Nikolas Ferreira elogia decisão de Moraes que veta atos na Papuda
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) surpreende ao elogiar, neste sábado (24), a decisão do ministro Alexandre de Moraes que proíbe manifestações no entorno do Complexo da Papuda, em Brasília. A medida, tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), busca evitar desordens durante protestos ligados às prisões pelos atos de 8 de janeiro de 2023.
Decisão de Moraes muda o tom do embate
A manifestação de apoio ocorre enquanto Nikolas lidera uma caminhada que sai de Paracatu, no Noroeste de Minas Gerais, e segue rumo a Brasília em defesa dos presos pelos ataques de 8 de janeiro e do ex-presidente Jair Bolsonaro. O grupo entra no Distrito Federal na véspera do ato final, marcado para domingo (25), na Praça do Cruzeiro, a cerca de 6,4 quilômetros do Congresso Nacional.
Durante o trajeto, o deputado comenta a decisão de Moraes, relator dos inquéritos sobre os ataques às sedes dos Três Poderes. Em despacho recente, o ministro veta qualquer manifestação nas imediações do Complexo Penitenciário da Papuda, incluindo o Núcleo de Custódia da Polícia Militar, conhecido como Papudinha, onde estão detidos investigados e condenados pelos atos antidemocráticos, entre eles Bolsonaro.
“Ali é uma área de segurança nacional. Sei que, além dos presos, perseguidos políticos que estão ali, também têm outros presos ali. Então achei a decisão prudente. Afinal de contas, a gente não quer gerar nenhum tipo de desordem”, afirma Nikolas, cercado por apoiadores, em vídeo que circula nas redes sociais.
O elogio chama atenção por partir de um dos parlamentares mais críticos ao STF e a Moraes. Nikolas constrói sua carreira nacional em confronto aberto com decisões da Corte e com o governo Lula. Agora, pela primeira vez em meses, adota tom de concordância ao falar do ministro. “Até o relógio parado acerta duas vezes. Acho que foi uma decisão correta do ministro”, completa.
A fala se torna rapidamente combustível no debate político. Aliados de Bolsonaro veem na postura do deputado um gesto calculado para reforçar a imagem de responsabilidade e afastar qualquer associação da caminhada com novos episódios de violência. Integrantes da base governista, por outro lado, tratam o movimento com cautela e lembram o histórico de críticas de Nikolas ao Judiciário.
Segurança, Papuda e o 8 de janeiro no horizonte
A decisão de Moraes mira um dos pontos mais sensíveis do mapa político e de segurança do país hoje. O Complexo da Papuda abriga presos de alta relevância, como Bolsonaro, além de condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes do Congresso, do STF e do Planalto são invadidas e depredadas em Brasília. Desde então, o entorno da penitenciária se transforma em palco frequente de vigílias, protestos e caravanas de apoiadores.
Nos últimos dois anos, manifestações em frente a quartéis, órgãos públicos e presídios se tornam foco de preocupação para as forças de segurança. Em 8 de janeiro, a falha na contenção de grupos radicais resulta em imagens de destruição que correm o mundo. O STF endurece a resposta, acelera julgamentos e determina centenas de prisões. A Papuda vira símbolo desse novo momento, com celas reservadas a condenados por tentativa de golpe e ataques à democracia.
Nesse contexto, Moraes determina a proibição de atos nas redondezas do complexo e da Papudinha, sob o argumento de preservar a segurança nacional e evitar risco de tumultos. A decisão vale para manifestações de qualquer espectro político e atinge diretamente mobilizações como a de Nikolas, que pretendem transformar Brasília em palco de contestação às prisões e às decisões do Supremo.
O deputado tenta se distanciar da imagem de radicalização que marca o 8 de janeiro. “Nós temos aqui seis dias de manifestação pacífica, ordeira, sem nenhum ato de vandalismo. Aquilo que aconteceu no dia 8 foi lamentável”, diz. Ele insiste na narrativa de protesto disciplinado, com regras rígidas para os participantes, e reforça que o foco é denunciar o que chama de “perseguição” do STF e do governo Lula a opositores.
A caminhada mobiliza carros de som, ônibus fretados e caravanas que cruzam cidades ao longo da BR-040. No trecho final, já próximo ao Distrito Federal, o grupo impacta o trânsito em pontos da rodovia e obriga a Polícia Rodoviária Federal e forças locais a redobrarem a atenção. Nikolas passa a circular de colete à prova de balas, medida que associa a ameaças e ao clima de tensão que envolve a política nacional.
Impacto político e expectativa para o ato de domingo
O apoio pontual de Nikolas à decisão de Moraes não altera, por si só, a correlação de forças entre STF e bolsonarismo, mas produz ruído relevante. Ao reconhecer a prudência da medida, o deputado tenta se colocar como liderança capaz de dialogar com o discurso da ordem e, ao mesmo tempo, sustentar a narrativa de injustiça contra os presos do 8 de janeiro. A mensagem é dirigida tanto ao público radicalizado quanto a eleitores de direita que rejeitam cenas de violência.
Para o Supremo, a repercussão serve como validação indireta da estratégia de reforçar cordões de isolamento em torno de áreas consideradas críticas, como presídios federais, instalações militares e prédios dos Três Poderes. A restrição a atos perto da Papuda, se respeitada, reduz o risco de confrontos diretos entre manifestantes e forças de segurança, além de tentar evitar a formação de acampamentos permanentes, como os vistos em 2022 diante de quartéis pelo país.
Na prática, a decisão de Moraes desloca o eixo da manifestação de Nikolas para a Praça do Cruzeiro, tradicional ponto de encontros religiosos e atos cívicos em Brasília. O local fica a poucos quilômetros do Congresso, mas distante das unidades prisionais. A medida reduz o potencial de pressão direta sobre a Papuda e limita imagens de apoiadores diante dos muros que hoje simbolizam a reação estatal aos atos de 8 de janeiro.
O sucesso ou fracasso do ato de domingo funciona como termômetro da capacidade de mobilização do bolsonarismo em 2026. Depois de dois anos de investigações, condenações e perda de direitos políticos, Bolsonaro depende cada vez mais de aliados jovens e de forte presença nas redes, como Nikolas, para manter influência. Uma manifestação numerosa, porém pacífica, reforça o discurso de perseguição sem abrir espaço para novas acusações de ameaça à democracia.
Próximos passos e teste de estabilidade política
Nikolas afirma que o ato de domingo será “muito, muito lindo” e repete que não há qualquer intenção de repetir o 8 de janeiro. As autoridades de segurança do Distrito Federal, no entanto, montam operação especial, com reforço no policiamento de vias de acesso, monitoramento eletrônico e contato direto com a cúpula dos Três Poderes. O governo Lula acompanha os movimentos com atenção, preocupado com possíveis tentativas de capitalizar eventuais incidentes.
O próximo capítulo se desenha justamente na interação entre manifestantes, STF e governo federal. Se o protesto terminar sem confrontos, a decisão de Moraes ganha peso como modelo para futuros eventos em áreas sensíveis. Em caso de tumultos, crescerá a pressão por medidas ainda mais duras e por responsabilização de organizadores e financiadores. A partir deste fim de semana, Brasília testa não apenas os limites da liberdade de expressão, mas também a capacidade do sistema político de conviver com a contestação sem repetir o trauma de 8 de janeiro.
