Nikolas convoca obstrução contra Erika Hilton na Comissão da Mulher
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) convoca, nesta quinta-feira (12/3/2026), deputadas a obstruírem a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher em reação à eleição de Erika Hilton (PSOL-SP) para a presidência do colegiado. A parlamentar acusa LGBTfobia e afirma que não pretende abrir mão do comando da comissão.
Convocação nas redes e disputa pela presidência
O conflito explode nas primeiras horas da manhã, quando Nikolas usa seus perfis em redes sociais para questionar a escolha de Erika Hilton para o posto mais alto da comissão. Ele pede que deputadas impeçam o funcionamento do colegiado até que o comando mude de mãos. “As deputadas mulheres não deveriam deixar a comissão de mulheres acontecer. Obstruir e fazer uma zorra até mudar a presidência. É o cúmulo aceitar isso”, escreve.
O mineiro também divulga um abaixo-assinado eletrônico, que ele apresenta como defesa da “representatividade feminina na presidência da Comissão da Mulher”. O texto circula em grupos de apoiadores e busca pressionar o bloco de partidos que controla a indicação de cargos internos na Câmara. O movimento amplia uma reação que começa logo após o anúncio da escolha de Erika, uma das principais lideranças trans do país, para o comando de um dos colegiados mais disputados da Casa.
Erika reage, fala em LGBTfobia e reforça permanência
Na outra ponta da disputa, Erika Hilton transforma a contestação em bandeira política. Em publicação nas redes, diz que assume a presidência da comissão com “alegria e um sabor muito especial” e ressalta o caráter simbólico da eleição. “O fato disso incomodar mais do que a onda de violência contra a mulher que assola nosso país diz muita coisa”, escreve a parlamentar do PSOL de São Paulo.
Erika afirma sofrer ataques LGBTfóbicos desde que seu nome é confirmado para o cargo. Ela argumenta que a presença de pessoas trans em espaços de poder mostra que essas lideranças também podem representar as mulheres brasileiras, ainda que existam diferenças entre elas. “Pois o que nos une, o nosso desejo de vitórias e avanços para todas nós, é muito maior que nossas diferenças”, afirma. A deputada avisa que não cogita recuar. “Se os conservadores estão incomodados agora, eles que se preparem. E não estou nem um pouco preocupada se o esgoto da sociedade não gostou”, completa.
Embate entre conservadores e progressistas ganha corpo
A reação de Nikolas ecoa em grupos conservadores da Câmara, que já vinham criticando a presença de uma mulher trans no comando da Comissão da Mulher. O argumento central desses setores é que a presidência deveria ser reservada a mulheres cisgênero, posição que entidades de direitos humanos classificam como discriminatória. Do outro lado, parlamentares de partidos de esquerda e centro-esquerda defendem que a eleição de Erika, primeira mulher trans a presidir o colegiado, representa um marco de inclusão no Parlamento.
A tensão se insere em um cenário mais amplo de polarização em torno de pautas de gênero e diversidade. Nos últimos anos, a Câmara passa a ser palco frequente de embates sobre direitos LGBTQIA+, aborto legal, combate à violência doméstica e acesso a políticas públicas específicas para mulheres. O comando da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, responsável por debater projetos nessas áreas e organizar audiências públicas, torna-se peça estratégica nesse tabuleiro político.
Judicialização e impacto na agenda de direitos
Enquanto enfrenta resistência dentro da Câmara, Erika se movimenta também na esfera judicial. A deputada processa o apresentador Ratinho, do SBT, após ele afirmar em programa de televisão que mulheres trans não são mulheres. Ela pede a responsabilização do comunicador por transfobia, à luz de decisões do Supremo Tribunal Federal que enquadram práticas LGBTfóbicas como crime de racismo desde 2019.
A soma da convocação de obstrução, do abaixo-assinado e da ação judicial empurra o tema da representatividade trans para o centro do debate nacional. Organizações feministas, coletivos LGBTQIA+ e setores religiosos acompanham a disputa com atenção, avaliando como a correlação de forças na Comissão da Mulher pode influenciar projetos sobre violência de gênero, saúde reprodutiva e políticas de acolhimento a pessoas trans. A presidência do colegiado define, por exemplo, quais propostas entram na pauta semanal, quem é ouvido em audiências públicas e quais temas ganham prioridade ao longo de 2026.
O que está em jogo na Câmara dos Deputados
A ofensiva de Nikolas busca impedir que a comissão funcione normalmente enquanto Erika permanecer no cargo. Se a obstrução ganhar corpo e se estender por semanas, projetos que tratam desde a ampliação de casas-abrigo até campanhas de prevenção ao feminicídio podem ficar parados. Em 2025, o colegiado analisa mais de uma centena de proposições relacionadas a direitos das mulheres, o que torna o impasse de agora especialmente sensível para organizações que atuam na área.
A direção da Câmara é pressionada a arbitrar o conflito, seja por meio de negociação política entre partidos, seja por decisão formal sobre a validade da eleição de Erika Hilton. Lideranças governistas e de oposição calculam o custo de se posicionar de forma clara num tema que mobiliza tanto a base conservadora quanto movimentos progressistas. Enquanto isso, permanece em aberto se a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher conseguirá iniciar o ano legislativo com agenda cheia ou se ficará travada por uma guerra interna que expõe, de forma crua, os limites da inclusão e da diversidade nos espaços de poder em Brasília.
