecadação de milhões de reais por mês com tráfico de drogas, cobrança de taxas ilegais e controle do comércio informal. Quebrar esse ciclo, segundo especialistas em segurança, é o objetivo político e operacional da operação desta quinta.
Cada avanço da polícia, porém, se traduz em rotina interrompida para quem vive ali. Escolas públicas avaliam suspender aulas, postos de saúde reduzem atendimento e motoristas evitam acessar a Linha Vermelha durante os momentos de confronto. “A gente não aguenta mais acordar com tiro. A operação vem e vai, mas o medo fica”, relata uma moradora, de 32 anos, que pede para não ter o nome divulgado por segurança.
A operação acontece em um momento de pressão sobre o governo estadual por resultados concretos na redução de homicídios e roubos. Dados oficiais dos últimos anos mostram picos de violência em áreas dominadas por facções, com impacto direto em toda a cidade. A reação do Executivo é apostar em grandes operações de choque, com alto número de agentes, uso de blindados e reforço de unidades treinadas para atuar em áreas de risco.
Analistas ouvidos por reportagens recentes alertam, no entanto, que ações pontuais dificilmente mudam o quadro sozinhas. O histórico da Maré ilustra esse dilema. Em 2014, o complexo recebeu uma ocupação das Forças Armadas antes da Copa do Mundo, em uma tentativa de garantir segurança em um dos principais acessos ao aeroporto internacional. A presença militar dura meses, mas a facção retoma o controle pouco depois. A operação atual, ainda que mais cirúrgica, enfrenta o mesmo desafio estrutural: como manter o controle estatal quando os blindados deixam a comunidade.
O impacto imediato, segundo oficiais ouvidos sob reserva, tende a ser uma redução temporária de confrontos abertos e de circulação ostensiva de criminosos armados. O efeito mais duradouro depende da capacidade de prender lideranças, apreender armas de guerra e atingir o caixa da facção. Sem isso, a tendência é que o grupo se reorganize, ainda que com perdas no curto prazo.
Pressão por continuidade e resultado concreto
O governo estadual aposta na operação da Maré como vitrine de política de segurança. A mobilização de 200 policiais, com apoio de tecnologia e inteligência, reforça o discurso de enfrentamento ao crime organizado. A mensagem é dirigida à opinião pública, mas também às próprias facções, que testam diariamente os limites da presença do Estado em territórios periféricos.
A operação cria um ambiente de expectativa nas comunidades do entorno. Moradores de bairros vizinhos, como Ramos, Bonsucesso e Penha, observam o movimento de blindados e o som dos helicópteros e esperam, ao menos, alguns dias de menor circulação de criminosos armados. Ao mesmo tempo, cresce o temor de represálias, como toques de recolher informais e confrontos em áreas de passagem.
A médio prazo, o desafio das autoridades é transformar a operação de hoje em política consistente. Especialistas defendem a combinação de ações de inteligência, presença policial permanente e serviços públicos básicos, como escolas e postos de saúde funcionando de forma regular. Sem essa continuidade, a cada grande operação segue-se um período de reacomodação do crime, com troca de chefias, novos acordos e retomada do controle armado.
A PM não divulga prazo para o fim da ação, nem detalha todos os alvos para não comprometer as investigações em andamento. A expectativa é que balanços preliminares, com prisões, apreensões e eventuais baixas, sejam apresentados ainda nas próximas horas. Moradores, por sua vez, monitoram aplicativos de mensagens e redes sociais em busca de informação confiável para decidir se saem de casa, se mandam os filhos para a escola, se conseguem trabalhar.
O Complexo da Maré volta a ser palco de um embate que o Rio conhece bem: de um lado, o Estado tenta afirmar sua autoridade com força e aparato; de outro, uma facção que se consolidou em anos de ausência de políticas públicas. A operação desta quinta pode redesenhar momentaneamente o mapa do crime na zona norte, mas deixa no ar uma pergunta antiga: quem ocupará, de forma duradoura, o espaço que hoje se disputa à bala.
