Ciencia e Tecnologia

Nova corrida à Lua reacende disputa espacial entre EUA, China e Brasil

Estados Unidos e China travam até 2030 uma nova corrida para colocar novamente humanos na Lua, em um cenário que mistura disputa militar, tecnologia de ponta e negócios bilionários. O Brasil tenta se reposicionar nesse tabuleiro, apostando em parcerias com Pequim e na retomada de seu programa espacial.

Corrida à Lua se confunde com disputa militar

Desde o início da era espacial, nos anos 1950, o espaço é visto pelos militares como um novo campo de batalha, depois da terra, do mar e do ar. Hoje, essa percepção se intensifica com o desenvolvimento de armas capazes de derrubar satélites e paralisar comunicações, navegação e sistemas financeiros em minutos.

“Um aspecto central da capacidade militar no espaço hoje é o desenvolvimento de armas antissatélites. Tratam-se de mísseis balísticos capazes de atingir e destruir satélites para ‘cegar’ o inimigo durante um conflito”, afirma Ronaldo Carmona, professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra e pesquisador sênior do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. Estados Unidos, China, Rússia e Índia já testam com êxito esse tipo de armamento, que se torna o novo marco do poder militar espacial.

O alvo simbólico dessa disputa volta a ser a Lua. A China, por meio da agência espacial CNSA, trabalha para realizar seu primeiro pouso tripulado até 2030, mais de meio século depois de o ser humano caminhar ali pela última vez, em 1972, com a missão Apollo 17. O calendário coincide com o de Artemis II, programa dos Estados Unidos que pretende retomar os voos tripulados ao redor do satélite natural e, em seguida, pousar novamente na superfície.

A corrida está aberta. Enquanto a Nasa se apoia na SpaceX e no sistema Starship, projetado para ser o maior foguete da história, Pequim acumula marcos próprios, como o primeiro pouso bem-sucedido de uma sonda no lado oculto da Lua. Mesmo dentro do governo americano, há dúvidas sobre a estratégia atual. “Esse é um plano que nenhum administrador da Nasa, que eu tenha conhecimento, teria selecionado se tivesse tido a escolha”, disse Jim Bridenstine, que comandou a agência durante o primeiro mandato de Donald Trump.

Da Guerra Fria à economia espacial global

A nova corrida não repete a lógica da Guerra Fria, quando Estados Unidos e União Soviética concentram sozinhos as principais missões. Empresas privadas e países emergentes entram no jogo e ampliam o número de atores com interesses no espaço. A disputa por prestígio cede lugar também à busca por mercados, dados e tecnologias estratégicas.

“Diferente da Guerra Fria, onde os programas eram estritamente governamentais, a corrida atual está aberta e o apoio da indústria privada é essencial para que os americanos tentem garantir a liderança novamente”, avalia o professor de relações internacionais Gunther Rudzit. Em menos de duas décadas, a SpaceX reduz drasticamente o custo de lançamentos ao reutilizar foguetes e transforma o setor em plataforma de negócios, de turismo orbital a megaconstelações de satélites.

O avanço privado incomoda parte da geração que inaugurou a era espacial. Entre 2010 e 2011, no Congresso americano, o astronauta Neil Armstrong, primeiro homem a pisar na Lua em 1969, critica o espaço aberto às empresas comerciais. Pouco depois, morre aos 82 anos, enquanto o modelo que ele questiona se consolida como eixo da estratégia americana.

Para o coronel Carlos Moura, ex-presidente da Agência Espacial Brasileira, o cenário global muda de forma estrutural. “Hoje não são apenas governos que disputam o espaço; há uma forte competição por negócios envolvendo grandes investidores privados. Atividades cotidianas, como geolocalização e comunicação, dependem desses serviços”, observa. Segundo ele, a utopia do espaço como bem comum cede lugar à ideia de domínio do espaço, em meio ao recrudescimento das disputas internacionais.

O contraste com a primeira corrida é nítido. Nos anos 1950 e 1960, soviéticos e norte-americanos se alternam em marcos históricos. O Sputnik 1, lançado pela União Soviética em 1957, inaugura a era dos satélites artificiais e força Washington a criar a Nasa no ano seguinte. Em 1961, Yuri Gagarin se torna o primeiro humano em órbita; três semanas depois, Alan Shepard realiza o primeiro voo espacial tripulado dos EUA. O ciclo culmina em julho de 1969, quando a Apollo 11 pousa em Mare Tranquillitatis e consolida a vitória americana na disputa lunar.

