Nasa revela que Júpiter é ligeiramente menor do que se pensava
A Nasa informa nesta quarta-feira (4) que Júpiter é um pouco menor e mais achatado do que indicavam as medições oficiais. A revisão, baseada em dados recentes da missão Juno, ajusta com precisão de poucos quilômetros o raio do maior planeta do Sistema Solar.
Gigante encolhe alguns quilômetros
O anúncio corrige um número que parecia consolidado há décadas nos livros e tabelas astronômicas. O raio equatorial de Júpiter, que constava como 71.492 quilômetros, passa a ser 71.488 quilômetros. O valor encolhe apenas 4 quilômetros, variação irrelevante no dia a dia, mas crucial para quem calcula com rigor a forma do planeta.
O achatamento nos polos também ganha novo contorno. O raio polar, estimado em 66.854 quilômetros desde a década de 1970, é atualizado para 66.842 quilômetros. A diferença de 12 quilômetros reforça a imagem de um planeta mais espremido nas extremidades, efeito direto de sua rápida rotação, que completa um dia em cerca de 10 horas.
A mudança não ameaça o posto de maior planeta do Sistema Solar. Júpiter continua superando com folga Saturno e os demais vizinhos. O que muda é a qualidade da régua usada para medi-lo. Em vez de depender de estimativas aproximadas, astrônomos passam a trabalhar com um valor amarrado a observações mais finas, apoiadas em tecnologia que não existia quando as primeiras medidas foram feitas.
Como a sonda Juno enxergou sob as nuvens
As novas dimensões surgem a partir da análise de 13 sobrevoos de Júpiter feitos pela sonda Juno. A nave, em órbita desde 2016, cruza repetidamente os arredores do planeta, em trajetórias alongadas que passam muito perto do topo das nuvens. Em cada aproximação, cientistas aproveitam a ocultação de rádio, técnica que mede como os sinais enviados pela sonda são distorcidos ao atravessar a atmosfera joviana.
Na prática, o método funciona como um exame de ultrassom em escala planetária. As ondas de rádio atravessam as camadas densas e opacas da atmosfera, invisíveis a telescópios ópticos, e revelam mudanças na densidade e na refração ao longo do caminho. A partir dessas variações, pesquisadores reconstruem a estrutura vertical da atmosfera e localizam com mais precisão a região que serve de referência para definir o raio do planeta.
A equipe também incorpora ao cálculo o efeito dos ventos zonais, correntes gigantescas que dominam Júpiter em faixas paralelas ao equador. Esses ventos, que ultrapassam 300 quilômetros por hora em algumas regiões, redistribuem massa e alteram levemente a forma do planeta. “A ocultação de rádio é usada para ‘enxergar’ através das densas e opacas nuvens da atmosfera de Júpiter, a fim de compreender sua estrutura interna”, explicou a Nasa ao divulgar os resultados.
O contraste com o passado é evidente. As medidas anteriores vinham de apenas seis experimentos de ocultação de rádio realizados pelas sondas Pioneer e Voyager, na década de 1970. Eram pioneiras, mas limitadas pela tecnologia da época, pela cobertura esparsa e pelo entendimento ainda incompleto da dinâmica atmosférica joviana.
Por que alguns quilômetros fazem diferença
À primeira vista, uma redução de 4 ou 12 quilômetros em um planeta com mais de 70 mil quilômetros de raio parece irrelevante. Em astronomia de precisão, a escala é outra. Raio, massa e forma determinam o campo gravitacional, a distribuição interna de materiais e o comportamento da atmosfera. Um desvio pequeno na borda pode se transformar em erro considerável em modelos que simulam o interior do planeta.
Esse ajuste ganha ainda mais peso fora do Sistema Solar. A Nasa define o novo raio de Júpiter como um “padrão essencial de calibração” para a modelagem de exoplanetas gigantes, mundos gasosos que orbitam outras estrelas. Muitos desses planetas são detectados quando passam na frente de sua estrela, produzindo uma queda sutil de brilho. Para converter essa queda em tamanho físico, astrônomos dependem de modelos que usam Júpiter como referência direta.
“Ter uma forma mais precisa ajudará os astrônomos a interpretar melhor os dados de planetas observados passando em frente à sua estrela hospedeira muito além da nossa vizinhança cósmica”, afirma a agência. Na prática, isso significa estimativas menos incertas sobre diâmetro, densidade e composição desses mundos distantes, pontos-chave para entender como eles se formam e evoluem.
Observatórios espaciais como o James Webb e missões dedicadas a exoplanetas, caso da europeia Cheops e da americana TESS, se beneficiam desse refinamento. Quando os dados de trânsito chegam aos computadores, a comparação com um Júpiter melhor conhecido reduz ambiguidades. Modelos atmosféricos passam a distinguir com mais segurança se um exoplaneta se parece mais com um gigante gasoso inflado, um mundo denso e compacto ou algo entre esses extremos.
Próximos passos e novas perguntas
A revisão do tamanho de Júpiter é um capítulo de uma investigação maior sobre a estrutura interna do planeta. A missão Juno segue em operação e continua a coletar dados de rádio, gravidade e campos magnéticos. Cada novo sobrevoo acrescenta detalhes sobre profundidade dos ventos, distribuição de elementos pesados e possíveis camadas de transição entre atmosfera e interior.
Os resultados também orientam futuras missões ao sistema joviano, como a europeia Juice e a americana Europa Clipper, voltadas às grandes luas do planeta. Um Júpiter melhor definido ajuda a planejar órbitas, prever perturbações gravitacionais e interpretar medições nessas luas geladas, candidatas a abrigar oceanos subterrâneos.
O ajuste de alguns quilômetros na borda de Júpiter, portanto, não é um detalhe estatístico. Essa conta mais fina redesenha a régua que astrônomos usam para medir gigantes gasosos em toda a galáxia. A partir de agora, cada novo exoplaneta observado carrega, em segundo plano, a sombra ligeiramente menor de Júpiter. A pergunta que permanece é até onde essa precisão crescente vai mudar a forma como enxergamos a formação de planetas, aqui e em outros sistemas estelares.
