Ciencia e Tecnologia

Novo mapa revela em alta resolução o continente oculto sob a Antártida

Uma equipe internacional de cientistas, liderada pela Universidade Grenoble-Alpes, apresenta em 2026 o mapa mais detalhado já feito do continente escondido sob o gelo da Antártida. O trabalho revela, em alta resolução, a paisagem rochosa soterrada por até 5 quilômetros de gelo e abre uma nova frente para prever a elevação do nível do mar.

Um continente escondido, agora em foco

O novo mapa reconstrói, com precisão inédita, o relevo que sustenta a imensa camada de gelo do polo sul. A imagem revela colinas, cristas e vales que nunca aparecem à luz do dia, mas controlam silenciosamente o destino das geleiras antárticas. Até agora, paradoxalmente, a ciência conhece melhor a superfície de Marte do que o leito rochoso do continente gelado.

Por décadas, pesquisadores dependem de levantamentos de radar feitos por aviões e veículos terrestres. Esses voos cobrem faixas estreitas, muitas vezes separadas por dezenas de quilômetros. Entre uma linha e outra, o que ocorre debaixo do gelo permanece em grande parte no escuro. O glaciologista Robert Bingham, coautor do estudo, resume o problema ao dizer que os dados tradicionais lembram “voos ocasionais separados por vários quilômetros” sobre uma cordilheira, deixando enormes lacunas.

A pesquisa publicada na revista Science rompe essa barreira. A equipe combina medições de satélites, que acompanham com precisão milimétrica a superfície do gelo, com modelos físicos que descrevem como essa massa se deforma e escoa. A lógica é simples e poderosa: irregularidades na rocha subjacente deixam marcas sutis na pele do gelo, como pedras submersas que criam redemoinhos em um rio.

“É um pouco como andar de caiaque em um rio: pedras submersas criam redemoinhos na superfície”, explica à BBC a glaciologista Helen Ockenden, autora principal do estudo. “Quando o gelo flui sobre uma colina no leito rochoso, isso se reflete na topografia da superfície.” Ao inverter esse raciocínio, os cientistas transformam pequenas ondulações visíveis do espaço em um retrato detalhado do mundo escondido sob a Antártida.

Detalhes inéditos e o impacto no clima

O resultado lembra a passagem da fotografia analógica para a digital. “É como se antes você tivesse uma câmera analógica com imagem granulada e agora tivesse uma imagem digital bem ampliada”, compara Ockenden. A nova visão expõe dezenas de milhares de formas de relevo antes invisíveis, de colinas isoladas a vales profundos que guiam o fluxo do gelo rumo ao oceano.

Entre as estruturas mais impressionantes está um canal gigantesco na Bacia Subglacial de Maud, com cerca de 400 quilômetros de extensão, 6 quilômetros de largura e profundidade média de 50 metros. Esse corredor rochoso funciona como uma espécie de rodovia para o gelo, definindo por onde ele pode acelerar e recuar. Ao longo da Antártida, montanhas enterradas e depressões escondidas exercem papel semelhante.

Esses detalhes não são mera curiosidade geológica. O relevo subglacial determina quão rápido as geleiras se movem e onde o gelo encosta no fundo do mar, duas variáveis decisivas para a elevação do nível dos oceanos. Em um planeta que já aquece mais de 1,1 °C em média desde a era pré-industrial, saber como a Antártida vai reagir nas próximas décadas deixa de ser só um exercício acadêmico.

Para a comunidade científica, o mapa muda o patamar das previsões. “É um produto realmente muito útil. Ele nos dá a oportunidade de preencher as lacunas”, avalia Peter Fretwell, pesquisador do British Antarctic Survey, que não participa do estudo. Com o novo conjunto de dados, modelos climáticos conseguem simular com mais realismo quais blocos de gelo se tornam instáveis primeiro, quanto tempo levam para deslizar rumo ao mar e qual a contribuição provável para o aumento do nível dos oceanos até o fim do século.

Governos e organismos internacionais acompanham com atenção esse tipo de avanço. Relatórios recentes do IPCC, o painel climático da ONU, apontam a Antártida como uma das maiores fontes de incerteza nas projeções de elevação do mar. Diferenças de poucos centímetros até 2100 significam, na prática, milhões de pessoas a mais ou a menos expostas a inundações costeiras, em cidades como Rio de Janeiro, Recife, Nova York e Xangai.

Ao refinar a base física dos modelos, o mapa subglacial oferece munição mais sólida para políticas de adaptação e planejamento urbano. Definições sobre obras de contenção, recuos de áreas costeiras e seguros climáticos dependem cada vez mais de números concretos, não de estimativas amplas. A cartografia recém-divulgada reduz essa margem de dúvida.

Próximos passos sob o gelo antártico

O novo retrato da Antártida não encerra o trabalho, mas inaugura uma fase diferente. Pesquisadores agora cruzam o mapa com séries históricas de velocidade do gelo e dados de temperatura do oceano para identificar pontos críticos de possível colapso. Regiões onde o relevo favorece o avanço de água morna sob as plataformas de gelo ganham prioridade em futuras expedições de campo.

A técnica também passa a servir de base para atualizações contínuas. Satélites em operação nas próximas décadas devem fornecer medições cada vez mais detalhadas da superfície do gelo, permitindo refinar o mapa à medida que o próprio continente se transforma. Na prática, o que hoje aparece como fotografia fixa pode virar algo próximo de um filme de longa duração do comportamento da Antártida.

A publicação na Science consolida o projeto como referência para futuras missões científicas ao polo sul. O esforço exige colaboração internacional ampla, financiamento de longo prazo e acesso aberto aos dados para equipes em diferentes países. Laboratórios de geociências, centros de modelagem climática e agências espaciais correm para incorporar o novo relevo em seus sistemas de previsão.

O avanço chega em um momento em que o mundo discute metas mais rígidas de corte de emissões de gases de efeito estufa e mecanismos de compensação para países mais vulneráveis. Quanto mais precisa for a conta da elevação do nível do mar, maior a pressão por decisões políticas ancoradas em evidências. O continente oculto sob a Antártida, agora visível em detalhes, passa a ter voz mais clara nesse debate global. A pergunta que permanece é se a política internacional vai se mover com a mesma rapidez que o gelo responde ao aquecimento.

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