Nikolas conclui caminhada a Brasília com colete e pressão sobre STF
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) chega neste domingo (25) a Brasília, após caminhar cerca de 240 km desde Paracatu (MG), em ato em defesa de Jair Bolsonaro e contra decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Nos últimos dias do trajeto, ele passa a usar colete à prova de balas, alegando ameaças recentes.
Caminhada transforma gesto simbólico em ato político nacional
A caminhada começa em 19 de janeiro de 2026, em Paracatu, no Noroeste de Minas, como uma iniciativa isolada do parlamentar. Ao longo da BR-040, o gesto ganha proporção maior, com a adesão de outros congressistas, militantes bolsonaristas e eleitores do deputado. A previsão é de encerramento na tarde deste domingo, na Praça do Cruzeiro, em Brasília, ponto tradicional de manifestações políticas e religiosas.
O movimento se estrutura como resposta direta às decisões do STF sobre os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. Nikolas contesta principalmente a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado após a derrota eleitoral de 2022 e hoje detido no Complexo da Papuda, na capital federal. Nos discursos ao longo da rodovia, o deputado insiste na narrativa de perseguição política e diz que as penas impostas a condenados do 8 de janeiro são “exageradas” e “injustas”.
Um vídeo divulgado nas redes sociais do parlamentar registra a entrada do grupo no Distrito Federal. As imagens mostram apoiadores com bandeiras do Brasil, cartazes com fotos de Bolsonaro e faixas com críticas à Corte. Em transmissões ao vivo, Nikolas apresenta a caminhada como “ato pacífico” e afirma que pretende “mostrar ao STF e ao Congresso que o povo não aceita abuso de autoridade”. A Corte não comenta as declarações.
Colete à prova de balas e grades no Planalto expõem clima de tensão
Nos últimos dias do trajeto, o colete à prova de balas passa a fazer parte da rotina do deputado. Segundo apuração divulgada pela rádio Itatiaia, a assessoria de Nikolas afirma que o uso do equipamento é medida preventiva após ameaças recentes. A origem e a autoria dessas ameaças não são detalhadas pelo gabinete. Em vídeos, o parlamentar menciona “riscos reais” e diz que decidiu não “subestimar o clima do país”.
Em Brasília, o governo federal reage ao ambiente de tensão. No sábado (24), um dia antes do ato final, o Palácio do Planalto é cercado por grades metálicas, instaladas em todo o perímetro mais próximo da sede do Executivo. O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) justifica a medida “em virtude da possibilidade de manifestações programadas em locais próximos à instalação presidencial”. A proteção reforçada lembra os bloqueios adotados após os ataques de 8 de janeiro de 2023, quando golpistas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes.
As ações preventivas não se restringem ao entorno do Planalto. A segurança pública do Distrito Federal monitora convocatórias em redes sociais, tanto de apoiadores da caminhada quanto de grupos contrários ao movimento. A expectativa é de concentração de centenas de pessoas na Praça do Cruzeiro, com potencial de aumento desse número a depender da mobilização de última hora. A Praça fica a alguns quilômetros da Esplanada dos Ministérios, o que reduz, mas não elimina, o risco de deslocamento de manifestantes para a região central.
O ato de Nikolas reacende também o embate institucional em torno da Papuda, onde estão Bolsonaro e outros condenados. Decisões recentes do ministro Alexandre de Moraes, que proíbe acampamentos e manifestações em frente à unidade prisional conhecida como Papudinha, são alvo constante de críticas de parlamentares bolsonaristas. O grupo argumenta que há “cerceamento da liberdade de expressão”, enquanto o STF sustenta que as medidas buscam evitar novas ações de caráter golpista.
Polarização retomada e disputa por narrativa no centro do poder
O impacto político da caminhada vai além dos 240 km percorridos. Ao conduzir um ato centrado na figura de Bolsonaro e nas decisões do STF, Nikolas se projeta como um dos principais porta-vozes do bolsonarismo no Congresso. A presença de outros parlamentares no trajeto, mesmo que intermitente, sinaliza tentativa de reorganização do campo político de direita em torno da pauta das prisões do 8 de janeiro. A manifestação também recoloca em evidência a discussão sobre os limites entre protesto legítimo e incitação a atos antidemocráticos.
Na prática, o movimento pressiona o Supremo em meio a um conjunto de processos ainda em andamento sobre o 8 de janeiro e sobre o próprio Bolsonaro. A Corte já condena dezenas de envolvidos, com penas que chegam a mais de 15 anos de prisão, e mantém o ex-presidente preso preventivamente enquanto julga recursos e novas ações penais. Aliados do governo veem na caminhada uma tentativa de desgastar o tribunal e alimentar desconfiança sobre a Justiça. Já apoiadores de Nikolas argumentam que o ato defende “a independência dos poderes” e “o direito de questionar decisões judiciais”.
Em Brasília, a expectativa é de efeitos imediatos no Congresso. A mobilização deve fortalecer iniciativas legislativas que buscam limitar o alcance de decisões monocráticas de ministros do STF e ampliar mecanismos de controle sobre o Judiciário. Lideranças de centro observam o movimento com cautela, temendo que o embate direto com a Corte aprofunde a paralisia em votações relevantes, como reformas econômicas e projetos na área de segurança pública.
A segurança pública também entra no centro do debate. O uso do colete à prova de balas por um deputado em plena rodovia federal sintetiza a escalada de hostilidade no ambiente político desde 2018. Especialistas em violência política alertam que, sem uma sinalização clara de respeito às regras democráticas por parte das lideranças, protestos de massa podem se tornar palco de intimidações, agressões e, em casos extremos, novos episódios de ruptura institucional.
Brasília em alerta e incerteza sobre próximos capítulos
O desfecho da caminhada, na Praça do Cruzeiro, funciona como termômetro do momento político. A avaliação de autoridades de segurança se concentra em dois pontos: a capacidade de Nikolas de mobilizar grandes grupos em defesa de Bolsonaro e a eventual presença de caravanas de outros estados. Uma demonstração de força pode incentivar novas marchas e atos em capitais, enquanto uma adesão modesta tende a limitar o alcance prático da iniciativa, mas não esvazia o simbolismo do gesto.
O governo federal acompanha de perto os desdobramentos e avalia ajustes nas estratégias de proteção das sedes dos Três Poderes, caso as manifestações se tornem frequentes. No STF, ministros observam com cautela a tentativa de transformar decisões judiciais em alvo permanente de campanhas de rua. A caminhada de 19 a 25 de janeiro termina em Brasília, mas deixa em aberto uma pergunta central: até onde irá a disputa de narrativas em torno do 8 de janeiro e da prisão de Jair Bolsonaro no país que ainda tenta fechar as feridas da última crise institucional?
