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Ofensiva de Trump agrava crise em Cuba e encarece vida na ilha

Uma nova ofensiva político-econômica do governo Donald Trump contra Havana aprofunda, no início de 2026, a já crônica crise em Cuba. A escalada de sanções pressiona o sistema energético, encarece o transporte público e multiplica a escassez de produtos básicos, atingindo em cheio o dia a dia dos cubanos.

Pressão externa reacende velha crise interna

Nas ruas de Havana, a crise aparece nas pequenas cenas. O cubano que hoje vive no Brasil e volta à ilha a cada poucos meses já não viaja com mala cheia de lembranças. Ele divide a bagagem em duas partes: meia dúzia de roupas para si e uma mala inteira com itens de higiene, remédios simples, analgésicos, sabonetes, pastas de dente e fraldas. “Se eu não levo, minha família fica sem”, conta, ao descrever filas de até duas horas para conseguir um antibiótico básico.

Menos de um ano separa sua última visita do retorno agora, no começo de 2026. Nesse intervalo, a mudança é visível. Apagões mais frequentes, ônibus lotados e mais caros, prateleiras vazias em mercados de bairro e preços em pesos que sobem semana a semana. A deterioração coincide com uma guinada na política dos Estados Unidos sob Trump, que retoma e amplia sanções suspensas ou atenuadas em gestões anteriores.

Desde o segundo semestre de 2025, Washington restringe ainda mais o acesso de Cuba a combustíveis e crédito externo, de acordo com diplomatas na região. O governo americano endurece regras para navios petroleiros que atracam em portos cubanos e amplia penalidades a empresas de países terceiros que negociam com Havana. O impacto aparece nos números: segundo autoridades locais, a geração elétrica disponível em janeiro de 2026 é cerca de 30% menor do que a média de três anos atrás.

A escassez de energia derruba o transporte público, fortemente dependente de diesel e de uma infraestrutura já precária. Em algumas cidades, o intervalo entre ônibus que antes era de 15 minutos passa a superar uma hora. Em Havana, o preço do bilhete em linhas intermunicipais sobe mais de 50% desde meados de 2025, segundo estimativas de economistas consultados por entidades independentes, num país em que o salário médio oficial gira em torno de US$ 35 por mês.

Vida mais cara, filas maiores e êxodo em alta

A ofensiva de Trump atinge um país que já atravessa, há ao menos cinco anos, a pior crise desde o chamado “período especial” dos anos 1990, após o colapso da União Soviética. A diferença é que, agora, a crise encontra uma população mais conectada, com familiares espalhados pelo exterior e acesso, ainda que irregular, a internet e redes sociais. A resposta imediata vem da diáspora cubana, que amplia o envio de remessas e transforma cada viagem em operação de ajuda humanitária informal.

O comerciante que vive em São Paulo calcula que, em um único voo, leva o equivalente a R$ 2 mil em produtos básicos, todos comprados em atacarejos brasileiros. “Desodorante, absorvente, pomada para assadura de bebê, remédio para pressão. Coisas simples, que lá sumiram ou ficaram absurdamente caras”, relata. Em Cuba, um frasco de shampoo importado pode consumir até 10% do salário mensal, enquanto um pacote de fraldas descartáveis chega a custar o dobro do que custava em 2024.

A crise energética também reconfigura o mapa social das cidades. Com menos ônibus e tarifas mais altas, trabalhadores passam a caminhar longas distâncias ou a disputar caronas em caminhões adaptados, alternativa improvisada pelo Estado e por motoristas particulares. O trajeto para o trabalho, que antes levava 40 minutos, passa facilmente de duas horas. Quem mora na periferia, longe do centro de Havana, sente mais. O custo do deslocamento consome uma fatia maior do orçamento familiar, empurrando parte da população para a economia informal.

Economistas ouvidos por organismos internacionais estimam que, somados os efeitos internos e externos, a renda disponível de muitas famílias urbanas cai entre 15% e 25% em um ano. Ao mesmo tempo, cresce a pressão migratória. Em 2025, o fluxo de cubanos que buscou chegar aos Estados Unidos por mar ou pela fronteira com o México já supera em dezenas de milhares o registrado em 2023, tendência que segue firme no início de 2026. A nova rodada de sanções amplia o sentimento de que, para muitos, a saída está fora da ilha.

Diplomacia em tensão e futuro incerto

Em Havana, a narrativa oficial acusa Washington de “estrangular” a economia e de usar a crise como instrumento político regional. Nos bastidores diplomáticos, governos latino-americanos discutem, desde o fim de 2025, formas de contornar parte do bloqueio, seja por meio de ajuda humanitária direta, seja por acordos energéticos emergenciais. Até agora, as iniciativas avançam devagar, travadas por pressões dos EUA e por limitações fiscais de países vizinhos.

Especialistas em relações internacionais alertam que a estratégia de Trump pode produzir efeitos além de Cuba. O recrudescimento das sanções reacende o debate sobre soberania e intervenção na América Latina e abre espaço para que outros atores, como Rússia e China, tentem ampliar influência na região. Ao mesmo tempo, cresce o risco de novos episódios de protesto em cidades cubanas, semelhantes aos vistos em 2021, quando milhares saíram às ruas contra apagões e falta de comida.

Organizações humanitárias já cobram, em relatórios enviados a organismos multilaterais, a criação de corredores específicos para medicamentos e alimentos, com isenções temporárias de sanções. Até aqui, não há consenso entre os países com assento permanente nos principais fóruns globais. Enquanto isso, o dono de bar no Brasil, a engenheira que emigrou para a Espanha e o estudante que trabalha em Lisboa seguem enchendo malas com produtos comuns em qualquer supermercado, mas raros em Havana.

No curto prazo, diplomatas avaliam que a situação tende a piorar antes de qualquer melhora perceptível. A economia da ilha continua dependente de importações de combustível e de divisas vindas do turismo e das remessas, setores diretamente atingidos pelo endurecimento americano. Resta saber até quando a população suporta mais uma fase de aperto e se a pressão combinada, interna e externa, empurrará o governo cubano a mudanças estruturais ou apenas aprofundará um impasse que já se arrasta há mais de meio século.

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