No Dia Mundial do Doente, Papa Leão XIV reza na Gruta de Lourdes
Papa Leão XIV conduz, na manhã desta quarta-feira, oração na Gruta de Lourdes, nos Jardins do Vaticano, e acende uma vela em solidariedade aos doentes no Dia Mundial do Doente.
Um gesto silencioso em um dia dedicado ao sofrimento
A cena é contida, mas carregada de simbolismo. Diante da imagem de Nossa Senhora de Lourdes, nos Jardins do Vaticano, o Papa se detém, reza em voz baixa e acende uma vela. O gesto, repetido em milhares de santuários pelo mundo, ganha outra dimensão neste 11 de fevereiro, data em que a Igreja Católica celebra o Dia Mundial do Doente desde 1992.
Ao deixar a Sala Paulo VI após a audiência geral, Leão XIV segue para a Gruta de Lourdes, onde um pequeno grupo de enfermos e acompanhantes já o espera. Muitos chegam em cadeiras de rodas, outros se apoiam em familiares ou voluntários. O clima é de expectativa, mas sem euforia. Quando o Papa toma a palavra, escolhe começar pela proximidade de Maria. “É um dia muito bonito que nos faz recordar a proximidade de Maria, nossa mãe, que sempre nos acompanha e nos ensina tanto: o significado do sofrimento, o amor, o entregar a vida nas mãos do Senhor”, afirma.
Na prática, o Vaticano transforma a agenda desta quarta-feira em uma mensagem dirigida não apenas aos que estão fisicamente presentes, mas aos milhões de doentes que acompanham a cerimônia pela televisão, rádio e plataformas digitais. Em menos de 15 minutos, o Papa condensa uma catequese sobre dor, cuidado e esperança, enquanto reforça a ideia de que ninguém enfrenta a doença sozinho.
Fé, cuidado e a presença de quem sofre
Leão XIV deixa claro que a celebração não se restringe ao pequeno espaço nos Jardins do Vaticano. “Hoje, neste Dia Mundial do Doente, queremos rezar em comunhão com todos aqueles que sofrem no mundo. Rezamos por vocês”, diz, dirigindo-se aos enfermos diante dele, mas também a quem acompanha pela tela. A frase ecoa a intenção original da data, criada há 34 anos por João Paulo II para chamar atenção global à realidade dos doentes e dos sistemas de saúde.
O foco da manhã não é um anúncio institucional nem uma nova diretriz para hospitais católicos. O que o Papa oferece é presença. Ao agradecer “o esforço de vir e nos acompanhar neste momento de oração, aqui diante de nossa mãe, Maria, em sua memória litúrgica, Nossa Senhora de Lourdes”, ele legitima o percurso de quem enfrenta filas, deslocamentos longos, dores crônicas e limites físicos para estar ali. Para muitos, trata-se da primeira e talvez única oportunidade de ver um pontífice de perto.
Antes da oração da Ave Maria e da bênção, o Papa amplia o olhar para além dos leitos. “Pedimos também a bênção do Senhor para vocês, para todos os doentes neste dia e sempre, e para todos aqueles que acompanham as ciências médicas, os doutores, os enfermeiros e as muitas pessoas que estão perto de nós, especialmente nos momentos mais difíceis”, afirma. A menção explícita a médicos, enfermeiros e profissionais de saúde resgata o desgaste acumulado em anos recentes, especialmente após a pandemia de covid-19, que expôs fragilidades de sistemas públicos e privados em vários países.
A referência à ciência médica, em um contexto de oração, ajuda a consolidar o discurso de complementaridade e não de oposição entre fé e tratamento clínico. A mensagem é direcionada a famílias que, diariamente, tentam equilibrar diagnósticos, exames, remédios caros e uma busca por sentido diante da dor. Ao falar do “significado do sofrimento”, Leão XIV não traz uma explicação filosófica longa, mas reforça a ideia da entrega e do cuidado mútuo como caminhos possíveis.
Simbolismo, repercussão e próximos passos
O acendimento da vela diante de Nossa Senhora de Lourdes, padroeira dos doentes, não é um detalhe. A imagem será reproduzida, recortada e compartilhada em redes sociais ao longo do dia, transformando um gesto de poucos segundos em referência visual da data. Em dioceses de todos os continentes, padres e bispos se apoiam nessa cena para organizar missas, vigílias, unções dos enfermos e visitas a hospitais e casas de repouso.
No curto prazo, o movimento mais visível é a multiplicação de iniciativas de solidariedade. Paróquias reforçam campanhas para arrecadar remédios, custear exames e financiar transporte de pacientes. Grupos de pastoral da saúde planejam mutirões de visita a enfermarias e unidades de terapia intensiva. Em muitos países de renda baixa e média, onde faltam leitos e equipes, a lembrança do Dia Mundial do Doente expõe não só a dimensão espiritual, mas também o déficit concreto em políticas públicas.
A cerimônia no Vaticano funciona como um ponto de convergência desse debate. Ao destacar tanto os doentes quanto os profissionais que os acompanham, Leão XIV abre espaço para que conferências episcopais, hospitais filantrópicos e entidades civis retomem discussões sobre acesso a cuidados paliativos, atenção à saúde mental e melhora das condições de trabalho em enfermarias e prontos-socorros. Em alguns países europeus, dados recentes mostram aumento de casos de burnout entre enfermeiros e queda no número de profissionais dispostos a permanecer na linha de frente.
O Vaticano não divulga metas numéricas ou planos detalhados neste dia, mas a liturgia indica um caminho. A expectativa entre especialistas em pastoral da saúde é que os próximos meses tragam documentos e orientações mais específicas para acompanhamento de doentes crônicos, idosos e pessoas em fim de vida. Em paralelo, cresce a pressão para que governos e gestores hospitalares traduzam o discurso de solidariedade em orçamento, estrutura e equipes.
Na Gruta de Lourdes, a manhã termina sem anúncios grandiloquentes. Ficam o silêncio após a oração, a chama da vela e a memória de um Papa que escolhe se aproximar de quem sofre. A pergunta que permanece, a partir deste 11 de fevereiro, é se o impulso gerado por esse gesto simbólico se manterá vivo nos corredores de hospitais, nos lares e nas decisões políticas que definem quem terá, de fato, acesso a cuidado e conforto quando a doença chega.
