Nova onda de protestos estudantis desafia regime de Khamenei no Irã
Estudantes de universidades iranianas iniciam, no fim de semana de 22 e 23 de fevereiro de 2026, uma nova onda de protestos contra o regime de Ali Khamenei. As manifestações marcam a volta às ruas após a violenta repressão que, pouco mais de um mês antes, deixou milhares de mortos em atos contra o governo.
Universidades voltam a ser epicentro da contestação
Os atos se espalham por diferentes campi em Teerã, Mashhad, Isfahan e Shiraz, entre outras cidades universitárias. Em pátios lotados, estudantes erguem cartazes que pedem o fim do autoritarismo, a libertação de presos políticos e reformas democráticas. Os cânticos se repetem em coro, em gravações que circulam em redes sociais, driblando a censura interna.
A nova mobilização acontece pouco mais de trinta dias após a fase mais dura da repressão recente. Naquele período, forças de segurança e milícias ligadas à Guarda Revolucionária responderam a protestos de rua com tiros, prisões em massa e toques de recolher informais. Organizações de defesa de direitos humanos falam em milhares de manifestantes mortos desde o início da atual crise, em números que o governo não confirma e tenta desmentir.
Neste fim de semana, o ambiente dentro das universidades mistura medo e determinação. Estudantes se organizam em assembleias rápidas, muitas vezes convocadas apenas horas antes dos atos, para reduzir a chance de infiltração e monitoramento. Professores simpatizantes acompanham à distância, alguns participam discretamente, outros preferem não se expor após ver colegas detidos em ondas anteriores.
Um estudante de engenharia, que fala sob anonimato por medo de retaliação, resume o clima em uma mensagem enviada por aplicativo a colegas: “Se ficarmos calados depois de milhares de mortos, seremos cúmplices. Estamos cansados de viver com medo”. O recado se espalha em grupos fechados e vira frase repetida nos protestos.
Memória da repressão recente e pressão externa elevam tensão
A lembrança da repressão ainda fresca marca o comportamento dos dois lados. O governo testa um equilíbrio delicado entre evitar a imagem de nova chacina e não parecer fraco diante da contestação universitária. Viaturas permanecem estacionadas nas entradas dos campi, e policiais à paisana circulam entre os estudantes, acompanhando cada palavra de ordem.
O movimento estudantil, por sua vez, busca aprender com derrotas anteriores. Manifestantes evitam grandes concentrações em avenidas centrais e concentram as ações na própria estrutura universitária, que oferece rotas de fuga e certa proteção simbólica. A estratégia reduz a visibilidade nas ruas, mas amplia a capilaridade do protesto e dificulta uma repressão aberta em todos os campi ao mesmo tempo.
O contexto internacional aumenta a pressão. A presença de navios de guerra dos Estados Unidos próximos ao litoral iraniano, relatada nas últimas semanas, alimenta a sensação de cerco externo e amplia a temperatura política. Em Teerã, diplomatas avaliam que qualquer novo surto de violência interna pode servir de pretexto para discursos mais duros em Washington, em capitais europeias e em países do Golfo.
Analistas ouvidos por veículos internacionais apontam que o levante estudantil revela um descolamento geracional em relação ao regime. Jovens que cresceram conectados à internet, mesmo com filtros e bloqueios, mostram pouca disposição para aceitar as limitações impostas por um sistema político baseado em tutela religiosa e controle rígido da vida pública. “A cada década, o regime enfrenta uma geração mais impaciente com as mesmas promessas não cumpridas”, resume um pesquisador de Oriente Médio em entrevista à imprensa estrangeira.
Risco de nova repressão e efeitos além das fronteiras
A retomada dos protestos coloca o governo iraniano diante de uma encruzilhada. Se repetir a linha dura que, há pouco mais de um mês, resultou na morte de milhares de manifestantes, o país pode enfrentar condenações mais fortes em organismos internacionais, novas sanções e isolamento ainda maior. Se optar por uma resposta mais contida, abre espaço para que a mobilização se espalhe para outras camadas da sociedade.
Diplomatas na região avaliam que uma escalada interna pode repercutir diretamente na segurança de rotas marítimas estratégicas, incluindo o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial comercializado por mar. Em um cenário de maior instabilidade, o Irã pode usar sua capacidade de pressão sobre essas rotas como instrumento de barganha, afetando preços de energia em mercados já sensíveis.
No plano interno, a movimentação estudantil devolve protagonismo político à juventude, que tem sido o motor de grandes abalos ao regime desde a Revolução Islâmica de 1979. A diferença, agora, é a combinação entre memória recente de uma repressão letal, quase em tempo real, e capacidade de mobilização digital, mesmo em ambiente de vigilância intensa.
Familiares de vítimas dos protestos anteriores acompanham cada novo ato com um misto de apreensão e esperança. Em vídeos compartilhados em canais criptografados, mães exibem fotos de filhos mortos e pedem que os estudantes “não deixem o sacrifício ser esquecido”. O tom emotivo reforça o caráter de resistência, mas também expõe a dimensão humana dos números citados em relatórios de organizações internacionais.
Próximos capítulos em um tabuleiro imprevisível
O governo de Khamenei evita, até agora, um pronunciamento detalhado sobre a nova onda universitária, limitando-se a culpar “inimigos externos” e “agitadores infiltrados” pela instabilidade. Autoridades de segurança prometem agir “com firmeza” se considerarem que a ordem pública está em risco, expressão recorrente que deixa aberta a porta para operações mais duras.
Os próximos dias devem indicar se os protestos ficam circunscritos aos campi ou se ganham adesão de trabalhadores, sindicatos e outros grupos urbanos, como ocorreu em levantes anteriores. Em um cenário de economia pressionada por sanções, inflação elevada e desemprego juvenil crescente, qualquer faísca universitária pode encontrar terreno fértil fora dos portões das faculdades.
Nas salas de aula, muitos estudantes já falam em manter um calendário contínuo de atos, com paralisações parciais, boicotes a aulas e eventos culturais de contestação política. A aposta é que a persistência, e não um único grande dia de protestos, aumente o custo político da repressão e force algum grau de abertura.
Enquanto a liderança iraniana tenta mostrar controle e a comunidade internacional observa à distância, o país entra em mais um ciclo de incerteza. A pergunta que ecoa entre os jovens nas universidades, e agora ganha o mundo, é se este será apenas mais um capítulo de uma longa história de repressão e resistência ou o início de uma ruptura real com o regime que domina o Irã há décadas.
