Objeto cósmico intriga astrônomos com pulsos de rádio há 30 anos
Astrônomos identificam na Via Láctea um objeto raro, batizado de GPM J1839-10, que emite sinais de rádio regulares há mais de 30 anos. O comportamento desafia as teorias atuais sobre estrelas ultramagnéticas.
Um farol lento no meio da galáxia
No meio do disco da Via Láctea, a cerca de 15 mil anos-luz da Terra, um ponto discreto no céu se comporta como um farol cósmico fora do padrão. A cada 22 minutos, o objeto liga por cerca de cinco minutos e envia um feixe de ondas de rádio que cruza o espaço e chega aos radiotelescópios na Terra décadas depois de ter sido emitido.
Os sinais aparecem em observações desde a década de 1980, mas só agora pesquisadores conseguem conectar todas as peças e mostrar que se trata de uma única fonte, persistente e estranha. “É como encontrar uma luz piscando lentamente em um arquivo esquecido de fitas antigas”, resume, em linguagem acessível, uma pesquisadora doutora em física teórica de partículas que se dedica a explicar ciência para crianças.
O objeto recebeu o nome de GPM J1839-10, uma sigla técnica que indica sua posição no céu. Diferente de estrelas comuns, ele não brilha de forma constante na luz visível e só se revela nas frequências de rádio. Essa assinatura discreta ficou escondida em meio a ruídos e registros espalhados por décadas de observações, feitas por instrumentos em diferentes países.
A confirmação vem de uma combinação de dados novos e antigos, reanalisados com técnicas mais modernas. Equipes usam radiotelescópios capazes de monitorar grandes áreas do céu por longos períodos, algo que não era trivial quando os primeiros sinais aparecem, há mais de 40 anos. O resultado é um retrato detalhado de um comportamento que não se encaixa nas categorias tradicionais de objetos cósmicos.
Magnetar fora do manual
Os indícios apontam para um tipo muito raro de estrela conhecida como magnetar. Esse tipo de objeto nasce quando uma estrela muito massiva morre, colapsa e comprime sua matéria em um núcleo extremamente denso, com um campo magnético milhões de bilhões de vezes mais forte que o da Terra. Em condições normais, magnetars giram rápido, em segundos, e emitem pulsos de energia muito curtos.
O GPM J1839-10 foge dessa regra. Em vez de pulsos rápidos, exibe um ciclo lento: 22 minutos entre um “acender” e outro, com cerca de cinco minutos de emissão intensa de rádio. Para os modelos atuais, uma estrela tão magnetizada e tão lenta não deveria conseguir produzir sinais fortes e regulares por tanto tempo. “Se os cálculos estão certos, esse magnetar está nos dizendo que nossa teoria ainda está incompleta”, admite a pesquisadora.
A descoberta interessa diretamente a quem estuda explosões rápidas de rádio, fenômenos brevíssimos que surgem como clarões intensos no céu e desaparecem em milissegundos. Essas explosões, conhecidas pela sigla em inglês FRB, intrigam a astronomia há pouco mais de uma década e já foram associadas a magnetars em alguns casos. Um objeto que pulsa devagar, de forma previsível e por décadas, pode funcionar como um laboratório natural para entender esses eventos extremos.
A comunidade científica vê no GPM J1839-10 um teste concreto para teorias sobre como campos magnéticos extremos interagem com o espaço ao redor. A forma como o objeto liga e desliga sugere mudanças periódicas em sua superfície ou em seu ambiente imediato, algo que pode obrigar físicos a ajustar equações usadas há anos. Modelos que pareciam consolidados passam a ser questionados a partir de um único ponto brilhando no rádio.
Dados antigos, perguntas novas
O caso reforça a importância de revisitar dados arquivados com novas ferramentas e ideias. Registros da década de 1980, feitos quando não existiam celulares, internet popular ou muitos dos telescópios modernos, ganham vida nova ao serem processados com softwares atuais. O que antes aparecia como sinal isolado e sem explicação se revela, com o tempo, como parte de um padrão regular que se repete há pelo menos três décadas.
Essa revisão sistemática de arquivos se torna um campo inteiro de pesquisa. Observatórios de rádio guardam petabytes de informação, e só uma fração foi examinada com o olhar de hoje. A descoberta do GPM J1839-10 mostra que fenômenos raros podem estar escondidos em meio a esse material, aguardando apenas quem formule a pergunta certa e a busque nos lugares certos.
Na prática, o achado direciona tempo de telescópio, verbas e colaborações internacionais para um novo tipo de alvo. Projetos que monitoram o céu em busca de explosões rápidas de rádio passam a incluir, em seus cálculos, a possibilidade de magnetars de rotação lenta. Grupos de física teórica trabalham para adaptar modelos de emissão de rádio e prever que outros sinais esse tipo de objeto poderia produzir, em diferentes frequências e escalas de tempo.
Laboratórios de ponta, que investem em supercomputadores para simular o interior de estrelas colapsadas, correm para incorporar o GPM J1839-10 em seus cenários. Cada nova simulação precisa explicar como um magnetar consegue sustentar pulsos regulares por mais de 30 anos, sem esgotar sua energia observável. A resposta pode afetar estimativas sobre quantos desses objetos existem na galáxia e qual é o papel deles na evolução da Via Láctea.
O que vem a seguir no estudo do GPM J1839-10
Os próximos passos incluem campanhas de observação coordenadas, com radiotelescópios em diferentes continentes, para acompanhar cada ciclo de 22 minutos do objeto. Astrônomos também buscam sinais em outras faixas do espectro, como raios X e luz visível, que possam revelar detalhes da superfície e do ambiente em torno do magnetar suspeito. Qualquer variação inesperada na intensidade ou na forma dos pulsos pode ser a pista que falta para encaixar o fenômeno em um novo quadro teórico.
O GPM J1839-10 se transforma, assim, em um caso de estudo de longo prazo. A cada cinco minutos de emissão, a estrela enigmática envia ao planeta um lembrete de que o Universo ainda guarda surpresas em arquivos antigos e em regiões pouco exploradas do céu. A pergunta que move agora a comunidade científica é direta: quantos outros faróis lentos, silenciosos e persistentes ainda passam despercebidos na imensidão da galáxia?
