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Novo biobanco em Dubai congela DNA de 10 mil espécies e mira extinção

A empresa de biotecnologia Colossal inaugura no Museu do Futuro, em Dubai, um biobanco capaz de armazenar milhões de amostras de 10 mil espécies. O Colossal Biovault preserva, entre elas, as 100 mais ameaçadas do planeta e o material genético do lobo-terrível, animal extinto recriado em laboratório em 2026.

Um “backup” da vida em plena crise de extinção

Instalado no coração de Dubai, o Colossal Biovault e Laboratório Mundial de Preservação nasce com uma ambição clara: fazer uma cópia de segurança da biodiversidade em meio à maior onda de extinções desde que há registro científico. A instalação reúne tecnologias de criopreservação, clonagem e edição genética para congelar tecidos e outras amostras biológicas em condições que permitam uso futuro em pesquisa, reprodução assistida e, em último caso, tentativa de ressurgimento de espécies.

O projeto marca a chegada da Colossal, sediada em Dallas, ao palco dos Emirados Árabes Unidos, país que investe US$ 60 milhões na empresa dentro de uma iniciativa de nove dígitos voltada à biotecnologia e à conservação. Fundada em 2021, a companhia já levantou US$ 615 milhões e se posiciona como um dos principais símbolos do movimento de “desextinção” – o esforço para recriar espécies desaparecidas a partir de DNA antigo e parentes vivos ainda existentes.

Em abril, a Colossal anuncia que “ressuscita” o lobo-terrível, predador que desaparece há milhares de anos, criando três animais – dois machos e uma fêmea – a partir de DNA antigo combinado com o genoma do lobo-cinzento. A façanha rende manchetes e críticas. Especialistas apontam que não se trata de uma cópia fiel, mas de híbridos geneticamente editados, com aparência próxima ao animal extinto. Ainda assim, o caso se torna a vitrine mais concreta do que a empresa promete fazer em larga escala.

Em entrevista à CNN, o cofundador e CEO Ben Lamm compara o novo biobanco ao Banco Mundial de Sementes de Svalbard, no Círculo Polar Ártico, que guarda quase 1,4 milhão de amostras de sementes. “Precisamos começar a fazer backup de toda a vida na Terra, porque, embora a conservação funcione, não está funcionando na mesma velocidade em que estamos erradicando espécies”, afirma.

Os números que embasam o discurso são robustos. A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza registra mais de 48 mil espécies ameaçadas entre 172,6 mil avaliadas. Estimativas de quantas se extinguem por ano variam, em parte porque muitas sequer foram descritas pela ciência. No Biovault, a estratégia é manter múltiplas amostras de cada espécie, para capturar o máximo possível de diversidade genética e garantir, no papel, a viabilidade de futuras populações.

Entre esperança biotecnológica e limites da conservação

O cofre de Dubai integra uma rede informal de iniciativas que tentam resgatar a biodiversidade pela via genética. Desde 1975, o Instituto de Pesquisa para a Conservação do Zoológico de San Diego mantém um “zoológico congelado” com material de mais de 1.300 espécies e subespécies. Dali já saem clones de quatro espécies ameaçadas, entre elas o cavalo-de-Przewalski, o gaur indiano e o furão-de-patas-pretas norte-americano.

Projetos como o britânico Frozen Ark, com 48 mil amostras – em grande parte DNA de animais como o leopardo-das-neves e o órix-de-cimitarra, extinto na natureza –, reforçam essa corrida para salvar, em tubos de ensaio, aquilo que está desaparecendo em florestas, savanas e oceanos. O diferencial da Colossal está na escala anunciada e na associação explícita com a desextinção, algo que ainda provoca mais perguntas do que respostas entre pesquisadores.

Em comunicado à CNN, a San Diego Zoo Wildlife Alliance classifica a expansão de biobancos de células vivas como “uma oportunidade sem precedentes e uma necessidade urgente para garantir o futuro da diversidade biológica da Terra”. A organização ressalta, porém, que “nenhuma organização sozinha pode fazer isso” e alerta para desafios de regulamentação, governança de longo prazo e coordenação entre países. A aposta, para a Aliança, é em um modelo distribuído, que fortaleça a capacidade de biobancos em nações com alta biodiversidade, em parceria com instituições experientes em coleções de longo prazo.

