O que a ciência já sabe sobre buracos negros, brancos e de minhoca
Buracos negros são realidade observada. Buracos brancos e de minhoca continuam presos ao papel. Em 24 de janeiro de 2026, o astrofísico Rodrigo Nemmen, da USP, traça essa fronteira entre fato e teoria.
O que é certeza no céu
Nemmen, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), fala à CNN Brasil em um momento em que o interesse por fenômenos extremos do universo cresce, guiado por imagens inéditas e filmes de ficção científica. Ele insiste em um ponto central: buracos negros não são mais especulação, mas objetos medidos, fotografados e acompanhados pela comunidade científica em diversos países.
Buracos negros concentram uma quantidade colossal de matéria em uma região minúscula do espaço. Essa compactação produz uma gravidade tão intensa que nada escapa, nem mesmo a luz. “Eles se tornam uma verdadeira prisão gravitacional”, define o pesquisador. Como a luz não consegue sair, o objeto aparece como uma região escura cercada por matéria aquecida ao redor.
A virada de percepção ocorre em 2019, com a divulgação da primeira imagem de um buraco negro pelo projeto internacional Event Horizon Telescope (EHT). O consórcio, que reúne dezenas de antenas espalhadas pela Terra, registra a chamada “sombra” do buraco negro, uma região escura recortada contra o brilho do gás em queda. A foto confirma previsões feitas décadas antes pela teoria da relatividade geral, proposta por Albert Einstein em 1915.
A segunda peça da comprovação vem das ondas gravitacionais. Desde 2015, detectores como o LIGO, nos Estados Unidos, registram sinais de colisões de buracos negros a bilhões de anos-luz de distância. Essas ondas são deformações minúsculas no tecido do espaço-tempo, que chegam à Terra como um eco distante de choques cósmicos violentos. Para Nemmen, a combinação da imagem direta em 2019 com a detecção recorrente dessas ondas torna a existência dos buracos negros “amplamente comprovada do ponto de vista observacional e experimental”.
Ao longo de 50 anos, a física desses objetos muda menos do que se imagina. Desde os anos 1970, teóricos elaboram um verdadeiro manual de instruções dos buracos negros, descrevendo como eles nascem, crescem e deformam o espaço ao redor. Hoje, telescópios medem massa, rotação e efeitos gravitacionais sobre estrelas e nuvens de gás vizinhas. Os dados seguem, com precisão impressionante, o que a relatividade geral prevê há décadas.
Buracos brancos e de minhoca: limites da ficção
Enquanto buracos negros acumulam evidências, buracos brancos permanecem sem qualquer sinal no céu. O nome sugere parentesco próximo, mas o parentesco é mais matemático do que físico. Em termos simples, um buraco branco seria o oposto de um buraco negro: em vez de engolir tudo, apenas expeliria matéria e energia, sem permitir que nada atravessasse seu limite de entrada.
A ideia nasce da extensão das mesmas equações que descrevem os buracos negros. Ao explorar soluções mais exóticas, físicos teóricos encontram configurações em que o tempo parece correr ao contrário, produzindo um objeto que só cospe conteúdo. “Chamar buraco branco de hipótese é até um elogio”, provoca Nemmen. Ele vê essas soluções mais como curiosidades matemáticas do que como candidatos reais no universo observável.
Buracos de minhoca ocupam um espaço semelhante, mas com apelo muito maior na cultura pop. Também derivados da relatividade geral, eles aparecem como túneis que conectam duas regiões distantes do espaço-tempo. Seriam, na prática, atalhos cósmicos que permitiriam chegar de um ponto a outro em menos tempo do que a luz levaria por um caminho direto. Séries como “Dark” e “Stranger Things” transformam essa noção em elemento de roteiro, ligando tempos, dimensões e realidades paralelas.
A imagem é sedutora: um plano representa um ponto do universo, outro plano indica uma região distante e o buraco de minhoca atua como túnel que fura o espaço entre os dois. Em uma comparação livre, o Abismo em “Stranger Things” poderia ser o plano de cima, a cidade de Hawkins o plano de baixo e o Mundo Invertido o corredor que une essas duas camadas. Na tela, personagens cruzam esse caminho em segundos. No laboratório, porém, não há qualquer evidência de que estruturas assim existam.
