Nova estratégia militar dos EUA reativa Doutrina Monroe
O Pentágono publica neste sábado (24) uma versão atualizada da Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos e recoloca a Doutrina Monroe no centro da política para o Hemisfério Ocidental. O documento prioriza a dissuasão da China, reforça a defesa do território americano e pressiona aliados na Europa, no Oriente Médio e na Península Coreana a assumir a “responsabilidade primária” por sua própria segurança.
Washington redistribui o peso da segurança global
A nova estratégia marca uma inflexão no discurso de defesa de Washington. O texto classifica a Rússia como ameaça “persistente” ao flanco leste da Otan, mas deixa claro que o foco central da máquina militar americana migra para a dissuasão da China e para a proteção direta do território dos EUA. A mensagem aos aliados europeus é explícita: a guerra na Ucrânia e a segurança no continente devem ser conduzidas, em grande medida, com recursos e liderança da própria Europa.
O documento afirma que a responsabilidade pela solução do conflito “recai em grande medida sobre os ombros europeus”, numa formulação rara em documentos oficiais desse tipo. A tolerância histórica com orçamentos de defesa enxutos entre parceiros da Otan é tratada como um período encerrado. Na prática, Washington sinaliza que não pretende seguir arcando, sozinho, com a conta de uma estrutura de segurança global construída desde o fim da Segunda Guerra.
A estratégia também amplia a cobrança sobre aliados no Oriente Médio e na Península Coreana. Países dessas regiões são instados a assumir “responsabilidade primária” por sua própria defesa, o que implica aumento de gastos militares, compra de armamentos avançados e maior autonomia operacional. O recado acompanha uma reordenação de prioridades, em que os EUA buscam preservar capacidade de projeção em temas considerados estruturais para as próximas décadas, em especial a competição com Pequim.
Na região Indo-Pacífica, o texto é direto: a dissuasão da China aparece como “prioridade principal” da defesa americana. O Pentágono descreve o ambiente internacional como mais instável e competitivo e vincula a modernização de seu arsenal a essa leitura. Em um esforço de calibragem política, a estratégia afirma que a política de longo prazo dos EUA em relação à China “não inclui tentativas de mudar o governo” em Pequim, nem “outras formas de conflito” além da disputa estratégica.
Doutrina Monroe volta ao vocabulário oficial
O trecho mais sensível para a América Latina está na seção sobre o Hemisfério Ocidental. A estratégia afirma que os EUA “não cederão mais acesso ou influência sobre terreno-chave” na região, “do Ártico à América do Sul”, e explicita o objetivo de “garantir que a Doutrina Monroe seja mantida em nosso tempo”. A referência recoloca, de forma aberta, uma doutrina formulada em 1823 para barrar potências europeias no continente e historicamente usada para justificar intervenções e pressão sobre governos latino-americanos.
A mensagem mira, sobretudo, a presença de China e Rússia em áreas consideradas sensíveis, como infraestrutura estratégica, portos, telecomunicações e mineração. Ao falar em “terreno-chave”, o texto sugere vigilância reforçada sobre o controle de rotas marítimas, bases militares, cabos submarinos e cadeias de suprimento críticas. A formulação oferece um fundamento doutrinário para阻entar ou reverter acordos de países latino-americanos com atores extra-regionais em setores considerados vitais por Washington.
O movimento deve repercutir em capitais latino-americanas que, nos últimos anos, aprofundam laços econômicos, tecnológicos e militares com Pequim. Em 2023, por exemplo, a América Latina soma dezenas de bilhões de dólares em investimentos chineses em energia, infraestrutura e mineração, em especial no Brasil, na Argentina, no Chile e no Peru. O novo tom americano tende a pressionar governos a explicitar escolhas estratégicas e pode reabrir debates internos sobre soberania e alinhamento geopolítico.
No campo militar interno, o documento prevê uma ampla modernização do complexo industrial de defesa dos EUA. O esforço é descrito como “mobilização do esforço de toda a nação americana”, linguagem que remete a programas de rearmamento de períodos de Guerra Fria. O texto anuncia ainda um programa extenso de modernização das forças nucleares, com justificativa categórica: “Os Estados Unidos nunca — jamais — ficarão vulneráveis à chantagem nuclear”.
A frase sintetiza a disposição de sustentar, nas próximas décadas, investimentos bilionários em mísseis balísticos, submarinos nucleares e sistemas de comando e controle. A estratégia aponta ainda prioridade para o desenvolvimento de sistemas de defesa contra veículos aéreos não tripulados e outras ameaças aéreas de baixo custo, em linha com o uso massivo de drones observado em conflitos recentes da Ucrânia ao Oriente Médio.
Aliados sob pressão e cenário de disputas prolongadas
A nova diretriz sobre o Irã reitera que os EUA “não permitirão” que Teerã obtenha armas nucleares, reforçando uma linha de confronto que atravessa diferentes governos desde o início dos anos 2000. Sobre a Coreia do Norte, o texto afirma que Pyongyang amplia seu potencial nuclear e a descreve como “um perigo claro e presente de ataque nuclear ao território americano”. A escolha da expressão “Homeland” sublinha a percepção de ameaça direta aos EUA, e não apenas a aliados na região.
Na área de terrorismo, o Departamento de Defesa promete uma abordagem “sustentável em recursos”, focada em organizações com “capacidade e intenção” de atacar o território americano. O recorte indica redução de operações extensas e de longo prazo, como as que marcaram o pós-11 de Setembro no Afeganistão e no Iraque, e prioriza ações pontuais contra alvos avaliados como risco imediato. A lógica é preservar meios militares para a competição entre grandes potências, sem abandonar o combate a ameaças assimétricas.
Para a Europa, a mudança de tom significa aumento quase inevitável nos orçamentos de defesa. Muitos países ainda estão abaixo da meta de 2% do PIB em gastos militares, compromisso firmado no âmbito da Otan. A expectativa é que a cobrança americana acelere programas de modernização de forças armadas, reforço de estoques de munição e investimento em tecnologia militar, em especial em sistemas de defesa aérea e capacidades cibernéticas.
Na América Latina, a reafirmação da Doutrina Monroe tende a reaquecer debates históricos sobre o papel dos EUA na região. Países que enxergam na diversificação de parceiros uma forma de ampliar margens de autonomia podem interpretar o documento como tentativa de limitar escolhas soberanas. Governos mais alinhados a Washington, por outro lado, podem usar o novo texto como argumento para reforçar cooperação militar e buscar acesso a equipamentos e tecnologia americana.
Disputa de longo prazo e incertezas para a região
A publicação da estratégia indica que os EUA se preparam para uma competição de décadas, com impacto direto sobre orçamentos públicos, cadeias industriais e negociações diplomáticas. A ênfase na modernização nuclear e na defesa contra drones sugere um cenário de corrida tecnológica constante, em que armamentos mais sofisticados convivem com sistemas de ataque baratos e de fácil disseminação.
No Hemisfério Ocidental, a aposta na Doutrina Monroe como referência explícita abre uma fase de teste para governos da América Latina. Cada novo contrato de infraestrutura, parceria tecnológica ou acordo militar com China, Rússia ou outros atores extra-regionais tende a ser observado sob lente mais rígida por Washington. A forma como a região reage a essa pressão, e como os EUA transformam a estratégia em ações concretas, definirá se o retorno da velha doutrina será apenas retórico ou o início de um novo ciclo de tensões.