Brasil tenta recuperar espaço perdido

O Brasil participa da nova corrida de forma indireta, mas estratégica. Desde os anos 1980, o país mantém uma cooperação com a China na área de satélites, o programa CBERS, usado até hoje para monitorar o desmatamento da Amazônia e mudanças no uso do solo. A parceria nasce em um momento em que Pequim enfrenta sanções e barreiras tecnológicas impostas por Estados Unidos e Europa.

“Naquele momento os chineses eram muito interessados em cooperar com o Brasil na área espacial e eles fizeram a proposta ao governo brasileiro de se criar um programa conjunto para construir e lançar um satélite artificial”, relembra Maurício Santoro, professor da UERJ e especialista em relações Brasil-China. “A razão pela qual a China queria essa cooperação brasileira é porque na época a China estava sujeita a muitos bloqueios, e o Brasil não estava.”

Quatro décadas depois, a lógica se inverte parcialmente. A China consolida um dos programas espaciais mais robustos do mundo, com estação espacial própria, missões lunares e planos para Marte. O Brasil acumula atrasos, cortes orçamentários e acidentes, como a explosão no centro de lançamentos de Alcântara em 2003, que mata 21 técnicos e engenheiros.

A despeito dos tropeços, militares e especialistas defendem que o setor volta a ser prioridade. “O Brasil, dada a sua condição geográfica, população e economia, necessita de aplicações espaciais em áreas como meio ambiente, agricultura e logística”, afirma Moura. Segundo ele, o país domina parte da tecnologia e consegue transformar dados orbitais em serviços, mas ainda não possui uma “economia espacial” consolidada, diferente do que ocorre na aviação e no agronegócio.

Em 2025, Brasília e Pequim anunciam um novo passo nessa relação ao iniciar a construção de um laboratório conjunto de tecnologias espaciais, em acordo com a estatal chinesa de eletrônicos de defesa CETC. A iniciativa se soma a um grande projeto de telescópio instalado na América do Sul e aprofunda a integração científica entre os dois países.

Geopolítica, economia e o lugar do Brasil na Lua

O retorno planejado à Lua, liderado por Estados Unidos e China, abre uma frente concreta de disputa por recursos naturais raros, como hélio-3, e por posições de vantagem para futuras infraestruturas no espaço. Bases lunares podem servir de ponto de apoio para missões mais longas e de laboratório para tecnologias de mineração, energia e comunicação avançada.

Investimentos em foguetes, satélites e sistemas de defesa também movem bilhões em contratos públicos e privados. A militarização do espaço impulsiona estudos sobre novas gerações de armas antissatélites, capazes de paralisar redes inteiras de comunicação e navegação. Em um país como o Brasil, cuja economia depende de dados de satélite para monitorar safras, prever o tempo e gerenciar portos, a vulnerabilidade dessas infraestruturas se torna questão de segurança nacional.

“Investir no setor é fundamental não apenas para a defesa militar, mas para a segurança da economia e dos serviços essenciais ao cidadão, buscando um grau maior de autonomia nacional”, resume Moura. Na prática, isso significa formar engenheiros, financiar pesquisas e garantir continuidade de programas além dos ciclos eleitorais.

A nova corrida espacial também atinge salas de aula e laboratórios. Programas de foguetes universitários, startups de microssatélites e empresas de geolocalização surgem em diferentes regiões do país, de São José dos Campos ao interior do Nordeste. Cada missão de grande porte, como o programa Artemis, reaquece o interesse por carreiras em ciência, tecnologia, engenharia e matemática, consideradas vitais para sustentar a presença humana fora da Terra.

A CNN Brasil prepara para março uma série de reportagens especiais sobre o Brasil na Lua, na esteira da expectativa pelo lançamento de Artemis II. A nova etapa da exploração espacial expõe, ao mesmo tempo, o atraso histórico e a capacidade científica do país. A dúvida que permanece é se o Brasil vai se limitar ao papel de fornecedor de dados e bases em solo ou se conseguirá, nas próximas décadas, disputar um lugar próprio nesse novo mapa do espaço.

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