Nova medição revela Júpiter menor e mais achatado do que se pensava
Júpiter é um pouco menor do que a ciência registra há décadas. Um novo estudo publicado em 2026 na revista Nature Astronomy, com dados da sonda Juno, mostra que o maior planeta do Sistema Solar tem raios equatorial e polar ligeiramente reduzidos em relação às medidas clássicas usadas em livros e materiais oficiais.
Planeta gigante, ajuste milimétrico
A revisão vem de uma equipe do Instituto Weizmann de Ciências, em Israel, que usa um método mais preciso para medir o planeta. Os pesquisadores concluem que o raio equatorial de Júpiter é 4 quilômetros menor e o raio polar é 12 quilômetros menor do que apontavam estimativas anteriores, baseadas nas missões Voyager e Pioneer, dos anos 1970 e 1980.
O ajuste parece pequeno diante de um planeta com cerca de 140 mil quilômetros de diâmetro, mas tem peso simbólico e prático. Esses números aparecem em livros didáticos, tabelas oficiais e modelos astronômicos usados por pesquisadores no mundo inteiro. Quando as referências mudam, mesmo que por alguns quilômetros, toda a cadeia de cálculos que depende delas passa a ser revisada.
A diferença também confirma que Júpiter é ainda mais achatado do que se supunha. O planeta gira em pouco menos de 10 horas e essa rotação acelerada estica o equador e comprime as regiões polares. Com os novos dados, os cientistas refinam o grau desse achatamento e ganham pistas sobre a distribuição de massa no interior do gigante gasoso.
Como a Juno enxerga através das nuvens
A principal novidade não está em Júpiter em si, mas na forma de medi-lo. A equipe usa o chamado método de ocultação de rádio, uma técnica que analisa como sinais enviados pela sonda Juno atravessam a atmosfera do planeta antes de chegar à Terra. Ao passar por camadas de gás de densidades diferentes, o feixe de rádio sofre pequenas variações, que funcionam como uma espécie de raio X do contorno do planeta.
As medições são feitas ao longo de várias órbitas, em diferentes pontos e ângulos. Com isso, os pesquisadores ajustam com alta precisão a fronteira entre a atmosfera observável e o que se considera o “raio” do planeta. A missão Juno está em operação desde 2016 e, segundo o estudo, os últimos dois anos concentram a maior taxa de coleta de dados relevantes para esse tipo de análise.
O trabalho corrige valores que vinham de uma outra era da exploração espacial. As missões Voyager e Pioneer forneceram, há mais de 40 anos, o padrão que passou a ser reproduzido em catálogos e livros. Os novos instrumentos, porém, têm sensibilidade muito maior, tanto nos relógios internos que marcam o tempo de viagem do sinal quanto nas antenas que recebem esses dados na Terra.
Yohai Kaspi, cientista planetário e coautor do estudo, resume o impacto dessa transição tecnológica. “Os livros didáticos precisarão ser atualizados. O tamanho de Júpiter não mudou, é claro, mas a forma como o medimos, sim”, afirma. O recado interessa tanto a astrônomos profissionais quanto a professores de ensino médio que se apoiam em números oficiais para explicar o Sistema Solar.
Por que alguns quilômetros fazem diferença
As novas dimensões de Júpiter não alteram o fato de que ele continua sendo o maior planeta do Sistema Solar, com folga em relação a Saturno. O impacto é outro: modelos que buscam entender a estrutura interna do planeta passam a trabalhar com fronteiras mais estreitas de incerteza. Em escala científica, reduzir alguns quilômetros em um raio planetário significa ganhar precisão na hora de estimar densidade, composição e até a existência de um núcleo sólido.
Esse refinamento não fica restrito ao entorno de Júpiter. Gigantes gasosos observados em outros sistemas planetários, os chamados exoplanetas, são interpretados com base no que se aprende em casa. Quando o modelo de referência melhora, a leitura desses mundos distantes também muda. Diferenças aparentemente mínimas em tamanho podem alterar classificações, simulações de formação e previsões sobre atmosferas e campos magnéticos.
Os autores do estudo fazem questão de afastar uma interpretação apressada: Júpiter não está encolhendo. O que muda é o grau de precisão com que a comunidade científica consegue descrevê-lo. A partir de agora, catálogos astronômicos, bancos de dados internacionais e materiais didáticos tendem a incorporar os novos números, em um processo gradual, mas inevitável.
A atualização também reforça o papel da missão Juno dentro da estratégia da Nasa para os gigantes gasosos. A sonda não se limita a produzir imagens espetaculares; ela oferece medidas finas de gravidade, campo magnético e estrutura atmosférica que sustentam revisões como esta. Em um cenário de orçamentos disputados, resultados concretos ajudam a justificar a continuidade e a expansão de missões semelhantes.
O que a revisão de Júpiter antecipa sobre o Sistema Solar
Júpiter provavelmente é o primeiro planeta a se formar no Sistema Solar. Entender com precisão seu tamanho e sua forma significa avançar na reconstrução da história do próprio sistema, desde o disco de gás e poeira que existia há 4,5 bilhões de anos. Cada correção nas medidas alimenta simulações de computador que tentam reproduzir como esse material se agrupou até gerar planetas como a Terra.
A pesquisa publicada na Nature Astronomy abre caminho para que técnicas semelhantes sejam aplicadas a Saturno e, no futuro, a novos gigantes gasosos visitados por sondas. Missões em planejamento, como exploradores específicos de luas geladas, podem se beneficiar do método de ocultação de rádio para extrair mais informações de cada passagem pelos planetas que orbitam.
No curto prazo, o efeito mais visível deve aparecer em atualizações discretas: uma tabela que muda alguns números, um livro didático que ajusta um diagrama, um site de divulgação científica que revisa um infográfico. Em escala de décadas, porém, essas pequenas correções acumuladas desenham um retrato mais fiel do Sistema Solar. A pergunta que fica é quantos outros detalhes, ainda escondidos nos dados das sondas, vão obrigar a reescrever o que parecia definitivo sobre os vizinhos da Terra.
