Novo pede afastamento imediato de Davi Alcolumbre no Conselho de Ética
O senador Eduardo Girão (Novo-CE) e a bancada do Novo protocolam, nesta segunda-feira (9/3), representação no Conselho de Ética para afastar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). O grupo acusa o comando do Senado de travar pedidos de impeachment de ministros do STF e de bloquear a criação da CPMI do Banco Master, ampliando a tensão entre Legislativo e Judiciário.
Pressão sobre o comando do Senado em meio à crise institucional
A ofensiva ocorre em um momento de desgaste acumulado no Congresso com o Supremo Tribunal Federal. Girão afirma que Alcolumbre se recusa a exercer o papel de freio e contrapeso previsto na Constituição. Na representação, o Novo fala em “estratégia deliberada” para impedir que o Senado fiscalize os demais poderes. O alvo central é a gaveta de pedidos de impeachment contra ministros do STF e a paralisia em torno da CPMI do Banco Master, tema que mistura suspeitas financeiras bilionárias e interesses políticos.
O documento apresentado por Girão sustenta que o Senado acumula ao menos 46 pedidos de impeachment contra integrantes do STF sem qualquer andamento formal. Alexandre de Moraes concentra 29 desses requerimentos. Gilmar Mendes é alvo de 9 pedidos e Dias Toffoli, de 7, sendo 6 apenas no último semestre, parte deles ligados à condução do caso Banco Master no tribunal. Girão, pré-candidato ao governo do Ceará, afirma que Alcolumbre se tornou “campeão de engavetamentos de pedidos de impeachment” e deveria, nas palavras dele, “pedir para sair”.
CPMI do Banco Master e Conselho de Ética paralisado
A representação também aponta a não instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Banco Master como prova da omissão. Deputados e senadores de oposição dizem reunir o número de assinaturas exigido desde o fim de 2025 para abrir a CPMI. No Senado, Girão relata ter coletado o apoio necessário para uma CPI exclusiva da Casa, igualmente não instalada por decisão de Alcolumbre. Para o Novo, esse bloqueio impede que irregularidades financeiras envolvendo recursos de fundos de previdência e órgãos públicos sejam apuradas de forma transparente no Congresso.
No texto encaminhado ao Conselho de Ética, os parlamentares afirmam que “essas graves omissões não podem ser interpretadas como mera inércia administrativa, mas, sim, em tese, como uma estratégia deliberada de impedir que o Senado Federal exerça o seu poder de controle sobre os demais poderes da República”. Segundo o partido, ao segurar temas de “tamanha relevância”, Alcolumbre impede que o plenário cumpra sua função constitucional. A ironia é que o próprio Conselho de Ética, escolhido como palco da reação, está inativo desde 2024 e ainda não foi instalado para o biênio 2025-2026.
Choque com o STF e protagonismo de Alexandre de Moraes
O movimento do Novo não se limita ao presidente do Senado. O partido protocola também notícia-crime e mais um pedido de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes, hoje o principal alvo da oposição. O documento leva a assinatura do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), pré-candidato à Presidência em 2026. Ao aderir formalmente à ofensiva, Zema nacionaliza o embate com o Supremo e tenta se posicionar como porta-voz de um eleitorado crítico ao poder da Corte.
Zema afirma que parte da magistratura “se julga intocável”. “Para nós brasileiros é muito ruim nós termos um pequeno grupo que se julga intocável, que se julga capaz de fazer de tudo e ficar imune”, diz. O governador afirma que “perfeição só existe no plano divino” e que juízes “cometem erros como qualquer outra carreira”. Ele defende mudanças na lei da magistratura, mas faz questão de preservar o conjunto da categoria: “A grande maioria dos magistrados, 99%, são pessoas corretas, que merecem o nosso respeito e estão tendo seu nome manchado por causa de uma minoria”.
Risco de impasse e disputa pela narrativa
A ofensiva contra Alcolumbre expõe um impasse prático. Sem o Conselho de Ética instalado, não há, por ora, colegiado apto a analisar o pedido de afastamento. O próprio presidente do Senado chegou a cogitar reativar o conselho em meados de 2025, quando o senador Marcos do Val (Podemos-ES) virou alvo de operação por deixar o país sem autorização judicial e passou a usar tornozeleira eletrônica. A ideia não avançou. Agora, a ausência do órgão torna-se argumento contra Alcolumbre, apresentado como símbolo de um Senado que abdica de punir seus próprios membros.
Se o conselho for finalmente instalado e decidir levar adiante a representação, Alcolumbre pode enfrentar um processo disciplinar com possibilidade de afastamento temporário da presidência. A simples abertura de investigação já teria impacto imediato sobre o ritmo da Casa e sobre a relação com o Palácio do Planalto e o STF. Governistas temem que um Senado sob nova direção se veja pressionado a desengavetar parte dos 46 pedidos de impeachment contra ministros do Supremo, alimentando uma crise já latente entre os poderes.
O que pode mudar no Senado e na relação entre os poderes
A disputa em torno da CPMI do Banco Master é hoje um dos pontos mais sensíveis. A instituição, liquidada no ano passado após uma sequência de denúncias, tornou-se foco de investigações que atingem governadores, ex-ministros, dirigentes de fundos de previdência e agentes do mercado financeiro. A oposição insiste que só uma comissão com poder de convocar autoridades, quebrar sigilos e cruzar dados pode dimensionar o prejuízo para cofres públicos, que já somam centenas de milhões de reais em aplicações suspeitas.
Para o Novo, o controle sobre o calendário de CPIs e a gaveta de pedidos de impeachment transforma o presidente do Senado em árbitro solitário de questões que deveriam ser decididas pelo colegiado. A legenda calcula que o desgaste de Alcolumbre, somado à crescente insatisfação de parte da base com o STF, pode abrir espaço para um rearranjo de forças internas. Em cenário de afastamento, ainda que provisório, a linha sucessória do Senado passaria a ser disputada voto a voto, com reflexo direto sobre o destino da CPMI do Banco Master e dos processos contra ministros.
Próximos passos e incertezas
Os próximos dias serão decisivos para saber se o Conselho de Ética sairá do papel. Líderes partidários avaliam, em conversas reservadas, se é preferível manter o órgão paralisado e blindar Alcolumbre ou reativá-lo sob risco de abrir uma caixa de Pandora. A instalação do conselho exige acordo entre as maiores bancadas e definição de um presidente capaz de conduzir processos sensíveis sem ampliar a crise.
Enquanto isso, a representação contra Alcolumbre e o novo pedido de impeachment de Alexandre de Moraes servem como instrumento de pressão política e munição de campanha para 2026. A ofensiva do Novo testa os limites da paciência do Senado com seu próprio comando e coloca em xeque o espaço efetivo de fiscalização que a Casa ainda pretende exercer sobre o Judiciário. A resposta a essa pressão dirá se o movimento foi um ponto de virada na relação entre os poderes ou apenas mais um capítulo em uma escalada de desconfiança sem solução à vista.