Nemmen reconhece o fascínio. “É uma ótima ideia que roteiristas e escritores usam para fazer os personagens viajarem rapidamente entre dois pontos do universo”, diz. Do ponto de vista científico, porém, faltam observações e sobram problemas. Muitos modelos exigem tipos de matéria com propriedades exóticas, como energia negativa em grande escala, algo jamais visto em condições naturais. Outros cenários apontam que esses túneis colapsariam antes que qualquer viagem fosse possível.
Por que essa diferença importa agora
A distinção entre o que já foi observado e o que permanece teórico ganha peso em uma época em que termos como “buraco de minhoca” circulam com facilidade em redes sociais e fóruns de discussão. Quando a ficção científica e o entretenimento oferecem respostas rápidas para mistérios do universo, a fronteira entre dado e especulação fica mais frágil. Ao ressaltar o status de cada conceito, Nemmen tenta blindar o debate público contra simplificações e teorias sem lastro.
Na prática, isso significa que buracos negros entram no orçamento de grandes observatórios, projetos de décadas e investimentos de bilhões de dólares. Eles ajudam a explicar a formação de galáxias, regulam o nascimento de estrelas e influenciam a evolução do cosmos em escalas de bilhões de anos. Já buracos brancos e de minhoca permanecem no campo das equações, úteis para testar limites de teorias, mas ainda distantes de aplicações concretas.
O trabalho de grupos como o do IAG-USP se concentra exatamente nessa linha tênue. De um lado, astrônomos usam dados de telescópios espaciais como Hubble e James Webb para encontrar buracos negros supermassivos escondidos no universo primitivo, a poucos milhões de anos após o Big Bang. De outro, físicos teóricos refinam modelos que tentam unir relatividade geral e mecânica quântica, na tentativa de descrever o que ocorre em escalas microscópicas perto do horizonte de eventos, a fronteira sem retorno de um buraco negro.
Nessa região extrema, as equações clássicas deixam de funcionar com segurança. A pesquisa avança por aproximações, simulações numéricas e novas ideias de física de partículas. Segundo Nemmen, a grande fronteira atual está justamente aí: entender como a gravidade se comporta quando partículas e campos quânticos entram em cena, algo que nenhuma teoria descreve de forma completa em 2026.
Próximos passos na exploração do desconhecido
Os próximos anos devem ampliar a distância entre a solidez dos dados sobre buracos negros e a incerteza em torno de buracos brancos e de minhoca. O Event Horizon Telescope prepara novas imagens, com resolução maior do que as divulgadas em 2019 e 2022, e tenta observar não só a “sombra”, mas também variações no brilho do gás em órbita, em escalas de minutos. Detectores de ondas gravitacionais passam por atualizações para registrar fusões menores, mais frequentes e mais distantes.
A USP e outras instituições brasileiras participam de redes internacionais que coletam e interpretam esses dados. O país integra colaborações que envolvem dezenas de centros de pesquisa e centenas de cientistas. Cada nova detecção de onda gravitacional, cada imagem refinada do horizonte de eventos, funciona como um teste direto das equações de Einstein em situações extremas. Até agora, a teoria resiste bem.
Ainda assim, a física de buracos negros continua incompleta. Questões fundamentais seguem em aberto, como o destino final da informação que cai em um buraco negro e a natureza exata da singularidade prevista pelo modelo clássico. Essas dúvidas alimentam cenários em que buracos brancos ou estruturas semelhantes poderiam surgir como solução matemática para paradoxos. Nada disso, ressalta Nemmen, aparece no céu com a clareza das sombras já registradas pelo EHT.
Enquanto novas gerações de telescópios e detectores são construídas, o debate sobre o que é fato, hipótese ou pura ficção tende a ficar mais intenso, não menos. Para o público, a chave pode estar em uma pergunta simples, repetida a cada notícia espetacular: o que já foi medido e o que ainda está só nas equações? A resposta, por enquanto, mantém buracos negros no centro da realidade e deixa buracos brancos e de minhoca confinados ao território mais instável, mas também mais criativo, das ideias.
