Óculos Ray-Ban Meta acendem alerta sobre privacidade e assédio
Os óculos inteligentes Ray-Ban Meta se tornam símbolo de uma nova fronteira de vigilância cotidiana em 2026, com gravações secretas e exposição de mulheres em redes sociais. O brasileiro Arnaldo Campos, que aborda desconhecidas em Portugal usando a câmera embutida na armação, vira caso emblemático do uso abusivo da tecnologia. A prática acende um debate urgente sobre direito de imagem, assédio e limites da privacidade em ambientes públicos.
Da paquera gravada à vitrine global
Arnaldo Campos caminha por ruas, praças, praias e cafés de Lisboa com um Ray-Ban Meta no rosto e um roteiro pronto na cabeça. Tem 27 anos, mais de 175 mil seguidores somados em Instagram e TikTok e um negócio montado em cima de conversas que as mulheres acreditam ser casuais. Elas respondem onde moram, quanto tempo ficam em Portugal, se gostam de vinho, se topam encontrá-lo à noite. Não sabem que tudo está sendo filmado por uma câmera quase invisível na armação dos óculos escuros.
Os vídeos, sempre em inglês e voltados a turistas estrangeiras, chegam às redes horas depois. Surgem editados, com legendas e trilhas, sob a hashtag #rizz, gíria que remete a carisma sexual. Servem de vitrine para cursos de “desenvolvimento pessoal e sedução” que Campos vende por até 3 mil euros em mentorias e pacotes mais completos, além de um ebook de 10 euros. O conteúdo circula para milhares de homens; as protagonistas raramente sabem que estão ali.
O caso de Campos não é isolado. Desde o lançamento dos Ray-Ban Meta no fim de 2023, o produto ganha tração nos Estados Unidos em 2025, com a segunda geração de óculos e câmera aprimorada. Estimativas do setor falam em cerca de 2 milhões de unidades vendidas até agora, com planos de produzir 10 milhões de pares até o fim de 2026. Um par não sai por menos de 300 dólares nos EUA, algo em torno de 3 mil reais no Brasil.
A aposta da Meta, dona de Instagram, WhatsApp e Facebook, é transformar os smart glasses em uma plataforma de computação tão cotidiana quanto o celular. O Ray-Ban Meta grava vídeo e áudio, atende ligações, envia mensagens, oferece rota por GPS, faz tradução simultânea e reconhece monumentos. Tudo a partir de um aplicativo no celular ou de uma pulseira que capta movimentos da mão e permite controlar o sistema sem tirar o aparelho do rosto.
O segredo do sucesso está na camuflagem. Os óculos parecem um Wayfarer comum, com lentes de grau ou de sol, para uso em casa, no trabalho ou na escola. A câmera discreta fica em uma das pontas da armação. O único sinal de que há gravação em curso é um pequeno LED na lateral, que acende quando a filmagem começa. Usuários logo descobrem gambiarras para esconder a luz com adesivos ou pequenas mutilações no aparelho. Vários kits para burlar o LED são vendidos na internet por cerca de 60 dólares.
Quando a piada vira constrangimento
Os óculos discretos alimentam um novo gênero de vídeos em primeira pessoa. Muitos giram em torno de pegadinhas e situações constrangedoras. Funcionários de mercados, lotéricas e redes de fast food aparecem desprevenidos diante de clientes que usam os smart glasses como câmera escondida. Em um dos vídeos de maior alcance no Brasil, um criador que se apresenta como gg_dz7oficial compra um pepino, um preservativo e um lubrificante em um supermercado. A graça está no esforço da operadora de caixa para conter o riso. O vídeo soma 35 milhões de visualizações; não há clareza se ela sabia que estava sendo filmada.
Outros conteúdos cruzam a linha do ridículo para a intimidação. Um influenciador carioca, Guilherme Angelicci, entra pela janela de um drive-thru e invade a cozinha do restaurante, enquanto funcionários se desesperam. Em clínicas de massagem nos Estados Unidos, homens perguntam diante dos óculos se haverá “final feliz” ao fim da sessão. A câmera registra o constrangimento de profissionais que tentam manter a compostura.
Elias Bitencourt, professor de Design na Universidade do Estado da Bahia e pesquisador de tecnologias vestíveis, vê na prática uma combinação perigosa de entretenimento e vigilância. “A dimensão da privacidade é agressiva nesse caso, porque é possível gravar pessoas com mais facilidade”, afirma. Para ele, cresce a sensação de que qualquer interação em público pode virar conteúdo sem aviso, aprofundando a confusão entre o que é público e o que deveria continuar íntimo.