Ben Lamm tenta afastar a ideia de que os cofres congelados possam substituir a proteção de florestas, rios e mares, mas reforça o argumento de que perder espécies significa também perder informação. “Há também uma enorme quantidade de dados que às vezes perdemos quando uma espécie é extinta”, diz. Ele cita as aves como exemplo, lembrando que “têm sistemas imunológicos significativamente melhores do que os nossos” e que estudar esses mecanismos pode levar a benefícios diretos para a saúde humana. “Se você não se importa com os animais, deveria se importar, porque eles ajudam os humanos”, afirma.

Nem todos se convencem de imediato. Dusko Ilic, professor de ciência de células-tronco no King’s College London, afirma por e-mail que hoje não há informações públicas suficientes para avaliar o biobanco da Colossal. Ele diz querer ver mais detalhes sobre escopo, tipos de amostra, governança, acesso, financiamento de longo prazo e integração com as estruturas de conservação já existentes. “A criopreservação por si só não equivale a um impacto na conservação”, resume.

Para Ilic, zoológicos congelados funcionam melhor como instrumentos complementares, e não substitutos, da conservação em campo, da proteção de habitats e do manejo de populações. A crítica ecoa uma preocupação mais ampla entre especialistas: a de que a promessa tecnológica acabe servindo de álibi para retardar decisões duras sobre desmatamento, emissões de carbono e expansão agrícola em áreas sensíveis.

Rede global, disputa ética e o que vem depois

O lançamento em Dubai reúne ciência de ponta e espetáculo público. O biobanco ocupa um espaço envidraçado no Museu do Futuro, pensado para aproximar visitantes do trabalho em curso. O xeque Hamdan bin Mohammed bin Rashid Al Maktoum, príncipe herdeiro de Dubai, participa da inauguração e reforça o projeto como vitrine da estratégia de inovação dos Emirados. Ben Lamm explica que a escolha do local é deliberada: “Estamos trabalhando com o Museu do Futuro porque queremos exibi-lo. Queremos criar laboratórios vivos em exposição e atrair crianças e pessoas interessadas em ciência”.

A lista das 100 espécies mais ameaçadas que terão amostras congeladas ainda não está fechada. Um grupo de pesquisadores da Colossal e de instituições dos Emirados define, em um projeto conjunto, quais animais entram nessa primeira seleção. A empresa anuncia que o Biovault é apenas o início de uma rede global de biobancos, distribuída por diferentes países, com foco especial em regiões de alta biodiversidade, como Amazônia, Congo e Sudeste Asiático.

Essa expansão terá de enfrentar questões sensíveis: quem controla, em décadas ou séculos, o material genético de espécies que pertencem a ecossistemas de países pobres? Quem decide se uma espécie deve ser trazida de volta, e em que ambiente? Que direitos têm as comunidades que vivem nos territórios de origem desses animais? A San Diego Zoo Wildlife Alliance já antecipa a necessidade de “atenção cuidadosa ao cumprimento das políticas e acordos internacionais” e de marcos regulatórios claros para acesso e compartilhamento de benefícios.

Enquanto as respostas não chegam, o Biovault começa a congelar seu primeiro conjunto de amostras, sob temperaturas inferiores a 150 graus Celsius negativos, em tanques metálicos que mais lembram filmes de ficção científica do que um laboratório convencional. A imagem de um lobo-terrível caminhando em um recinto controlado, milênios depois de desaparecer, sintetiza o alcance simbólico desse esforço: a humanidade passa a decidir não apenas quais espécies sobrevivem, mas também quais podem ganhar uma segunda chance.

Se essa aposta será suficiente para conter a crise da biodiversidade, ou se ficará restrita a um punhado de espécies carismáticas exibidas em vitrines tecnológicas, ainda é uma pergunta em aberto. O certo, por enquanto, é que a corrida para congelar a vida acelera enquanto o relógio da extinção continua em contagem regressiva.

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