As vítimas começam a reagir. Em maio, a polícia de Barcelona detém um homem que grava mais de 300 mulheres com smart glasses e comercializa aulas de sedução online. Ele cobra cerca de 3 mil euros por pacotes de treinamento e vende acesso às gravações completas. O caso ajuda a empurrar a discussão para fora das redes: a linha de cruzeiros MSC anuncia, em dezembro, a proibição de smart glasses nas áreas comuns de seus navios.
No Brasil, o arcabouço jurídico existe, mas ainda não é testado em larga escala. O inciso X do artigo 5º da Constituição e o artigo 20 do Código Civil asseguram o direito de imagem e preveem indenização quando não há consentimento ou quando a exposição atinge a honra e a respeitabilidade da pessoa, ou serve a fins comerciais. Quem autoriza o uso de imagem pode voltar atrás e exigir a retirada do conteúdo, mesmo depois da publicação.
Leis atrasadas, dados adiantados
Enquanto as imagens viralizam, a regulação corre atrás. Portugal, onde Arnaldo Campos grava suas abordagens, proíbe a captação de pessoas sem consentimento mesmo em locais públicos, com pena de até um ano de prisão. Em conversa por mensagens, Campos admite que só pede autorização “em alguns casos” e minimiza o problema: “Na Europa são poucas as pessoas que se importam”, diz. Quando alguém reclama, afirma, “eu simplesmente apago”. Um de seus vídeos mais populares, com duas turistas sul-coreanas, passa de 4,4 milhões de visualizações no TikTok.
Nos Estados Unidos, o debate se mistura a regras locais sobre gravação de áudio e vídeo em áreas públicas. A americana Toluwa Omitowoju, de 31 anos, descobre que foi filmada por um Ray-Ban Meta na sala VIP de um aeroporto. O homem a aborda, elogia, puxa conversa, retira os óculos da frente dos olhos e a deixa à vontade. Algum tempo depois, ela vê em seu perfil dezenas de vídeos idênticos, sempre marcados com #rizz. “Pedi para ele não postar o vídeo, mas ele não só ignorou o pedido como disse que a gente deveria fazer uma parte 2”, relata. O vídeo com ela se espalha tanto que amigos passam a enviar o conteúdo repetidamente. “Eu me senti com a privacidade invadida, completamente desrespeitada.”
Além das cenas espalhadas pela internet, os óculos abrem uma frente silenciosa de coleta de dados. Os termos de uso do Ray-Ban Meta autorizam a empresa a registrar ações feitas com o aparelho, como gravações de voz e vídeo. “Se dentro dos apps já temos uma captação granular de dados, imagine nos óculos inteligentes, que filmam os arredores?”, pergunta Bitencourt. “Eles talvez possam tratar toda a sua paisagem como um feed.”
A Meta responde com orientações de bom comportamento. Pede que usuários respeitem a lei, evitem assédio, parem de filmar quando alguém disser não. Destaca o LED como aviso de gravação e afirma que o sistema bloqueia o registro quando a luz é obstruída. Na prática, as modificações caseiras e o desconhecimento geral sobre o próprio produto reduzem o alcance dessas salvaguardas. A empresa também reforça que a responsabilidade final é de quem usa os óculos, não de quem os fabrica.
O embate, agora, migra para o campo político e regulatório. No Brasil, o avanço da inteligência artificial já mobiliza o Congresso, que aprova projetos às pressas e sob críticas de falta de debate público. Especialistas acreditam que os smart glasses podem se tornar o próximo ponto de atrito, com pressão de organizações de direitos civis por regras específicas para dispositivos vestíveis que gravam sem chamar atenção.
O que vem depois do susto
Os primeiros casos de abuso indicam o contorno do problema, mas não a solução. Bitencourt defende um tripé: legislação aplicada com rigor, educação digital ampla e tecnologias mais transparentes, com sinais de gravação que não possam ser contornados com um adesivo de 60 dólares. “Não é só porque temos um novo eletrônico que devemos começar do zero”, afirma. “Podemos reforçar o que já existe contra essas infrações.”
Omitowoju, que também usa um Ray-Ban Meta para registrar paisagens urbanas, diz que não pretende abandonar o aparelho, mas quer regras claras. Vê na própria experiência uma espécie de alerta precoce para o que pode se tornar rotina em aeroportos, bares, praias e transportes públicos. “Se hoje já é difícil tirar um vídeo do ar, imagine quando milhões de pessoas tiverem esses óculos.”
A projeção de vendas da Meta indica que o encontro entre tecnologia, desejo de audiência e lacunas legais ainda está no começo. Governos discutem novas normas, plataformas revisam políticas internas e empresas de cruzeiros e outros serviços começam a desenhar zonas livres de smart glasses. Entre quem aperta o botão de gravar e quem só quer atravessar a rua em paz, resta a pergunta que ainda não encontra resposta unânime: quanto de nós estamos dispostos a entregar, sem perceber, em troca de um conteúdo de 30 segundos no feed alheio?
